8 de outubro de 2009
Entre o cult e o popstar nas HQs brasileiras
BLOG, FIQ 2009, Quadrinhos
No segundo dia do 6º Festival Internacional de Quadrinhos, o “super-astro” Maurício de Sousa, o quadrinho alemão em pauta e o reconhecimento ao mestre Renato Canini. E as primeiras impressões das exposições!
Por Dandara Palankof
Fotos: Rose Lima
Vídeo: Eduardo Souza Lima
Se todo evento de porte tem sua grande estrela pop, a deste 6º FIQ com certeza é Maurício de Sousa. O grande quadrinista e empresário não é um dos homenageados oficiais do festival, mas coube a ele toda a pompa e circunstância de demoradas apresentações e de uma certa blindagem pela organização. Tudo, claro, justificado pelo grande público que compareceu apenas para vê-lo.
O primeiro compromisso do eterno pai da Turma da Mônica conseguiu praticamente lotar o maior teatro do local, o Grande Teatro do Palácio das Artes (uma pena que as outras atrações ainda não consigam o mesmo feito). Cerca de 1500 crianças e pré-adolescentes, escolhidos entre escolas locais, compareceram ao Festival, passeando pelas outras exposições, e fazendo uma bem-vinda algazarra para ver e ouvir o criador de personagens que permeiam também mais esta geração. E que conquista cada vez mais terreno. “Mas uma coisa boa mesmo que ele fez foi a Turma da Mônica Jovem, né?”, disse Rafael, de 10 anos, sentado ao meu lado.
Quando Maurício entra no palco, a festa fica maior ainda; gritos, aplausos, o nome do artista cantado em coro e um “Parabéns a você” (Maurício faz aniversário este mês) puxado por sua “hostess” Sandra Bittencourt, que começou contando a história de Maurício como se fosse uma fábula. O autor emendou, falando um pouco de sua idílica infância numa rua extremamente miscigenada, brincando de pés descalços; “Minha infância foi tão boa que me recuso a sair dela”, disse; e da influência da avó, segundo ele, a maior contadora de histórias que já conheceu.
Ao abrirem para as perguntas, o caos se instalava sempre que o microfone circulava; é como se para elas fosse mais importante fazer a pergunta do que ouvir suas respostas (apesar de um combinado no início do bate-papo pelo silêncio nessa hora); até Maurício pediu um pouco menos de barulho em determinado momento; passou então a andar pelo palco enquanto falava, absorvendo melhor a atenção de todos.
Maurício afirmou que nunca imaginou que teria tamanho sucesso quando começou. “Ninguém normal diz ‘vou fazer sucesso’ e simplesmente faz; tem que se preparar e trabalhar sério; foi o que eu fiz, para desenhar, distribuir, e estar aqui com vocês, agora. Mas tem que ser humilde e tem que ter um pouco de sorte; mas o mais importante é que o sucesso não se mede pelo dinheiro, mas pela felicidade consigo mesmo.”
Mas a melhor pergunta foi a última, questionando a ausência da Turma na TV aberta, ainda que seja um produto quase onipresente em outros meios. Maurício citou o alto custo do produto (assim como os animadores da mesa de ontem), e que eles estão produzindo aos poucos, vendendo aos poucos para canais fechados e estrangeiros; assim que o desenho puder se pagar, será mais facilmente produzido. Encerrou esta etapa do encontro ressaltando a importância da escola como primeiro passo para se conseguir fazer o que se quer da vida e que pretende ampliar cada vez mais seus projetos educacionais.
Tentei entrevistá-lo em separado, mas a blindagem funcionou bem até demais e tive que me contentar com a coletiva de imprensa, que durou os exatos 30 minutos anunciados no início. Nela, respondeu que um dos fatores determinantes para trocar a música pelos quadrinhos foi a falta de recursos para estudar. “E além disso, é mais fácil carregar um lápis do que um piano”, disse. Fato insólito foi a descabida pergunta sobre a legalização da maconha, que Maurício, logicamente, afirmou ser descontextualizada.
Ressaltou mais uma vez sua intenção em ampliar seus projetos educacionais. “Há quatro Ministros da Educação tento emplacar projetos como os que desenvolvo agora na China, de pré-alfabetização com a Turma, que atinge mais ou menos 180 milhões de crianças, e pela web, pra não se gastar papel.” Se disse surpreso com o livro MSP 50, no qual pôde notar influências de seu trabalho em artistas com quem nem havia falado, ainda que eles tenham sua própria estética, e que a satisfação com a publicação o fez pensar em criar outros projetos nos quais ele abra o uso de seus personagens.
E neste mote, em resposta a uma pergunta feita por esta signatária, afirmou que a ampliação de sua linha de quadrinhos e projetos considerados ousados como a Turma da Mônica Jovem, nunca teriam espaço na Globo, ou mesmo na Abril, sua primeira casa. “A Panini, diferente das outras, é uma editora exclusivamente de quadrinhos. Isso faz muita diferença, apesar de não estarmos acostumados com a influência disso em nossa relação e termos apanhado um pouco no começo; mas está tudo ajustado, agora. Também é muito interessante para o mercado internacional, o que vai começar a ser arquitetado agora. Mais novidades estão em vista”, concluiu.
