6 de outubro de 2009
Era uma vez no Centro-Oeste
BLOG, Cinema, Festival do Rio 2009
CABEÇA A PRÊMIO
Première Brasil
Por Fernando Gerheim
O narcotráfico é um tema onipresente na América Latina e geralmente Maras, Zetas, Farc, ADA, CV, PCC etc. são tratados de forma diversa do que ocorre em “Cabeça a prêmio”. Aqui o tema sócio-político serve a um faroeste edipiano na tríplice fronteira Brasil, Paraguai e Bolívia, onde Mirão, criador de gado e narcotraficante, é encarnado por um Fúlvio Stefanini com um barrigão dramaticamente perfeito para o papel. Só que a trama não recai no policial, nem no social, nem no romântico, e sim no trágico. O duro e grosseiro Mirão só se derrete pela linda filha Elaine (Alice Braga), que provoca a lei paterna envolvendo-se com o piloto de avião paraguaio Denis (Daniel Hendler), que trabalha para o seu pai. O ótimo filme de estréia de Marco Ricca reúne um elenco excelente e conduz a história com mão firme até a corda da decadência da família Menezes ficar totalmente esticada.
O filme revela a engrenagem interior de nuestro narcotráfico arraigada num patriarcado assentado no latifúndio. Nele não aparece uma única carreira de cocaína. A lente desvia-se da ilustração do óbvio para a intimidade dos personagens: Mirão sofre de disfunção alimentar, e a imagem dele com seu barrigão monumental, afundado na poltrona, devorando uma caixa de chocolates, funciona como uma perfeita rima do corpo com a lei capitalista do acúmulo e a deterioração do indivíduo pelo vício; o alheamento progressivo de sua esposa (Ana Braga) cujo physique du rôle rotundo, embora não comparável ao do marido, forma com ele um bom par, é traduzido na sua imagem estirada na espreguiçadeira, ao lado da piscina: ela bebe uísque, dá um trago, bebe mais, dá outro trago, bebe outro gole, começa a cantar uma música regional e entra na água de roupa e tudo, bailando enquanto vemos apenas as pernas da empregada na beira da piscina, de um lado para o outro, sem saber o que fazer.
O ethos dos dois capangas de Mirão, representados por Eduardo Moscovis e Cássio Gabus Mendes, também é dissecado: no caso do primeiro, pela relação com a ex-prostituta que virou dona de bar (Via Negromonte), e no do segundo pela resignação com a própria condição. O quadro se completa com Abílio (Otávio Muller), irmão gay de Mirão, que compete com ele nos negócios. Tudo se precipita quando o piloto é procurado pela polícia para ser testemunha contra os irmãos Menezes. Ele e Eliane fogem juntos, atravessando a fronteira. Mas a felicidade deles dependerá de outra transgressão. O confronto final não é com a Lei, mas entre filha e pai. As forças envolvidas em um sistema arcaico na América Latina ganha registro trágico.
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