2 de outubro de 2008
Depois do vendaval
BLOG, Cinema, Festival do Rio 2008
FELIZ NATAL
(Selton Mello, Brasil, 2008)
Por Luiz Henriques
Foto de divulgação/Paula Huven
A coisa melhorou com o patrocínio e as leis de incentivo, e muito mais ainda com a introdução das câmeras de vídeo digital, que dispensaram a caríssima película, mas continua sendo muito difícil fazer cinema no Brasil. Uma das consequências é que o sujeito talentoso, quando tem sua oportunidade, precisa de qualquer maneira provar suas qualidades e fazer se possível logo sua obra-prima, pois sabe lá o Santinho quando vai aparecer outra chance. Assim o vivente logo na estréia tem não só que mostrar pleno domínio da técnica, da linguagem como ainda por cima ter algo de relevante a dizer, mesmo com toda sua inexperiência.
Selton Mello, talentoso, bem-sucedido, famoso, gente boa etc., podia ter seguido a trilha de boa parte dos atores que resolve se bancar em teatro e cinema e ter buscado um caminho comercial que servisse para destacar seus dons tespianos (quantas e quantas vezes não me foi pedido por gente de teatro um texto que fosse monólogo, por barato de produzir e dar a chance do ator brilhar, e, “ça va sans dire”, uma comédia, assim, meio besteirol, por ter mais apelo de público). Mas resolveu correr o risco, mostrar o que tinha a dizer e “Feliz Natal”, que esteticamente pode ser posto junto do cinema neonovo de Claudio Assis, Beto Brant, e agora também Mateus [AUTOTEXTO], entre outros, encara aqueles obstáculos lá do lide e acaba revelando a inexperiência de seu diretor.
A fita quer mostrar o vazio na vida de uma família durante a comemoração de Natal, mas o roteiro indeciso não define exatamente como as coisas chegaram a isso. Há uma menção a um acontecimento importante que mudou a vida de um dos personagens, mas tudo é muito vago e boa parte é deixada à imaginação dos espectadores, embora outros pontos óbvios sejam reforçados à exaustão (exemplo: o protagonista, no dia de Natal, deixa a família e os amigos para procurar um túmulo num cemitério. O vigia da necrópole então comenta, “puxa, nunca vi ninguém deixar a família e os amigos no dia de Natal para procurar um túmulo num cemitério. Deve ser alguém bem importante para você”).
A câmera tenta fugir de qualquer maneira do lugar-comum, mas em sua busca incessante de ângulos originais e interessantes muitas e muitas vezes acaba descambando para hipercloses, ou para silhuetas conversando que deixam no espectador dúvida sobre quem está falando. Como a maioria dos diálogos é banal, esta pode ter sido justamente a intenção do diretor, mas num roteiro em que tão pouco é dito claramente, a sensação é de que pode se perder informação importante, não sabendo quem comentou o quê em determinado momento. Em meio a tanta gente sussurrando, os personagens que saem desse molde acabam se sobressaindo e permitindo a Lúcio Mauro, o pai, e Darlene Glória, a mãe, embolsarem a fita. Por esse mesmo motivo também se destacam os amigos doidões do protagonista.
O longa também é carregado de simbolismo do começo ao fim – Um ferro-velho, Caio martelando e destruindo carros, fazendo amor sem entusiasmo debaixo do chuveiro, como para lavar velhas culpas, Darlene Glória se maquiando, fazendo discurso ignorado sobre o espírito de Natal e por aí vai. Mais uma vez não condiz com o roteiro tão avaro em nos explicar como a família se desagregou tanto. Embora as imagens sejam inegavelmente melancólicas, falta substância a tanto quieto desespero. Angústia e depressão são sentimentos exatamente assim, vagos e indefinidos, e a turma do Freud fez a fortuna justamente tentando identificar a fonte deles. Mais do que mostrar os atos, nos são exibidas apenas as consequências, sem maiores detalhes. Os autores não quiseram ou não conseguiram lidar com o que seria muito mais trabalhoso e, principalmente, doloroso, ainda mais para pessoas tão jovens (doloroso sim. Pensa que escrever sobre suas emoções é moleza?).
Da forma como está, a sensação ao final do angustiado “Feliz Natal” é como se alguém mostrasse Nova Orleans inundada ou Sumatra arrasada ou Nova Iorque sem as torres gêmeas e não contasse o que tinha acontecido, fazendo a elipse do Katrina, do tsunami e dos jatos. A sensação de quem chegou depois do vendaval e encontrou a casa destruída sem nenhuma explicação.
3 comentários para “Depois do vendaval”
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3 de outubro de 2008 às 7:14
Ei, grande texto. Ainda estou a fim de ver o filme, mas saquei o que vc não gostou.
3 de outubro de 2008 às 14:10
Legal.
1 de dezembro de 2008 às 23:41
Imagem no cinema diz tudo cara,a loucura no filme é proposital,tá no roteiro, daí os dialogos que v. cobra não existem. Veja melhor o filme, está em cartaz. Ninguem ali tem nada pra dizer, não sacou? O filme é bom paca.E Darlene não rouba cena , porque o personagem é louco. O filme é louco, e bom paca, repito. Pena que v. está contribuindo pra afugentar público do cinema meu caro Urubu. xô.