26 de dezembro de 2009
Desespero
BLOG, ilícito
Por Fernando Barreiros
Estava tentando escrever há horas, mas só consegui não mais que dois parágrafos que realmente faziam sentido, o resto era apenas um amontoado de idéias inconclusivas. Páginas e mais páginas de idéias sem fim, sem começo ou sem meio. Eu podia viver no meu próprio mundo, mas isso não fazia o relógio parar de contar as horas. A idéia de escrever bebendo foi descartada, sempre acabava dormindo no meio ou escrevendo finais imbecis.
Diferente do resto das noites, esta estava silenciosa, sem barulho de carros ou bêbados gritando na rua. Fazia tempo que não tinha uma noite assim. Os bêbados deviam estar caídos e os viciados tendo uma overdose em algum lugar aonde ambulâncias não chegam. “Não vá ter uma overdose no meu tapete.” Já tive de dizer isso muitas vezes para convidados indesejáveis, uma vez não respeitaram e troquei o maldito tapete verde cheio de baba por um vermelho sangue, combinava mais.
Nunca recebi visitas agradáveis depois de duas horas da manhã, entre viciados e conhecidos chatos, minha ex namorada satanista dava o ar de sua graça embaixo da minha varanda para me xingar ou chorar perguntando se eu estava bem. Aquela louca maldita, ela sim poderia ter uma overdose ou simplesmente ser atropelada por uma jamanta.
O relógio marcava quatro e quarenta e seis da manhã, mas meus relógios estão sempre adiantados, então me atraso menos para compromissos. Apesar da calma da madrugada, eu não conseguia me concentrar, estava com apenas um lápis em casa e não poderia quebrá-lo de jeito nenhum. Quando encostei o lápis no papel, alguém resolveu bater na minha porta. Tentei ignorar de todas as maneiras para ver se o visitante iria embora logo, mas essa idéia só se revelava cada vez mais inútil a cada minuto que se passava e a batida continuava. Não parecia ser um homem batendo, era uma batida um tanto quanto feminina, se é que é possível definir o sexo de alguém por sua batida na porta. Resolvi atender, afinal, quem sou eu para não atender a porta para uma mulher de madrugada?
Deixei o lápis do lado do papel e andei até a porta. O olho mágico tinha um ar vil, como se fosse possuído por algum demônio. Me dava a impressão de que se eu olhasse por aquele buraco esquisito veria coisas terríveis como o próprio inferno.
- Quem é? – Perguntei.
- Apenas abra. – Era uma voz realmente feminina, muito bonita por sinal.
Abri a porta e lá estava ela. Cabelos negros até o ombro, a pele pálida como um cadáver fazendo contraste com seu batom vermelho, mais vermelho que meu tapete novo. Nunca havia visto mulher tão linda como ela em toda a minha vida, talvez em sonhos apenas.
- Prazer, me chamo Desespero. – Eu não sabia o que responder, mas ela me fez um favor e sentou-se no sofá como se fosse íntima: – Como você se chama?
- Pode me chamar de Jonathan, o incrível homem que recebeu a visita de uma mulher que se autodenomina Desespero. Não achas pretensão demais se dar esse nome?
- Não sei, quem sabe?
Desespero tirou de sua bolsa uma piteira bem clássica, fina e longa. Acendeu seu cigarro com mais charme do que qualquer Marylin Monroe ou Greta Garbo.
- Então, Jonathan, o que você faz da vida além de receber visitas de pessoas estranhas?
- Não acha que você está querendo saber demais para alguém que eu nunca vi?
Seus olhos me fuzilavam e, como se não fosse o bastante, soltou uma nuvem de fumaça na minha cara, traguei o que pude claro. Assim que abri o olho depois da baforada, notei que ela havia mudado, não podia dizer exatamente o que, como ou porquê, mas ela havia mudado e disso eu tinha certeza. Também não podia dizer se estava mais bonita ou mais feia, mas ainda assim era linda.
- Agora me diga, o que diabos está fazendo aqui na casa de um desconhecido?
- Ora, Jonathan… – Aproximou-se de minha boca e olhou nos meus olhos. – Eu sou o seu caos. – E me beijou.
A temperatura do quarto começou a esquentar, isso eu podia sentir. A umidade, assim como o calor, tomou conta do quarto. O suor pingava do meu queixo e não me deixava segurar nada, pois escorregava de minhas mãos. Não sabia o que estava acontecendo, até alguns minutos antes o quarto estava seco e frio, agora parecia que todos os móveis estavam suando, praticamente podia ver vapor saindo de minhas paredes.
