2 de abril de 2010
Dois perdidos num porta-malas escuro
Estávamos nós, eu, Alexandre e Chico na varanda lá de casa. Um “terremoto” cujo epicentro foi no território do Aral, na Ásia, interrompera uma partida de War regada a licor de menta e “Fanfare for the commom man” , clássico de Aaron Copland, grandiloqüência progressiva típica de Emerson, Lake & Palmer.
“Terremotos” eram comuns nas disputas de War das quais o Chico participava. Sempre que começava a perder, ele impostava a voz e iniciava a ladainha.
- E atenção, atenção!! O maior tremor de terra de todos os tempos já teve início. O fenômeno vai atingir todo o planeta. Até países nunca antes afetados por este flagelo natural, como o Brasil, desta vez serão chacoalhados de maneira inclemente pelo movimento de placas tectônicas – dizia Chico enquanto virava de cabeça para baixo a América do Norte e misturando, de maneira irreversível, peças de diferentes cores. – Socorro! Socorro! Este prédio está ruuiinnnn…….. – continuava ele, zunindo com os exércitos que ocupavam o Brasil, em meio a risos miúdos e debochados.
A mim, só cabiam berros de protesto e promessas de nunca voltar a jogar com ele; enquanto o Alexandre resignava-se a algumas fungadas – o que denotava certo nervosismo.
E assim estávamos, eu e Alexandre putos, Chico sem conter o escárnio - jogo guardado, algumas pecinhas perdidas – na varanda, quando Enéas e André apareceram na Brasília do Capitão, pai do Enéas.
Partiu do André a proposta: porque não ir jogar um futsal no Funcionários? Boa idéia para aquela tarde morna de sábado. Mas como, se Alex e Chico não eram sócios?
Os Funcionários - um clube metido à besta de Volta Redonda e que levava este nome porque nascera para a recreação de empregados um pouco mais graduados da Companhia Siderúrgica Nacional (C.S.N.) – ocupava uma imensa área verde, cujas quadras de futebol ficavam no alto de um morro. Para chegar a elas é preciso subir o morro a pé, de bicicleta ou de carro, passando antes pela guarita do clube, onde porteiros checam se quem entra é realmente associado.
Eis que Enéas vem com uma alternativa aparentemente infalível para pôr Alexandre e Chico para dentro sem que o porteiro desconfiasse.
- Tá resolvido!! – começou ele, com uma convicção que não permitia apartes. – Chico, você e o Alexandre vão na mala do Opalão. É imensa e o porteiro do clube sequer vai desconfiar. Eu dirijo.
O Opalão em questão era o carro do Seu Zé Alfredo, que o Chico frequentemente tomava do pai. Era verde-vômitto, ano 1971, muito pouco rodado para seis anos de uso. Estava estacionado em frente à minha casa, na Vila, a poucos metros de onde Enéas parara a Brasília.
Eu pensei o que Chico verbalizou, desconfiança no Enéas:
- Mas você num vai nos sacanear não, né?
- Enéas, o porta-malas é grande mas somos dois lá dentro. Olha lá… – advertiu Alexandre, resfolegando.
Enéas, com uma seriedade que não permitia ressalvas, jurou que nada faria além de atravessá-los a salvo. Alex e Chico olharam para mim e para o André em busca de fidelidade. Encontraram-na, pois em pouco tempo estávamos os cinco no Opalão rumo ao Funcionários.
Na Rua 21 (Volta Redonda nascera planificada, as ruas eram numeradas) a poucos metros da estradinha que subia para o clube, Chico parou o carro. Ele desceu e entrou, junto com o Alexandre, no porta-malas.
- Olha o pé na minha cara, Chico - chamara a atenção Alexandre, enquanto se ajeitavam diante de mim, Enéas e André.
Porta-malas fechado, a fisionomia de Enéas mudara: as feições benévolas agora davam lugar as do moleque irreverente que sempre fora.
