28 de abril de 2010
Descontração x guerrilha
BLOG, Cine PE 2010, Cinema
Na coletiva de hoje, clima ameno entre realizadores de curtas e debate acalorado com equipes dos longas
Por Dandara Palankof
Fotos de Alexandre Sá
A primeira coisa que se nota na sala onde estão sendo realizadas as coletivas/bate-papo é a ausência da equipe responsável pelo pernambucano “Corpo Urb.”, de Mariane Bigio. Haveria acontecido algum imprevisto? Um conflito de agenda? Ou seria apenas pose de integrante da cena artística-intelectualóide-culturete do Recife, para quem é inútil discorrer sobre uma obra, deixando apenas que o público se abandone às suas sensações? Mistério.
O fato é que os outros realizadores lá estavam, e o hiperativo Marão (“Eu queria ser um monstro”) foi logo contando como foi difícil realizar seu primeiro stop motion, por ter precisado trabalhar em equipe. “Geralmente faço minhas animações sozinho, porque não sei lidar com as pessoas”, afirmou. Mas ao menos uma de suas relações, segundo o próprio cineasta, mudou pra melhor: a com seu pai, a quem o filme é explicitamente dedicado. Marão também explicou que a falha no som durante a exibição de seu filme, na noite de ontem (como vocês devem saber, fiéis leitores da ZP), aconteceu devido a um cabo defeituoso — essas pequenas atenções de Murphy. E revelou sua veia nerd: indagado por esta redatora se ele realmente se identificava com Calvin, referência no filme notada por mim e por Du Mota, Marão se exaltou (no bom sentido) e disse que é mesmo uma influência descarada, como acha a obra de Bill Waterson a melhor tira de todos os tempos (opinião da qual compartilho) e contou de como era leitor voraz de “Tintin” e “Asterix” durante a infância. Identificação imediata, digo logo.
Fábio Yamaji contou que tudo em seu “O Divino, de repente”, partiu de seu personagem título, até mesmo o modelo dos personagens utilizados na animação. E que os prêmios em dinheiro recebidos pelo filme são divididos meio a meio entre ele e seu protagonista, que já pôde até reformar a casa e voltar à sua terra de criação, a Paraíba, com essa verba. “Talvez seja a primeira pessoa que tenha realmente mudado de vida depois de aparecer em um curta”, brincou Yamaji. Já Adriana Vasconcelos, de “Senhoras”, falou sobre como seu filme é uma tentativa de mostrar a exclusão do idoso, seja qual for sua classe social, mas com um enfoque primordial nas relações entre as pessoas.
Para falar de seus longas metragens, Evaldo Mocarzel (“Cinema de guerrilha”) e Geraldo Moraes (“O homem mau dorme bem”) foram acompanhados pelos mesmos colegas que subiram ao palco na noite de ontem, entre atores e equipe técnica. Geraldo começou dizendo como era emocionante ver seu filme assistido por uma sala lotada (e olha que ela nem estava tão lotada assim…). “Se meu filme passasse em um shopping, ia estar todo mundo em ‘Avatar’”, brincou.
Ainda assim, o cineasta ressaltou a importância de se brigar por este espaço de exibição, fez críticas à limitação que sofre o público pelas imposições da distribuição comercial, e jogou o número de pessoas sem acesso à salas de cinema na casa dos 85% da população brasileira. Mas afirmando que a demanda existe, e a pirataria seria a prova disso (parece uma tendência entre os criadores independentes o elogio à pirataria, em qualquer expressão; manteriam esta opinião caso sua situação mudasse?). Mas a produtora Malu Moraes (que inclusive é uma das protagonistas do curta “Senhoras”) disse que é muito difícil se ater a “distribuições alternativas”, como a internet (citada logo depois), pois os patrocinadores logicamente ainda cobram que o retorno seja nas bilheterias; e a relação entre eles se complica quando o filme não consegue distribuição convencional.
Mocarzel defendeu as tecnologias digitais como uma possibilidade para a produção de materiais “auto-etnográficos”; com o acesso facilitado, o olhar sempre virá de dentro daquilo que se quer mostrar. E ao ser acusado de ter feito um filme típico de classe média, o cineasta discordou e contra-argumentou: “Talvez não satisfaça justamente a expectativa do público que tem uma outra visão de periferia, que se sente mais confortável vendo um jovem furado de balas do que um grupo vindo dessa mesma periferia, mas discutindo ‘Edukators’”, afirmou, em referência a uma sequência em que, durante uma das aulas da oficina de audiovisual retratada no documentário, alguns alunos discutem a influência do filme alemão em seu projeto.
E os jovens que acompanhavam o diretor, André e Luciano, eram justamente personagens do documentário: monitores das oficinas, moradores da periferia, cineastas guerrilheiros. Assim, ninguém melhor do que eles para responder a esta provocação feita durante o debate. E o interessante foi ver que não havia consenso nem mesmo entre eles: André afirmou que Mocarzel conseguiu se inserir na realidade que buscava retratar em seu documentário. Já Luciano disse que o filme é, sim, uma obra com uma visão de classe média; e que não podia ser diferente, já que esse é o universo de seu realizador. Mas que isso não tira os méritos da obra, muito menos diminui sua honestidade. Visão sóbria da qual esta humilde escriba compartilha.
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