5 de janeiro de 2009
Era mais jogo se eu tentasse fazer charme de intelectual
Por Arnaldo Branco
Semana passada minha coluna deu margem a erros de interpretação e comentários descartando a Nouvelle Vague e o Expressionismo Alemão como meros exercícios de cabecismo. Dizem que quando o escritor tem que se explicar pro público um dos dois é débil mental, mas aqui nem cabe a dúvida - levanto a mão me acusando. Foi mal.
Claro que toda panela cultural que se arvora em movimento atrai picaretas e, mais adiante na História, diluidores, mas a contribuição estética dessas, digamos, escolas, é inegável. Sem elas talvez os atores continuassem a falar como máquinas de telex e a fusão fosse o único recurso usado para designar a mudança entre as cenas. Mas o que mais chama atenção é essa bronca a priori contra o esforço intelectual.
Pra mim toda discussão que chega ao ponto em que alguém acusa o outro de intelectualóide ou similar já está decidida contra quem acusou. Parece o argumento daqueles que são contra o campeonato brasileiro de pontos corridos porque ele beneficia os clubes com melhor estrutura. (Para não ser de novo malinterpretado - é assim que escreve agora? - sou contra o campeonato de pontos corridos, mas por outros motivos). Não é esse o objetivo?
Apesar de o mundo estar mesmo repleto de ostentadores intelectuais que se dedicam ao name dropping como se fosse modalidade olímpica, a ambição de ter um espírito ilustrado é louvável e a contribuição milionária de todas as referências é, ou deveria ser, bem-vinda. Tachar erudição de esnobismo é bobagem - e se for para contra-argumentar no mesmo nível, é inveja mesmo, blébléblébléblé.
E fora que só o preconceito e a ignorância justificam o uso de certos nomes como referencial no quesito pseudismo - por exemplo, pegar Truffaut como exemplo de autor difícil é puro desconhecimento de causa. O que O Homem que Amava as Mulheres tem de cabecista? É uma comédia romântica.
Sempre lembro do Woody Allen comentando o fato de ser sempre confundido com um intelectual, apesar de ter bagagem literária relativamente modesta: “é que eu uso óculos”.
11 comentários para “Era mais jogo se eu tentasse fazer charme de intelectual”
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5 de janeiro de 2009 às 15:13
[...] Branco não nasceu de óculos, ele não era assim. Ainda assim, leia a sua coluna desta semana aqui. E não esqueça: amanhã tem Fotodiário celular [...]
5 de janeiro de 2009 às 19:08
Isso não é nada, há muuuuuitos anos atrás, quando a Cora Rónai ainda era a crítica de cinema do JB, lembro dela falando duma entrevista do Roberto D’Ávila com o Woody Allen e dizendo que, ao perguntar se ele gostava de pizza, tinha desperdiçado uma grande chance frente a um “poderoso intelectual”, confundindo-o com um “cômico”.
Você sabe o que eu penso de Woody Allen.
5 de janeiro de 2009 às 22:53
Espero uma coluna explicando porque és contra o campeonato de pontos corridos!
9 de janeiro de 2009 às 14:07
[...] 3) Minha coluna para a Zé Pereira: Era mais jogo se eu tentasse fazer charme de intelectual. [...]
11 de janeiro de 2009 às 19:34
Porra, perdi o respeito, cade o argumento supremo que humor é julgamento sumário?
Além do que, nunca entendi o ponto de discussões intelectuais sobre arte em geral, a menos que se discuta quem influenciou quem. No final, arte é apreciação e em último caso, se reduz ao mero gosto. O mesmo cara que gosta de Fellini pode se render, mesmo que secretamente, a um filme de porradaria chinês B, e sem precisar recorrer a comprimidos para se livrar da culpa….
12 de janeiro de 2009 às 5:07
Maneiras as argumentações.
Eu também sempre achei viagem “acusar” outra pessoa de intelectual.
Também já ri dessa de que ponto corrido beneficia o time com estrutura melhor “tem que dar chance pros pequenos” - grita algum botafoguense.
Malinterpretado continua igual mesmo.
Por fim, me amarrei no blébléblé - vou adotar.
12 de janeiro de 2009 às 11:19
Chamar de intelectualóide é julgamento sumário, certo - mas é humor?
12 de janeiro de 2009 às 12:49
Na verdade me referi ao argumento contra quem discordar que expressionismo alemão é cabecista….
12 de janeiro de 2009 às 16:04
Sim, continua valendo o que disse. Julgamento sumário não é necessariamente humor, mas humor é necessariamente julgamento sumário.
12 de janeiro de 2009 às 22:21
ah tá, agora entendi.. mas dessa vez eu fui o débil mental…
6 de maio de 2009 às 14:37
Have a Great Time Playing