9 de novembro de 2009
É sobre a Rússia
Por Arnaldo Branco
Acho que foi em “1968″, livro do Zuenir Ventura, que li esse exemplo sobre como os ânimos andavam exaltados naqueles tempos: algum repórter fez um pergunta para a Susan Sontag envolvendo a “A chinesa”, de Jean Luc Godard, e “A primeira noite de um homem”, de Mike Nichols. A resposta foi: “me recuso a falar com alguém que mistura uma obra de arte genial e uma bobagem na mesma pergunta”. A bobagem seria, adivinhe, “A primeira noite de um homem”.
Lembrei disso quando assisti a “Meeting W.A.”, uma entrevista-documentário do Godard com o Woody Allen na exposição sobre o cineasta americano, em cartaz no CCBB. Já tinha visto parte no youtube; não consegui chegar ao final de pura vergonha alheia. É uma entrevista composta de perguntas disparatadas e uma edição metida a engraçadinha que depõe contra a sanidade do francês.
Vejamos. Woody estava lançando “Hannah e suas irmãs” (1986) na ocasião em que foi sabatinado por JLG. Quando ele pergunta a Allen qual o motivo profundo por trás da escolha do nome do diretor de teatro (e inventor do famoso método) Stanilavski para batizar o serviço de buffet de duas personagens, Woody Allen responde o óbvio: as duas são atrizes e é perfeitamente razoável que escolham um nome que faça alusão a suas aspirações artísticas - e DUH, era uma piada. Gênios malucos parecem refratários a humor que faça sentido.
Em uma redução grosseira, ali estavam o artista versus o técnico. O primeiro é essa figura adorada pela crítica, do artista espontâneo, do criador total, que não perde muito tempo com amarras da manifestação do seu talento, formalidades como planejamento e roteiro. O outro, um técnico, preocupado em fazer funcionar seu metrônomo dramatúrgico-humorístico enquanto leva a história de um ponto A a um ponto B, afundado de horror em sua poltrona, acuado pelo gênio que insiste em insinuar, através de perguntas mal formuladas, que ele é meramente um diretor de TV.
Quando o Caetano disse que Woody Allen era hétero demais, falava disso. Na cabeça do ARTISTA, um sujeito como o técnico WA é muito pequeno-burguês para a Grande Arte. Caetano também dirigiu um filme, “Cinema Falado”, uma colagem de coisas que ele achou interessante registrar, como Regina Casé contando em detalhes um encontro com Fidel Castro - para você ver como “interessante” é um adjetivo bastante subjetivo.
Susan Sontag viveu o suficiente para saber que “A primeira noite de um homem” é uma bobagem que ninguém consegue esquecer. E “A Chinesa”? Lembrei uma piada do Woody Allen: “Fiz um curso de leitura dinâmica e li ‘Guerra e Paz’. É sobre a Rússia”.
20 comentários para “É sobre a Rússia”
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9 de novembro de 2009 às 10:21
[...] Revista Zé Pereira» Arquivo do Blog » É sobre a Rússia http://www.revistazepereira.com.br/e-sobre-a-russia – view page – cached Acho que foi em “1968″, livro do Zuenir Ventura, que li esse exemplo sobre como os ânimos andavam exaltados naqueles tempos: algum repórter fez um pergunta para a Susan Sontag envolvendo a “A… Read moreAcho que foi em “1968″, livro do Zuenir Ventura, que li esse exemplo sobre como os ânimos andavam exaltados naqueles tempos: algum repórter fez um pergunta para a Susan Sontag envolvendo a “A chinesa”, de Jean Luc Godard, e “A primeira noite de um homem”, de Mike Nichols. A resposta foi: “me recuso a falar com alguém que mistura uma obra de arte genial e uma bobagem na mesma pergunta”. A bobagem seria, adivinhe, “A primeira noite de um homem”. Read less [...]
9 de novembro de 2009 às 10:22
[...] O Arnaldo Branco NÃO está falando sobre Caetano Veloso e Woody Allen em sua coluna desra semana. Não acredita? Clique aqui. [...]
9 de novembro de 2009 às 10:26
demais.
não dá pra aguentar esse processo de mistificar a genialidade.
9 de novembro de 2009 às 10:50
[...] Minha coluna Mal Necessário da semana: É sobre a Rússia. [...]
9 de novembro de 2009 às 10:59
A genialidade da imperfeição açoita vilipendios nômades, ruborizando traças nesse mundão afora: é sobre a arte. Ou não. Vai saber. “Não dá pra aguentar esse processo de mistificar a genialidade”. Pois é, e tenho copiado e colado.
9 de novembro de 2009 às 11:07
“Gênios malucos parecem refratários a humor que faça sentido.” ra ra. Por aqui há um fetichismo por tudo aquilo que seja difícil de entender, confuso e qualquer outra coisa nesse sentido. Talvez seja um resquício religioso receber com muito solenidade tudo que é obscuro, quando, muitas vezes (nem todas, claro!), ser oracular não é sintoma de genialidade, é só um parada mal feita mesmo.
Certa vez, quando estava na uerj,uns amigos realizaram uma pequena mostra de filmes de guerra, deveriam ser clássicos de guerra, que iria dos mais antigos até os recentes. Sugeri o resgate do Soldado Ryan entre os recentes, e foi vetado, tão única e somente, porque Spielberg é um diretor muito careta. Como se a sequência da desembarque na praia não fosse uma das seqüências mais alucinantes de um filme de guerra. Mas,Spielberg é muito careta.
