24 de abril de 2010
Delíria
BLOG, ilícito
Por Fernando Barreiros
O cigarro tremia entre suas unhas vermelhas e borradas, seus lábios, ligeiramente contraídos, demonstravam uma tristeza vazia, como se nunca houvesse conhecido outro sentimento. Quando não estava tragando, mordia seu lábio despertando sentimentos humanos nos piores demônios. Seus olhos eram vazios como os de soldados que voltavam do Vietnã após verem seus companheiros morrendo com a cara enfiada na lama.
As ondas recuavam junto com os medos que a aterrorizavam. O vento gelado cerrava seus dentes e arqueava suas costas. As luzes da cidade ofuscavam as estrelas e a lua, do outro lado da cidade, era encoberta por prédios e desprezada pelas pessoas. Tirou seus adorados sapatos que vivia dizendo “São Jimmy Choos, são jimmy choos…” e os alinhou. Sentia-se afundando cada vez mais, como se fosse afundar na areia e nunca mais voltar.
O que a atordoava não era seu passado ou seu presente, eram as variáveis de seu futuro que a matavam por dentro como um tumor. Sua curiosidade psicanalítica pela vida havia se tornado o contrário. Suas bochechas, antes cheias, agora estavam fundas e mortas. Seu corpo pedia por alívio assim como um machucado dói para ser tratado.
Levantou devagar, parecia levantar de um túmulo. Botou seu cigarro na boca e caminhou até o mar. A água batia em seus joelhos, apenas esperando chegar naquelas coxas. Seus tormentos morriam a cada passo em direção ao mar. Tragou uma última vez e largou seu cigarro. Seus lábios sangravam e ela simplesmente mordia mais. Sua camisa revelava peitos que talvez ninguém tenha realmente apreciado mas sempre estiverem ali, perfeitos. Soltou todo o ar dos pulmões e sua presilha amarela sumiu no meio de canos de esgoto e a música do parque de diversões.
3 comentários para “Delíria”
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24 de abril de 2010 às 12:31
Como sempre cativante, não se consegue começar a ler e não terminar. Muito bom Fernando.
24 de abril de 2010 às 14:55
Amor, tá MUITO bom. De verdade.
26 de abril de 2010 às 23:08
Nada mais que lindo.