3 de outubro de 2008
Ele & Ela
BLOG, Cinema, Festival do Rio 2008
A ERVA DO RATO
(Julio Bressane, Brasil, 2008)
Por Alexandre Sivolella Barreiro
Bressane. Bressane. Bressane. É como respirar fundo e contar até três.
Tenho que ser sincero. Não tenho grande apreço por Julio Bressane. Quero dizer, por seu cinema. Nada contra a pessoa física. Talvez seja falta de paciência.
Resolvi dar-lhe uma chance. Mais uma. Avaliei os elementos nesta oportunidade: Machado de Assis, Selton Mello, Alessandra Negrini e Walter Carvalho. Machado é um dos meus autores preferidos. O Machado de “O alienista”. Selton é craque. Não sei se como diretor também. Não tive oportunidade ainda de assistir ao seu “Feliz Natal”. Em tese, desconfio de atores que vão para trás das câmeras. Aliás, desconfio de atores. Alessandra, bem, quem viu “Cleópatra” que o diga, mas quem viu “Playboy” também tem opinião formada. Já Walter, este tem feito alguns de seus melhores trabalhos recentes com Bressane.
É fato. “Filme de amor” é uma obra-prima de imagem. Tudo bem, há aquela história: se a fotografia se sobressai demais num filme, é de se desconfiar ou da fotografia ou de todo o resto.
Este “A erva do rato” mistura os principais elementos dos contos machadianos “A causa secreta” e “Um esqueleto”, ou seja, o rato, o esqueleto, a mulher viúva, o homem rico, o chá, o cemitério e a morte, para tratar de questões como compulsão, obsessão e repressão sexual.
A válvula de escape inicial do personagem masculino, o “Ele”, é um jogo compulsivo de anotação, em que ditados contínuos de textos científicos os mais diversos são lidos para que a personagem feminina, “Ela”, os anote em cadernos após cadernos. São cenas um tanto exaustivas. Vez ou outra faz-se uma piadinha interna com “Cleópatra” ou com o ator Guará, das quais não achei graça. Enfim…
Entra então em cena a fotografia. Ele começa a fotografar Ela ou, para ser mais específico, as partes do corpo de Ela que mais lhe interessam. A vagina ganha o primeiro lugar. A origem do mundo. Ele a fotografa, justamente porque não consegue se aproximar do corpo de outra forma. A mediação da câmera é sua muleta. Bressane aproveita para junto com Carvalho brindar o espectador de citações, com belos enquadramentos e uma luz de se tirar o chapéu.
No meio desse jogo obsessivo, entra em cena o pobre do rato, que desafia o poder do homem e proporciona à mulher os momentos de prazer que não lhe são oferecidos por Ele em seu delírio obsessivo. Dá-se o duelo entre o homem e o rato.
Alguns julgam o filme uma comédia. Para ser sincero, é sim. Embora as piadas internas não tenham surtido o efeito, as demais são divertidas.
O filme tem a assinatura de Bressane, mas sabe que até que gostei?! Pelo menos não é o Hal Hartley, meu Judas do Festival passado.
Ah, sim. A trilha sonora é de primeira.
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