12 de maio de 2009
Dadinho é o caralho, meu nome é Michael Corleone
Por Arnaldo Branco
Com alguns anos de atraso, li “Abusado”, o livro do Caco Barcellos sobre o traficante Marcinho VP que teve a estratégia promocional mais bem sacada de todos os tempos: seu lançamento provocou a morte do biografado, o que não só alavancou as vendas como suprimiu a necessidade de uma nova edição revista e ampliada.
Mas sério: não consigo entender a revolta quando a literatura e o cinema nacionais exploram a bandidagem em livros e filmes nem sempre memoráveis. Concordo que haja casos de tesão recolhido (e no caso da Katia Lund, saciado) por heróis marginais que não hesitariam em fazer a limpa no intelectual deslumbrado e depois finalizá-lo com um tiro na testa, mas no nível puramente narrativo da bagaça: a vida desses caras não é interessante?
A desculpa é que o abismo social está aí e não se pode brincar com essas coisas, já que, segundo o argumento mais em voga entre os cidadãos de bem, a violência urbana pode estuprar minha filha ou me dar na cara qualquer hora dessas. Mas se o grande problema é a apologia ao crime, porque ninguém reprime a legião de blogueiros que acha O Poderoso Chefão o melhor filme já feito?
Sei que é mais difícil acabar no meio da discussão de dois carcamanos armados até os dentes e com questões de cobrança de proteção para resolver, mas o princípio é o mesmo. Aquele papo de que a máfia só mata seus pares não funcionou muito bem quando juízes da Operação Mãos Limpas começaram a ter problemas em dar a partida em seus carros sem explodir junto.
A diferença entre O Poderoso Chefão e Cidade de Deus, tirando a questão ética e as modalidades de desova de presunto, tem mais a ver com a eterna predominância fashion do chapéu Borsalino sobre o boné da Redley. Você só não fica indignado com Os Bons Companheiros porque não é o seu filho que leva todas aquelas facadas e tiros enquanto está agonizando no porta-malas, coitado.
Uma crítica muito comum ao cinema nacional é que é feito pela classe média e ela nunca se interessa em voltar as câmeras para si mesma. Com razão: provavelmente ia se flagrar promovendo mais uma noite de queijos e vinhos.
13 comentários para “Dadinho é o caralho, meu nome é Michael Corleone”
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12 de maio de 2009 às 14:33
[...] e nos fala do falso moralismo pra cima da parceria entre bandidagem, literatura e cinema. Leia aqui, sangue [...]
12 de maio de 2009 às 17:29
O problema é que brasileiro vive de aparência. Se acostumou a especular, e sabe que parecer algo melhor do que é valoriza. Então nesse caso, se sentem ofendidos em enxergar a verdade que eles preferem ignorar quando saem de casa. É mais fácil criticar do que assumir a sua cota de responsabilidade e tentar fazer a sua parte. Paciência.
12 de maio de 2009 às 22:52
Arnaldo, que vídeo maneiro você arrumou! What a fuck…
13 de maio de 2009 às 15:19
[...] Coluna para a Zé Pereira: Dadinho é o caralho, meu nome é Michael Corleone. [...]
13 de maio de 2009 às 19:36
Arnaldo, não me leve a mal, mas a comparação não é válida, é uma questão de honestidade cinematográfica e de intenções. Vamos comparar “Os bons companheiros” e “Cidade de Deus” - já que o último é uma adaptação do primeiro, embora ambos sejam inspirados em histórias reais. Mas primeiro, a gente tem que levar em conta que nenhum dos dois é filme de gênero ou sátira - que seriam os tribunais de exceção do cinema e, por isso, absolvem tanto os bons filmes do Spielberg quanto os do Tarantino -, se fosse para enquadrá-los, seria na categoria “drama”.
No filme de Scorsese não há o protagonista com o qual o espectador vá se identificar: o Henry Hill de Ray Liotta é bandido e termina bandido, ele jamais se arrepende, não há redenção nem final feliz para o personagem, ao contrário do Buscapé de Alexandre Rodrigues, que não tem a intenção de se tornar um criminoso e termina “homem de bem” e feliz - a não ser que o Fernando Meirelles tenha sido irônico ao fazer com que ele terminasse trabalhando no “JB”.