Meus pés deixavam marcas de suor no chão até eu conseguir abrir todas as janelas. Mais uma idéia que se revelou completamente inútil. Além da bizarra mudança de temperatura, a iluminação começou a diminuir, não só as lâmpadas.
- Com calor, querido? – Disse Desespero enquanto tragava seu cigarro lentamente.
- Quem diabos é você?!
- Já disse, sou Desespero. Apenas relaxe, querido.
Olhei para ela e percebi suas sardas. Não estavam ali antes, com certeza não. Acho que dei a perceber que estava encarando suas sardas, pois me olhou com um sorriso um tanto malicioso, difícil de definir.
- O que foi? Por que está me olhando com essa cara de idiota? – Ela disse ainda sorrindo.
- Realmente não sei… Não está com calor? Está o próprio inferno aqui dentro, um inferno molhado.
- Não sinto essas coisas.
De repente, Desespero tomou a voz de um ser que poderia ser classificado como um demônio feminino e disse:
- Eu queria que você tivesse câncer. Você vai apodrecer na minha frente. Do mesmo jeito que aquele pássaro em decomposição que você viu boiando no lago, você irá se decompor e poderá ver os pedaços do seu corpo caindo no chão. – Sua face mudara novamente, mas agora perceptivelmente. Seu nariz afinou assim como seus olhos, suas sobrancelhas arquearam e seu cabelo avermelhou-se.
- Do que você está falando? Quem é você? – Fui me afastando de frente para ela. Não sabia se corria, se pegava minha arma ou se pulava pela janela.
- Já disse, velho Jonathan, sou Desespero. Ainda achas que meu nome é muito pretensioso?
- O que você quer que eu faça? – Eu podia sentir meu corpo desidratando, o quarto não estava mais úmido, e sim seco. Precisava beber alguma coisa, mas não sabia no que pensar e muito menos no que fazer.
- O que EU quero? Bom, primeiro diga-me o que VOCÊ quer e lhe direi como conseguir. – Agora, sua face estava em constante transformação. Cada rosto era mais bonito que o anterior e ao mesmo tempo mais intimidador.
- Eu quero que você vá embora e nunca mais volte.
- Bom, Jonathan, isso você pode não conseguir, mas nada lhe impede de tentar.
Corri até o quarto e peguei meu revólver, quase um canhão. Voltei para a sala e apontei para sua cabeça.
– E agora? Você vai embora? – Meu dedo tremia no gatilho, assim como o resto de minha mão.
- Acha que isso vai me tirar daqui?
Eu nunca conseguiria atirar nela enquanto a olhava, matar uma mulher tão bonita assim à sangue frio… Simplesmente não podia. Fechei os olhos e atirei. Acertei entre o nariz e o olho, abrindo um rombo na parte de trás de sua cabeça. Apertei o gatilho mais cinco vezes até todas as balas acabarem e a cabeça de Desespero praticamente desaparecer. Minha parede, meu sofá e meu tapete ficaram empapados de sangue. “Finalmente, consegui.” Foi o que pensei, porém, mais uma vez eu pensei errado. Mesmo com um pouco menos de três quartos da cabeça, levantou, sorriu e disse:
- Venha. Deite.
Joguei a arma no chão e caminhei até o sofá. Como um cachorro assustado ou um louco completo, deitei em seu colo.
- Apenas me aceite, Jonathan, tornará tudo mais fácil.
Não havia outra saída, então, dormi em seu colo.
8 comentários para “Desespero”
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26 de dezembro de 2009 às 12:52
Bang!
26 de dezembro de 2009 às 13:45
Do caralho!
26 de dezembro de 2009 às 13:55
Ow! Demais, demais pequeno prodigio. hahaha
26 de dezembro de 2009 às 15:35
EXCELENTE! Garoto, não acredito que vc escreveu isso. Vá se foder, é bom demais.
27 de dezembro de 2009 às 14:24
Gostei do final. =)
27 de dezembro de 2009 às 16:25
Vá se foder, é bom demais[2]
27 de dezembro de 2009 às 20:49
no final todos têm que se entregar ao desespero.
7 de abril de 2010 às 21:41
Você é impressionante, Fernando.