21 de janeiro de 2010
De volta para o futuro
BLOG, Recanto nerd, Star Trek, TV
A gente publica hoje um resumo da primeira temporada da série “Jornada nas estrelas” - cujas resenhas dos episódios você pode ler aqui. Semana que vem, toda quinta-feira, começamos a tratar da segunda, com textos do especialista Luiz Henriques e convidados.
Onde nenhuma série de TV jamais esteve
Por Luiz Henriques
Minha prima adolescente nerd está começando a gostar de ficção científica e adorou o novo longa de “Star trek”. Daí quis emprestados os discos da série original. Eu escolhi os que tinham os episódios que achei que ela fosse gostar mais e deixei-os na casa dela. Pouco depois, ela me ligou, “ei, você deixou aqui só os discos 3, 6 e 7. Como é que eu vou entender alguma coisa?”
Pois é, antigamente os seriados saíam do horário nobre e eram enlatados pra serem vendidos para redes pequenas, independentes ou estrangeiras e não podiam se dar ao luxo de serem planejados pensando que todas elas iriam respeitar a cronologia, passar sempre no mesmo horário e depois de exibida a temporada inteira, reprisá-la na ordem certa pra quem perdeu alguma coisa. Fora, é claro, que não havia Internet e box de DVDs pra quem pegasse a coisa pelo meio entender a história.
Por isso tudo é que só agora, apesar de ser fã de “Jornada nas estrelas” desde garotinho, o blogueiro teve a chance de ver a primeira temporada na ordem correta, sem a intromissão de episódios de outros anos (1). E, apesar do cuidado dos criadores em fazerem cada programa independente dos outros, pra facilitar sua venda e distribuição posteriores – e que, neste caso, seria a encarnação onde o seriado finalmente encontraria seu sucesso – enfim pode se avaliar a evolução dos personagens, do conceito, e até mesmo perceber uma possível causa do fracasso de Kirk e a Enterprise em sua primeira exibição.
Os primeiros episódios são perceptivelmente diferentes dos outros em tom e conceito. Roddenberry, definitivamente, não planejava que o público da Enterprise fosse a garotada, apesar de na época acreditar-se serem eles os únicos espectadores pra ficção científica. A preocupação com realismo é clara nas diversas cenas que mostram os oficiais comendo em cena, um velho recurso cênico pra dar verdade a personagens. Kirk e Spock eram os protagonistas, é claro, mas havia ênfase em outros tripulantes. Coisas como a ordenança conversando com Sulu (ainda de camisa azul) ou mesmo seguranças comentando a bunda de Janice. Sexo, aliás, era um assunto muuuuuuito mais presente. Veladamente, é claro, afinal estávamos na tevê dos anos 60, mas em primeiro plano. Uhura paquerava Spock e no episódio seguinte cantava uma música sobre como ele era gostosão. Rolava (confessadamente pelas duas partes) um clima entre o capitão e a ordenança Janice. Uhura (de novo) levava uma cantada de um mecânico – embora na verdade fosse um monstro comedor de sal. O monstro comedor de sal, aliás, podia assumir a aparência das fantasias – principalmente sexuais - das pessoas para se aproximar delas. Um tripulante vê nele a garota que conheceu num “planeta de prazer”.
Tudo isso – os relacionamentos entre os personagens, sexo, o comportamento mais adulto – iria desaparecer com o decorrer da série. A vida na Enterprise ficaria cada vez mais restrita a um ato de vaudeville entre o capitão fodão, o vulcano frio e o médico emotivo, comportando-se como garotos de 13 anos cuja vida social se resume a tirar um sarro com a cara dos amigos. Kirk, como o “chefe” mais maduro do bando, ganha o direito de “ficar” com umas alienígenas e afins em vários episódios – mas nada além de “ficadas”, pela já falada redução da idade emocional de nossos heróis ao começo da puberdade. E essas ficadas seriam praticamente a tudo que se resumiria sexo na série a partir do meio da temporada. Todo o elenco abaixo do posto de capitão comportar-se-ia como se ainda na época vitoriana, parecendo ignorar tal atividade, com memoráveis exceções: a perversa atração da historiadora de bordo por Khan (em certo momento é sugerido um boquete sadomasoquista entre os dois) e a tocante história de amor entre Joan Collins e William Shatner no por isto mesmo famosíssimo “A cidade na fronteira da eternidade”.