Maurício seguiu então para a sessão de autógrafos, junto com os quadrinistas mineiros Vitor Cafaggi, Lelis, Raphael Salimena e João Marcos, participantes do MSP 50, para as cem pessoas que conseguiram a senha distribuída horas antes.
As mesas
O espaço na programação do teatro João Ceschiatti dedicado aos quadrinhos alemães contou com a presença dos quadrinistas Reinhard Kleist e Jens Harder; apesar de a conversa com os artistas ter tido a intenção de traçar um panorama geral do cenário das histórias em quadrinhos na Alemanha, acabou por se focar quase exclusivamente no trabalho dos dois.
Ambos fizeram uma exposição de slides de seus trabalhos, como a epopéia da aurora da Terra contada por Harder em Alpha, e o relato semi auto-biográfico da cena techno na Berlim dos anos 1990 feito por Kleist em Fucked. Infelizmente a apresentação foi prejudicada por algum defeito no projetor que impedia a visualização das cores corretas usadas nos desenhos.
Após a apresentação dos trabalhos anteriores, como de praxe, abriu-se para as perguntas do público, que por sua vez retomaram um pouco do princípio inicial. Sobre o cenário alemão, Harder afirmou que vive seu melhor momento, já que ele era mínimo e desinteressante no início de sua carreira, há cerca de 10 anos; situação causada em grande parte pelo preconceito. Praticamente todos os artistas iam para a França, mercado mais desenvolvido. Mas hoje já existem grandes editoras e uma vasta gama de estilos e temáticas. “A Alemanha, hoje, só não exporta para os EUA”, concluiu.
Sobre os próximos trabalhos, Kleist afirmou que após um livro chamado Fidel, continuação das desventuras cubanas da HQ Havanna, vai precisar urgentemente de férias; Harder vai agora contar a evolução da humanidade em Beta, trabalho que deve durar até 2012 (data ironicamente significativa); e a última pergunta não poderia ser menos oportuna ao quadrinista: como se sustentar dedicando três anos inteiros a um único livro? Harder disse que, em seu caso, convenceu a editora a bancar o projeto, o que não significa que ele ganhe rios de dinheiro. Mas que também existem no país bolsas e prêmios de incentivo.
Na atividade seguinte, subiu à mesa o desenhista Renato Canini, que ganhou notoriedade pelo seu trabalho com o Zé Carioca nos anos 1970, cujas histórias foram republicadas recentemente em um dos volumes da coleção Mestres Disney, da editora Abril. Estavam lá para “bater papo” com ele seus curadores, Ricardo Rosa e Lancast.
O desenhista iniciou os trabalhos mostrando, em um agradecimeto, seu conhecido lado religioso. “Sou um crente chato”, brincou. E disse que, no fim das contas, nem considera Zé Carioca como seu melhor trabalho. “Eu era mais limitado, e o personagem nem era meu; há de se ter liberdade pra fazer um bom trabalho”, e citou seu último trabalho, a série Pago pra Ver, como exemplo disso. Ela está publicando no blog Tintachina, da Editora Grafar; em breve, será transformado em livro.
Contou que sempre quis ser desenhista, mas que não imaginava que essa profissão existia. Relembrou o início de carreira em uma revista metodista de SP e na “Recreio”, também da Abril. “Eu levei um livro que eu tinha acabado de ilustrar pro Érico Veríssimo quando fui pedir emprego na Recreio. Daí, eles me aceitaram”, contou. Daí para as suas histórias com o Zé Carioca, em 1971, consideradas como tendo verdadeiramente abrasileirado o personagem, foi um pulo.
Mas após cinco anos, Canini foi demitido por ordem do escritório americano. Segundo o artista, “tinha muito morro, muito pretinho jogando bola, e eles começaram a não gostar”. Por isso, vê certa ironia em hoje ser considerado um Mestre Disney. “Nas últimas histórias, fui bem largado, mesmo, botei bastante favela; na última mesmo tinha o Zé e o Nestor voando, peladinhos…” E comentou que os artistas mais novos tem mais o estilo Disney, “mais redondinho que o meu”.
Mas o melhor comentário de Canini foi a expressão de um antagonismo justamente com o pop star do evento: “Na minha época tinha mais emoção em ler gibi, sabe? Não tinha o excesso de hoje. E aí… não vamos falar do Maurício, né? Não, assim, não é meu ídolo. E a Turma da Mônica Jovem estragou tudo, agora… bem, eu não leria.”
Entrevista: Renato Canini
Se engana quem pensa que o gaúcho Renato Vinícius Canini é só o cara do Zé Carioca; pai de outros personagens antológicos, como Kactus Kid e Dr. Fraud, conversamos com o desenhista enquanto a forte chuva castigava BH.