Scorsese não refresca, não há humor em “Os bons companheiros”. O Tommy DeVito de Joe Pesci pode ser uma figura ridícula, mas não há nada de engraçado em seus atos. Um bom exemplo é quando ele mata o jovem garçon do bar dos mafiosos: a cena é terrível, se alguém ri, é de nervoso. Já em “Cidade de Deus” há uma cena semelhante, quando o Zé Pequeno de Leandro Firmino mata um assecla tagarela: puro humor negro de desenho animado. Pra piorar, o filme ainda termina com um sambão-jóia do Seu Jorge. Tudo pelo conforto do espectador. Nada contra filmes que retratem de forma crua a nossa realidade - embora isso já esteja dando no saco -, “Tropa de elite” é um filme bem mais honesto.
14 de maio de 2009 às 0:56
Poderoso Chefão e filmes da máfia tratam de temas shaksperianos, assim como as novelas da globo, mas tem muito mais estilo (os filmes do poderoso chefão, óbvio). Aliás, foram isso que eles mudaram no cinema hollywoodiano: o estilo. Esses filmes sobre submundo do Coppola e do Scorcese mudaram o estilo do cinema, por isso são tão bons, não pela apologia ao crime, o que seria um absurdo, assim como é criticar um filme por isso, ou criticar música por apologia à drogas. Assim como também é igualmente idiota elogiar um músico pelas letras, vai escrever um livro então caramba!
14 de maio de 2009 às 10:24
Bem, escrevi sobre como já virou um clichê falar da crimexploitation aqui no Brasil, onde se percebe uma cobrança para que os cineastas filmem outra coisa que não o mundo cão das favelas - uma reação que sofrem até filmes como Era uma vez e outras bobagens.
Cidade de Deus é só um exemplo (cheguei a usar Tropa de Elite - mas como esse é mais pró-polícia achei que não ilustrava tão bem), e é claro que acho Poderoso Chefão e Goodfellas infinitamente melhores.
14 de maio de 2009 às 11:12
Saca aquele tipo de filme que diz que faz denúncia contra a exploração sexual de crianças e adolescentes e mostra um monte de ninfetinha pelada em poses provocativas? “Cidade de Deus” vai por aí.
14 de maio de 2009 às 12:10
Pode ser, Zé, mas insisto que prefiro ver uma visão deturpada da realidade do que não ver nada porque “o assunto saturou” ou porque tem gente reclamando que intelectual adora miséria, vamos virar essa página, que assuntinho, etc.
Aliás, pretendo fazer um filme paródia na linha de Çidade dos Homi chamado Not Another Favela Movie…
14 de maio de 2009 às 13:51
Sugiro o título da paródia como: “Não aguento mais ver pobre”…
Mas tem que ver que os blogueiros que acham “O Poderoso Chefão” o melhor filme já feito são os gringos; Brasileiro não pode gostar explicitamente de violencia, afinal, temos que manter a coerência em nossas opiniões pra podermos dizer “alá, esses americanos se amarram em violência mesmo”, da próxima vez que um nerd decidir pegar numa arma e sair dando tiro nos jockos da high school.
14 de maio de 2009 às 15:33
faz sentido, e muito. como é essa mesma burguesia que legitima o que é bom, o que é de bom gosto, falar de si mesmos vai ficar difícil. mesmo quem tem pretensão de ser um machado do século xxi acaba caindo nesse esteticismo bobo que não acrescenta nada pra literatura, só agrada os amigos críticos. Homens como Machado, Nelson Rodrigues, Jorge Amado nascem um a cada 50 anos, o jeito é se virar com os contadores de histórias que temos por aí, o cinema acaba se voltando pro documental porque não tem opção de boas histórias no mercado, sejam violentas ou não. pelo menos no cinema verdade, acho que a gente tá bem servido.
15 de maio de 2009 às 16:52
Cinema verdade. Literatura sincera. Arte imitando a vida. Aos diabos tudo isso.
Fico com a boa e velha ficção.
22 de junho de 2009 às 21:10
dadinho è
o caraio agora meu nome è zè piqueno
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