2 de janeiro de 2010
Delírios #1
BLOG, ilícito
Por Fernando Barreiros
O quarto estava todo fechado, não podia saber se estava dia ou noite. A luz que entrava pelas frestas podiam tanto ser do sol quanto da casa ao lado. Não estava calor, mas eu suava como se estivesse no sol. Rebecca finalmente estava morta e eu estava tranquilo, sentia uma calma incomparável. Penso nela desesperada quando soube que iria morrer.
Eu a conhecia melhor que ninguém, sabia de suas neuroses, paranóias, loucuras e esquizofrenices, afinal, eram as mesmas que as minhas. Não só o fato de tê-la envenenado que me faz feliz, mas como ela deve ter ficado antes de morrer. Espero que tenha gritado, arranhado a janela, qualquer coisa. Queria que Rebecca sofresse, não fisicamente, nunca poderia machucá-la assim, eu sabia que o fato de ter algumas horas de vida iria fazê-la enlouquecer mais do que já era. Me impressiona ela não ter ligado para a polícia ou coisa assim, ela sabia que iria morrer. Quem sabe ela também não achou que merecia?
O quarto estava cheio de roupas espalhadas e cinzas de cigarro na cama, mas a realidade não se fazia presente naquele momento. Decidi ir à cozinha pegar alguma coisa para comer, mas não consegui. Assim que saí do quarto tudo ficou embaçado, o ar ficou mais denso e precisei voltar. Só o quarto não era afetado. Sentei-me na cadeira e peguei o cigarro que estava na minha orelha, ele estava nojento, molhado de suor, mas consegui diminuir a fome. Eu podia ver o espelho da sala da porta do meu quarto, fiquei distraído olhando um pouco para ele por uns segundos. Aquele não me parecia eu, era um vulto que me imitava, era como se fosse outra pessoa. O reflexo não tinha expressão, nem uma forma exata. Tentei ignorar que a realidade fora do quarto mudara e fui me aproximar do espelho.
Tudo começou a balançar e não consegui manter o equilíbrio, parecia que estava em um navio. Cheguei na sala e olhei pela janela, uma tempestade caía lá fora, mas não sabia se era verdade ou não. Trovões, árvores balançando e a água começou a entrar pela janela, tentei fechá-la, mas estava emperrada. O reflexo não mudou, continuava sentado do outro lado do espelho, me ignorando completamente. Cheguei perto e encostei a mão no espelho, tentando entender alguma coisa do que estava acontecendo. O reflexo, apenas minha silhueta na verdade, olhou para minha mão e voltou a me ignorar.
- Ei! - Gritei para o maldito reflexo, que continuou a me ignorar.
Tudo ainda estava embaçado e balançando, só podia ouvir o barulho da chuva e do vento, que acabaram virando um barulho só. Continuei encarando o espelho, pensando no que fazer. Ele finalmente se virou para mim e disse:
- O que você quer?
- Saber o que está acontecendo.
- Eu não sei o que está acontecendo, porque acha que eu saberia? Se você não sabe, eu não sei. - A voz que saía de sua boca não condizia com o movimento dos lábios.
- Estava pensando em Rebecca…
- Foda-se a Rebecca, acha que eu quero ouvir dos seus problemas? – A voz não era a minha voz, era uma voz rouca e mais grossa. Sua voz não se alterava, estava sempre indiferente.
Desisti de tentar conversar e voltei pro quarto. Eu continuava suando frio e o chão continuava balançando. Tentei voltar à realidade que era só minha, mas não consegui, aquela nova realidade que tomou conta da minha casa não me deixava sair dela. Às vezes eu simplesmente ficava olhando por longos minutos para a parede como se estivesse em transe e depois voltava ao normal.
Eu estava feliz de ter matado Rebecca e de tê-la tirado de minha vida, mas sinto que um dia ela ainda vai voltar, que vou receber uma carta perguntando se estou bem ou coisa assim. Volto a olhar para o meu vulto no espelho da sala e ele está com mais alguém do outro lado do espelho. Chego mais perto para tentar entender aquilo e vejo que a outra pessoa é Rebecca, eles estão juntos e parecem se gostar. Virei o espelho de costas para a parede e fui para a cozinha. Peguei uma garrafa de água e fiquei ali mesmo pensando em Rebecca. Ainda bem que a matei, sabia que iria me trair uma hora ou outra, nem que fosse depois de morta e com o meu próprio reflexo.
Um comentário para “Delírios #1”
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4 de janeiro de 2010 às 13:49
HDFSDHSAFHSGFSAHGFSAHGDFSAHG’
é ^^