Você enfatiza que construiu sua visão do Zé Carioca sem nunca ter pisado no Rio de Janeiro; a partir de que referências você construiu sua visão do personagem?
Usava muitos cartões postais para compor a vista. Costumava comprar umas revistas, também. Com o tempo, fui ficando mais largados e jogando as favelas, e tudo o mais. Quanto às roupas, apenas achei que aquele paletó e gravata não deviam ser muito adequados ao calor carioca.
Não existem planos para outras reedições de seu material, como as histórias da Recreio?
Não, não. Parece que não sou bom de vendas. Mandei a tira do Timbica [trabalho de viés ecológico do autor] para várias editoras, e todas recusaram. Acho que não gostam do discurso do personagem, sobre como Deus criou a natureza.
Seu traço é bastante peculiar e há uma consistência entre todos os seus trabalhos; seu desenho sempre possuiu estas características desde seus primeiros trabalhos como ilustrador ou sofreu algum processo de evolução?
É, todo mundo diz que me reconhece pelo traço… Acho que ele melhorou e ficou mais simples, com o tempo; hoje eu com certeza faria o Zé Carioca melhor, por exemplo. Acho que ao contrário do esportista, o artista só melhora com o tempo.
Li que seu personagem Kactus Kid originalmente foi batizado por você como Koka Kid; qual foi a razão para usar este nome?
Porque era mais americanizado (o personagem era uma sátira a filmes de caubói). Fiquei realmente surpreso com a mudança. Acho que mudaram por alguma possível relação com a droga , mas nem pensei em pedir que retificassem, já tinha acontecido, mesmo. E também, a revista só durou oito números… é assim, quando tá pegando o jeito, acaba.
Como foi seu período no Pasquim?
Foi ali por 1969. eu não conhecia ninguém, não. Simplesmente mandei uns desenhos, lá de Porto Alegre, mesmo. E eles acabaram me chamando para colaborar em algumas das edições.
Qual o trabalho do qual você mais sente orgulho, ou tenha sido mais agradável de desenvolver?
Sempre o último. Estou sempre me esforçando para atingir algo novo. Agora, mesmo, depois de anos parados, estou dando tudo o que tenho em Pago pra Ver.
Seu reconhecimento como Mestre Disney trouxe seu trabalho a uma nova geração de leitores; você tem sentido a aproximação destes novos leitores, eles entram em contato com você?
Na verdade, não. Mas nem internet em casa eu tenho…! Os desenhos do blog eu entrego pros meninos e eles fazem todo o resto.
Como você vê o mercado de quadrinhos no Brasil hoje para o produtor nacional? Acredita que ele era mais aberto quando você começou a trabalhar na editora Abril?
Não acompanho há muito tempo…
Você ainda lê quadrinhos?
De vez em quando. Mas não gosto muito, não. Há muita violência, hoje; e eu sempre vou preferir os antigos. Alex Raymond, Hal Foster, Will Eisner, Carl Barks… estes serão sempre imbatíveis.
Exposições – Parte I
A mostra do desenhista Joe Bennet, conhecido por seu cuidado com a anatomia e atualmente em evidência por seus trabalhos na DC Comics, consiste basicamente de várias páginas originais de seus desenhos, em trabalhos como nos gibis “Aves de Rapina” e “Gavião Negro”. As grandes páginas em lápis e nanquim ficam sob um balcão de vidro, perto de uma breve biografia do artista. Mas o destaque vai mesmo para os originais da história “Phobia”, escrita e desenhada por ele quando ainda trabalhava para revistas de terror tupiniquins. Nela, que se assemelha bastante a uma história de Hellblazer, destaca-se o trabalho de sombras desenvolvido por “Benéh”.
Logo ao lado, encontra-se a mostra do desenhista Ben Templesmith; ainda que possua menos variedade de obras, é interessante ao colocar lado a lado os originais das páginas de “30 dias de noite” e seus fotolitos após o tratamento da imagem, com a aplicação de cores e outros efeitos. Mostra ao público que o material utilizado por Templesmith é diferenciado, como o papel escolhido para a aplicação de outras tintas que não o nanquim e a composição do efeito esfumaçado ou de velocidade que se apresentam em suas obras.
Talvez a mais inusitada exposição do Festival seja a Supermercado Ferraile; montada pelos quadrinistas franceses Felder e Cizo, que chegaram a BH bem antes do festival para pesquisar os produtos à venda nos mercados do Brasil, o Supermercado oferece gêneros de primeira necessidade, como o Mico-Leão Dourado Enlatado, ou o Esperma de Jogador de Futebol Famoso, parte do kit Maria Chuteira. Criticam, assim, o modelo vigente de consumismo fútil e desenfreado, além de unirem esta visão à outras críticas sociais. Mas, é claro, tudo ali está à venda. O artista precisa comer, ora essa.
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