Roddenberry conseguiria manter o cerne de sua ideia com temas adultos e provocantes, pelo menos em relação ao que se fazia na tevê na época e no quarto de século seguinte, mas é claramente perceptível a mudança de abordagem durante a temporada. Não só o positivismo militarista de Roddenberry seria contrabalançado com a chegada do zenpacifista Gene L. Coon, como também a postura mais intelectualóide do primeiro teria que se curvar ao fã de velhos seriados cinematográficos da Republic que Coon era. Kirk se tornaria um herói mais jovial, físico e disposto a enfiar a mão na massa no decorrer da primeira temporada, muito mais um comandante pirata do que o sisudo oficial que descarta uma sugestão subalterna em “O ardil corbomite” afirmando que sua nave NÃO É uma democracia.
Diga-se de passagem que o blogueiro agradece a inserção desse clima de seriado em “Jornada nas estrelas” e acredita que certamente não ficaria fascinado desde os 9 anos pelo show se ele se resumisse a mostrar seus heróis passando por um monte de perrengues que se resolviam sozinhos ou com a intervenção de outras criaturas. Quando no final dos anos 80, início dos 90, “A nova geração” chegou aqui, inicialmente apenas em episódios isolados em VHS, o blogueiro e os amigos alugaram as fitas, se juntaram entusiasmados para ver e foram gradativamente ficando decepcionados, todos com uma única grande reclamação: “cadê a ação?”. E isso apesar do comentário de um velho amigo, ao ver o começo do piloto: “uau, um semideus onipotente ameaçando a Enterprise porque os humanos são violentos e querendo fazer um teste com eles? Maneiro, continua a mesma coisa, vai ser muito divertido!”
Em compensação, quase logo de cara “A nova geração” deixa claro que sabe que os tempos mudaram e em um de seus primeiros programas refilma “Tempo de nudez”, quando todo mundo fica bêbado por causa de um vírus, e mostra que a nave vira uma verdadeira suruba – ninguém é de ninguém e até o andróide se dá bem e come a loura gostosa. Quem come quem, por que esses sujeitos se alistaram para viajar pelo espaço, quem é filho de quem são pontos importantes da trama. O elenco básico se estende por bem mais do que os três principais e meia dúzia de coadjuvantes da série original. Na verdade, “A nova geração” provavelmente é muito mais parecido com o que Roddenberry planejava desde o início do que “Jornada nas estrelas”.
O problema é que quando “Star trek” começou a ficção científica ainda não tinha ganho a aura de respeitabilidade que “2001 – Uma odisséia no espaço”, “Planeta dos Macacos”, “O enigma de Andrômeda” e afins lhe emprestariam. Quem gostava de sci-fi era a garotada e ela queria ação e heróis de verdade, não um bando de paspalhos que serve de joguete para um adolescente telepata (”O estranho Charlie”), semideuses que perderam sua humanidade (”Onde homem nenhum jamais esteve”), o já falado vírus embriagante (”Tempo de nudez”) ou um alienígena pequeno carregando uma nave grande (”O ardil corbomite”). Dos episódios iniciais, o único em que os protagonistas têm um papel ativo na resolução da história é quando enfrentam o monstro sugador de sal (”O sal da terra”), não por acaso o episódio que a rede de tevê forçou a barra para ser o primeiro, contra o que Roddenberry queria.
Foi por causa disso que a série provavelmente não decolou nos índices de audiência. O crítico de cinema Glenn Erickson (www.dvdsavant.com), grande fã de ficção científica, como se pode depreender de uma rápida visita a seu saite, explica que viu os primeiros episódios na época, quando era adolescente, mas não se sentiu muito atraído pelo excesso de semideuses. Fazendo a crítica dos blu-rays da primeira temporada, arrependeu-se profundamente e deu nota máxima ao programa. Tanto foi chamativa a falta de atitude da galera da Enterprise nos primeiros programas que foi baixada uma norma de que a resolução dos conflitos deveria sempre decorrer de ações dos protagonistas. Embora fosse uma boa ideia para levantar os índices de audiência, foi também o que afundou o promissor episódio “Corte Marcial”, quando o advogado supostamente genial interpretado por Elisha Cook Jr. não faz absolutamente nada durante o julgamento, já que a salvação da lavoura, no roteiro original descoberta por ele, é feita por Spock.
