3 de outubro de 2008
De volta para o futuro
BLOG, Cinema, Festival do Rio 2008
VINGANÇA
(Paulo Pons, Brasil, 2008)
Por Luiz Henriques
Demorou cinco filmes e uma semana, mas finalmente apareceu mulher pelada na Première Brasil. O que houve com o cinema brasileiro dos anos 70 e 80 pra cá?
E talvez por não coincidência o primeiro longa com tais atributos acabou sendo justamente um com jeitão de anos 80. Aquela foi a época em que a primeira geração criada com televisão chegou às telas, fascinada com quadrinhos da “Heavy Metal” e o “film noir” que passava no Corujão (antes da cinematografia em preto-e-branco ser banida da tevê aberta e refugiar-se no solitário TCM). Urbana e globalizada via satélite, não tinha muita intimidade com miséria e regionalismo, daí uma tentativa de transpor os angustiados anti-heróis de classe média das fitas dos anos 40 e 50 para o Brasil que, passando pela década perdida, parecia se prestar muito bem a tal papel.
Mas a enorme dificuldade na obtenção de fundos, a inexperiência, os engasgos naturais ao se tentar uma estética nova, os problemas e custos muito maiores da película sobre o vídeo digital e, por que não dizer, em alguns casos a falta de talento, deixaram como herança um punhado de fitas esforçadas porém esquecíveis. Vinte anos depois, “Vingança” leva às telas em alta definição uma trama criminal de louca paixão, ironias do destino e mulheres irresistíveis com muito mais competência e profissionalismo, mas bem menos preocupação com claro-escuro (ou mesmo escuro, o filme é luminoso talvez evocando a radiante personalidade da Carol), e, infelizmente, menos mulher pelada também.
Branca Messina, aliás, não deve ter tido o menor problema em ser convencida a tirar a roupa (yes!) depois de ler no roteiro a quantidade de boas linhas reservadas a seu personagem – e aí começam as vantagens de “Vingança” sobre a turma oitentista, um roteiro bem melhor. Pena que, apesar da ótima atuação da garota – trajada e despida (não o suficiente) – a direção não tenha imposto um ritmo mais acelerado às falas dela, bem como às do taciturno protagonista. Depois de uma semana de Premiére Brasil, apesar da qualidade dos filmes, seria bom alguém lembrar que personagem angustiado não precisa necessariamente se mover ou falar lentamente (cf. Bogart, Humphrey, ou Gabin, Jean, ou Newman, Paul), tampouco moças charmosas de uma maneira encantadoramente alternativa (cf. Bacall, Lauren).
Aliás, depois do pós-modernismo MTV de “Rinha” e dos dois exemplares do cinema neonovo, foi muito estranho entrar no Odeon e assistir a uma narrativa convencional. Convencional até talvez demais. Com ênfase em planos médios e closes a fita tem um ar inegavelmente televisivo, como se ideada para caber confortavelmente numa tela pequena. A boa trama, as boas atuações e os bons diálogos, entretanto, carregam o espectador pela história confortavelmente e, principalmente, com uma sensação de satisfação de história policial bem resolvida ao final (qual o problema se tem algumas coincidências? Aposto que você adora “Casablanca”), o que é raro aqui onde canta o sabiá.
O protagonista, apesar de seu permanente ar sorumbático e macambúzio traindo sua aflição interna, acaba se revelando uma construção coerente e interessante. O bem escrito patriarca de José de Abreu permite ao veterano exibir seus dotes tespianos. E a moça encarnada pela Branca Messina pode ser mais a personificação de sonhos masculinos do que uma mulher de verdade, mas assim também o são grandes personagens do cinema e da literatura (e você acredita realmente que tinha tanta mulher atrás do Bukowski mesmo?) e, tirando a parte na rua da cena de sedução, é otimamente redigida. E ainda por cima ela tira a roupa. Legal.
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