Ao volante do Opalão, André no banco do carona, eu atrás, Enéas pisou fundo, só diminuindo a velocidade ao cruzar o quebra-molas localizado no portão do Funcionários; o suficiente para que o porteiro identificasse nossas caras e autorizasse nossa entrada.
Quando passamos, comecei a elogiar o plano, mas sequer cheguei a completar a frase e Enéas já estava acelerando. Ele subiu o morro ziguezagueando usando as duas pistas - a de subida e a de descida também.
Do fundo do porta-malas , além do barulho surdo proveniente do choque dos dois com a lataria do carro, berros e xingamentos abafados. Enéas ria a alto e bom som enquanto cantava pneu.
Quando chegamos no estacionamento do morro e pensei que o Enéas pararia num canto qualquer para que os dois saíssem, ele contornou os carros estacionados e desceu em velocidade o morro, no mesmo ziguezague da subida.
Confesso que não estava entendendo nada até o Enéas parar pouco aquém do quebra-molas, descer do Opala quase se vergando de tanto rir e ir até o porteiro:
- Maurílio, vem cá!! Olha só quem estava tentando entrar de penetra!! – disse, enquanto abria o porta-malas.
Chico foi o primeiro a sair e diante do porteiro percebeu que Enéas o enganara.
- Caralho! Putaria isso, Enéas – xingava Chico, ainda aturdido com os muitos encontrões que dera em Alexandre.
Alex foi mais direto:
- Enéas, você é um grande fila da puta!!!
Assistindo à cena, Maurílio ria de se fartar e não se importava mais com a entrada dos dois clandestinos. Mas aí já era tarde: putos dentro da roupa, Alex e Chico foram para casa – eram vizinhos no Aterrado, bairro não muito distante da Vila Santa Cecília; eu, Enéas e André voltamos a pé para a 27, minha rua.
10 comentários para “Dois perdidos num porta-malas escuro”
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4 de abril de 2010 às 9:17
Caraca! Quem tem um amigo desses não precisa de inimigo… beijos!
4 de abril de 2010 às 14:48
Eros, você como sempre, com histórias deliciosas para contar e de um jeito que só você tem.
beijo grande,
Cris
5 de abril de 2010 às 8:03
Eros,
De Emerson Lale & Palmer para Raimundos: “(…)carrão da porra, tu pisava ele voava. Tu freava ele ancorava.(…)” Só um Opalão mesmo para conter uma boa história como essa. Abração, Roberto Cunha
5 de abril de 2010 às 13:51
Eros, muito legal essa crônica. MAs esse Chico é um pentelho, hein!! Bem feito! rsrsrs Me senti vingada :)) bjobjo
5 de abril de 2010 às 14:04
Oi Eros, esta história é realmente o máximo. Adoro o terremoto no War…
Beijos
Eliana
6 de abril de 2010 às 14:27
Eritos,
Pelo visto,parece que o Enéas não mudou em nada.Dizem que ele continua fazendo coisas do gênero.
Abraços do amigo
JALB
6 de abril de 2010 às 18:42
Salve, Eros. Agora conta direitinho o que aconteceu lá dentro do porta-malas do Opalão!
11 de abril de 2010 às 22:20
Ótima história, Eros! Quero mais!
Beijos.
13 de abril de 2010 às 21:27
Eros,
boa história. Lembrou-me uma daquelas crônicas clássicas reunidas em um livro que os professores indicavam para leitura, onde grassavam nomes como Rubem Braga, Alcântara Machado, Aníbal Machado e tantos outros craques da literatura.
Leitura simples e prazerosa.
26 de abril de 2010 às 16:15
Caro Amigo e Cunhado, me diverti muitissimo com a crônica tão bem escrita, e que me fez reviver alguns dos locais mencionados na terra do aço, que vivi nos anos 90, quando em Volta Redonda trabalhei, parabéns. Gostaria de continuar me divertindo com sua forma de escrever. Abraços