Curiosamente, apesar da clara percepção de que a passividade do povo da Frota Estelar teria sido um dos motivos dos relativamente baixos índices de audiência, a segunda temporada começaria novamente com semideuses fazendo gato e sapato da Enterprise para só no fim Kirk & cia. conseguirem tomar alguma atitude. Novamente o ibope começou devagar e, para o terceiro ano, os produtores resolveram que deveria haver muito mais ação, ainda mais infantilização das histórias e cortariam os custos, criando os episódios mais esquecíveis e deploráveis e condenando de vez o seriado, sem saber que tinham nas mãos uma das franquias mais lucrativas a médio e longo prazo da história da tevê.
E agora, como lista é o que pessoal mais curte na Internet, a listinha dos melhores episódios da primeira temporada:
MISSÃO DE MISERICÓRDIA
Usando o velho clichê de combatentes da liberdade contra invasores muito superiores em número e armamento, Gene L. Coon subverte o formato, satirizando as fantasias conservadoras por trás da trama, e faz uma contundente crítica ao intervencionismo americano – em plena Guerra do Vietnã!! - equalizando ianques e comunas na memorável linha do comandante klingon, “nós somos bem parecidos, (tirando) pequenas diferenças ideológicas”. Como diriam os Simpsons, “havia monstros naquela nave – e o pior é que éramos nós mesmos!”
A CIDADE NA FRONTEIRA DA ETERNIDADE
O maior galinha do espaço – capitão Kirk - encontra a maior galinha das novelas americanas – Joan Collins – e os dois vivem uma simpaticíssima história de amor, numa trama sobre escolhas morais e idealismo com um final inesperado que deve ter deixado em estado de choque os telespectadores dos anos 60 e 70.
EQUILÍBRIO DO TERROR
Dois honrados capitães estelares em lados opostos usam toda a sua astúcia para sobreviverem a um confronto refletindo suas ideologias.
A CONSCIÊNCIA DO REI
Sim, é verdade, algumas parte são um tanto desengonçadas, mas ainda assim a mistura de Shakespeare, nazismo e ficção científica funciona bem questionando as consequências e limitações do livre-arbítrio cristão: se tudo tivesse se desenrolado como parecia que iria, o desprezível Kodos, o Executor, poderia ter sido um herói.
UM GOSTO DE ARMAGGEDON
O que aconteceria no futuro se uma sociedade como a nossa levasse até o fim a preguiçosa tendência atual de buscar soluções de compromisso e não querer assumir as consequências de suas ações? Ora, algo bem parecido com a Guerra do Vietnã, como Coppola também mostraria em mais de três horas em “Apocalypse now”.
INIMIGO INTERIOR
Se o bem e o mal existem, você não pode escolher – você tem que integrá-los. Richard Matheson aproveita um defeito do teleporte e embute num thrillerzinho maneiro aquela ideia – novidade pra época – de yin/yang, opostos que se complementam, e acabam sobrando farpas tanto para a religião quanto para o racionalismo.
SEMENTE DO ESPAÇO
KHAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAANNNNN!!!!!!!
Um deposto déspota iluminado geneticamente aprimorado contra o povo da democracia multirracial da Enterprise – que até compreende a ideologia do sujeito, embora não a aprove. No entanto, o ex-ditador tem os ingredientes certos – autoritarismo, resiliência, disciplina, dedicação, um pouco de psicopatia à Ethan Edwards – para se tornar um desbravador de fronteiras hostis. Não perca a pervertida cena em que Khan faz a historiadora do futuro ajoelhar e implorar pelo prazer da companhia dele.
(1)Ver a série em DVDs remasterizados também tira boa parte de seu ar “pobre” ao mostrar cores muito mais vibrantes e saturadas do que qualquer transmissão de tevê. Marissa, mesmo sem ser fã da série, ao ver um episódio, levou um susto: “ei, não tinha essa cor na tevê!”. Pela primeira vez ficou visível para o blogueiro a suave matiz esverdeada no rosto de Spock, supostamente devida ao seu sangue verde, por rico em cobre e não ferro, como o humano.
No entanto, a imagem realçada também deixa claro defeitos que as limitações das televisões da época disfarçavam: entre outras coisas, há várias tomadas fora de foco e é perceptível em várias cenas o encaixe entre as orelhas de Leonard Nimoy e a prótese vulcana.
Um comentário para “De volta para o futuro”
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26 de janeiro de 2010 às 11:56
cara, tb sou grande fan da série, já li vários livros sobre o assunto e concordo com todas as suas impressões. atento, até, para a filosofia existente em cada episódio, pois parecia que todo o roteiro era escrito sobre alguma questão do campo das idéias. no decorrer da série, essas perguntas vão ficando mais simplórias.
vida longa e prosperidade para vc e todos de sua família.