9 de novembro de 2009 às 11:20
Um adendo necessário: eu gosto de Godard. O que não entendo é esse processo tortuoso da mente crítica que chama roteiro bem amarrado de defeito.
9 de novembro de 2009 às 13:26
Não entende, Arnaldo? Não sei se eu entendo, ou se alguém entende, mas esse aqui pelo menos tenta uma resposta: Pierre Bourdieu, “As regras da arte”.
9 de novembro de 2009 às 13:56
Alem do video do Boça, esse vídeo aqui tbm ilustra mto bem o texto.
9 de novembro de 2009 às 14:02
Acho massa a parte em que o Godard passa um caralhão de tempo insistindo em arrancar uma opinião do Allen contra a televisão, e o Allen fazendo cara de “qué que a Diane tá fazendo agora?”.
9 de novembro de 2009 às 17:50
Cara, acho que a diferença é que o Godard foi um gênio, enquanto o W.A é ainda.
Nunca esqueci de Uma mulher é uma mulher, mas o que marcou a vida mesmo foi a cena do Allen garotinho no Annie Hall se recusando a fazer a lição de casa pq o universo está se expandindo. Mas comparar e apontar o dedo é coisa da Nouvelle Vague e seu eterno complexo de “não estão me entendendo”.
9 de novembro de 2009 às 18:00
Alguém vai ver 2012? Quero ver o cristo redentor sendo destruído, enquanto como pipoca.
10 de novembro de 2009 às 22:50
roteiro bem amarrado nunca foi defeito, vide hitchcock e mesmo o allen. o allen mesmo é um cara que transitou por gêneros durante a sua obra fez musical, comédia de costumes, dramas, comédias românticas, mocumentário (zellig), e até um meio experimental (vide maridos e esposas); é como comparar joyce com hemingway. um é pra intelectual fazer pose com os amigos o outro é pras massas, se ilude quem acha que o woody é raso. só que o woody, desde bananas, provavelmente não está interessado em política.
11 de novembro de 2009 às 10:59
Woody Allen é chato pra dedéu e só fala obviedades. Tanto o Godard adora roteiros bem amarrados que é fãzoca do Howard Hawks, o sujeito que depois que fez SCARFACE olhou pro produto final e falou, “nossa, quanta pretensão, filme não precisa de nada disso, quanto mais simples, melhor” e a partir daí tornou-se provavelmente o melhor “diretor invisível” da história ao lado de John Ford, a quem o Godard idolatrava. Nenhum dos dois NUNCA usou diretores de fotografia do Bergman e direção sorumbática pra tentarem ganhar status cultural.
11 de novembro de 2009 às 13:20
Urubu, tás parecendo o Cacá Diegues que citou Aurora de Murnau para justificar o Orfeu com Tony Garrido.
Tá, obviedades. Gosto dos dois.
11 de novembro de 2009 às 16:00
Cacá Diegues é foda. Fazer o quê, acho chatíssimos os filmes do Woody Allen quando não têm piadinhas. O único dele assim que não é descaradamente autopiedoso é o “Memórias”, mas mesmo assim ele se absolve no final. Li uma análise sobre o Allen outro dia muito boa, citando um ex-colaborador do Bergman, que dizia que o novaiorquino não conseguia lidar com a violência nos filmes dele e por isso “a única coisa que Woody Allen e Bergman têm em comum é o Sven Nykvst” (ou alguma outra coisa cheia de consoantes, tô no trabalho, não dá pra consultar agora).
P. S.: E ele foi o culpado por criar o “filme sobre relacionamentos”.
11 de novembro de 2009 às 16:30
Aí, todo mundo esqueceu que o Truffaut participou de Contatos Imediatos de 3º Grau, do Spielbah, num cameo deveras extenso??
Tá rolando um festival de cinema na minha cidade que ilustra bem isso. Uma penca de francês com filmes cabeça, dizendo que os europeus é que vão salvar o mundo.
A ásia é que arrebenta, e eles não tem frescura! Hospedeiro, Oldboy, e um q vi no festival, City of Life and Death (um lista de schindler mais “corajoso”, para explicar aos detratores do spielberg) são obras-primas instantâneas!
Sem desmerecer o cara, mas por exemplo, Acossado é uma punheta videoclípitca.
11 de novembro de 2009 às 18:42
Peraí, vc só está falando dos filmes descaradamente em homenagem ao Bergman, tipo Setembro? Porque quase todos os outros têm piadinhas, Memórias - que aliás é uma brincadeira com o 8 e 1/2 - tem uma caralhada. A fixação no sueco nunca me incomodou e nem acho determinante no todo da obra.
Queria completar com um regra de três cretina. Pra parte da crítica o Allen é tipo o Jô Soares, o exemplo recorrente de sujeito inteligente pra gente com pouca bagagem cultural. Por um lado é verdade, muita gente acha que o cara é um gênero cinematográfico à parte. Mas isso é reduzir o cara aos fãs equivocados, que todo cineasta tem de monte. Se vc for culpar o WA pelos diluidores e imitadores baratos, tem bem mais gente pro seu paredão.
11 de novembro de 2009 às 22:47
Ah, tá, você gosta dele como humorista!
12 de novembro de 2009 às 11:03
Não, como cineasta mesmo. Meus favoritos: Hannah e suas irmãs, A Era do Rádio, Tiros na Broadway, Desconstruindo Harry, Broadway Danny Rose, Zelig, Manhattan, Memórias, Crimes e Pecados, Maridos e Esposas. Se vc acha chatos pra dedéu, bem, é um direito constitucional.