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25 de setembro de 2008

Como Rubem Braga encontrou William Faulkner

Texto: Bruno Garschagen, de Lisboa
Ilustração: Eduardo Souza Lima

O escritor americano William Faulkner, o gigante que dizia só precisar de álcool, tabaco e papel para escrever, disse em célebre entrevista à “Paris Review” que “a única responsabilidade do escritor é para com sua arte”. Dizia mais, que o escritor “tem um sonho. Isso o angustia tanto que ele tem que se livrar dele. Não tem paz até então. O resto vai por água abaixo: honra, orgulho, decência, segurança, felicidade, tudo, para que o livro seja escrito; se um escritor tiver que roubar a sua mãe, não hesitará”.

Marco Antonio Carvalho, autor do excelente “Rubem Braga – Um fazendeiro do ar” e amigo querido, gostava dessa frase. Tanto que a usou na abertura da elogiada biografia lançada no ano passado. Mais do que gostar, Marco se identificava com a inscrição. A identificação fazia sentido para um escritor que durante 11 anos dedicou a saúde, as finanças, a vida pessoal e profissional à biografia, que nem viu ser publicada. Morreu em 25 de junho de 2007, alguns meses antes do lançamento.

Marco tinha o sonho de terminar a biografia. Isso o angustiou até poder se livrar dele. Não teve paz, orgulho, segurança e felicidade, embora, ao contrário da hipérbole proposta por Faulkner, tenha mantido a honra e a decência. A frase de Faulkner é a inscrição mais ou menos exata que marca o homem e o escritor. Se as palavras de um morto se modificam nas entranhas dos vivos, como dizia o poeta W. H. Auden sobre W. B. Yeats, o legado de quem parte também é corrompido por cada indivíduo que o recebe.

Marco morreu em junho, aos 57 anos, num apartamento da Rua Paissandu, no Flamengo, a 162 passos do Lamas, que ele adorava com sincera devoção. Junho foi um mês importante na vida de Rubem Braga. Era nas férias desse mês que Rubem e os irmãos, na pequena cidade de Cachoeiro de Itapemirim, sul do Espírito Santo, iam para fazendas perto da cidade onde podiam fazer longos passeios a cavalo. Era ali também que, em tempos politicamente incorretos, os adultos levavam os meninos para as caçadas.

Foi igualmente em junho (de 1928) que dois irmãos de Rubem, Armando de Carvalho Braga e Jeronymo Braga, criaram o “Correio do Sul”, jornal que publicaria os primeiros textos daquele que viria a se tornar um dos maiores estilistas da língua e responsável por converter a crônica em estilo literário.

Para não repetir aspectos já realçados nas várias e elogiosas resenhas e reportagens sobre a biografia, cuja leitura recomendo vivamente, exponho aqui alguns aspectos não destacados e que valem reflexão.

Um conceito de liberdade

Primeiro, a questão política. Espírito libertário, desses que não admitem intervenção e coerção de qualquer ordem, Rubem entendia a liberdade como aquela medida em que nenhum indivíduo ou conjunto de indivíduos interfira na atividade do outro. Quanto menor for a coerção de terceiros maior a liberdade individual. É a definição de liberdade negativa cunhada e revelada ao mundo em 1958 pelo filósofo Isaiah Berlin na famosa conferência “Os dois conceitos de liberdade”.

O paradoxo se impõe: como um homem que lutou desde sempre contra o governo autoritário de Vargas, assinou um manifesto contra o fascismo em 1942 e afastou-se dos comunistas ao sentir os primeiros odores de enxofre conseguiu se manter ligado à esquerda a ponto de participar da criação do Partido Socialista Brasileiro em 1946?

Pode-se alegar, como muitos, uma certa ingenuidade política que, numa circunstância que forçava tomadas de posição, obrigava moralmente alguns homens de bem se aliar e enxergar virtude no socialismo. O monumento chamado Otto Maria Carpeaux, para quem Rubem torcia o nariz, foi também um desses inocentes úteis de que os revolucionários desde sempre se aproveitaram, com o uso do trabalho ou da imagem, para avançar com o projeto abjeto de remodelagem social. O qualificativo “democrático” logo depois de termos como socialismo ou comunismo era e é um eufemismo tão burlesco quanto bizarro.

Escritor da roça? Nananinanão!

Segundo, a questão do homem simples. A biografia deixa claro que Rubem Braga era um ser urbano e cosmopolita. Ele tinha lá sua memória afetiva muito bem consolidada e alimentada, que o fazia se permitir a excentricidade de ter um jardim suspenso com árvores frutíferas e passarinhos. Rubem queria estar na cidade vendo a paisagem da infância no interior. O matuto nunca iria para a cidade; ou, uma vez feito carreira lá, voltaria correndo para sua vida rural.

Rubem, que exaltava nacionalmente uma Cachoeiro que só tinha em sua memória, aquela Cachoeiro formada por algumas ruas, familiares e amigos queridos, só foi lá algumas poucas vezes, talvez pela certeza interior de que o confronto com a realidade extinguiria de forma irremediável aquela cidade idealizada. Ele queria as árvores, o passarinho, a memória, mas desde que fosse em Ipanema, Rio de Janeiro, sua janela aberta para o mundo onde podia receber as mulheres, os amigos e ter uísque sempre à mão.

Um outro paradoxo se impõe: embora conhecido, reconhecido e lembrado por textos sobre passarinhos, frutas, mar etc., Rubem escrevia melhor sobre a natureza humana e os relacionamentos do que sobre frivolidades rurais ou questões sociais. Quando falava sobre mulheres, conversas, encontros, amores incompletos, decepções, era de um brilhantismo literário incomparável. Quando falava sobre frutas, aves e quetais, ou se aventurava na temática política ou do choque de classes, era de uma superficialidade constrangedora, que só não era pior porque o grande escritor sabe maquiar suas imperfeições.

“Rubem Braga – Um fazendeiro do ar” vale pela descrição minuciosa da vida do nosso grande cronista, pelo painel que esboça da cultura e da política do país no século XX, pelo texto que sincroniza de forma lapidar emoção e evento histórico. Rubem deixou um legado estilístico cujo conhecimento está restrito a alguns afortunados; Marco tentou resgatá-lo com essa obra admirável.

“A única responsabilidade do escritor é para com sua arte”, eis o lema de Faulkner, Rubem e Marco.


4 comentários para “Como Rubem Braga encontrou William Faulkner”

  1. » Como Rubem Braga encontrou William Faulkner disse:

    [...] Esse texto foi publicado no site da revista carioca Zé Pereira, editada pelo crítico de cinema e chapa Eduardo Souza [...]

  2. » Como Rubem Braga encontrou William Faulkner disse:

    [...] O texto acima foi publicado no site da revista carioca Zé Pereira, editada pelo crítico de cinema Eduardo Souza [...]

  3. Revista Zé Pereira» Arquivo do Blog » A crônica do século XX disse:

    [...] não fosse ateu, eu diria que, onde quer que ele esteja, está zombando da ironia do destino. Leia aqui um artigo de Bruno Garschagen sobre o livro e sobre o [...]

  4. Amo Rubem Braga disse:

    Rubem causou em mim uma grande admiração a , admiração foi tanta q passei noites em claro estudando, decorando tudo sobre ele
    O escritor que se dedicou muito por aquilo que fazia e que tinha grande dedicação pela sua terra natal: Cachoeiro de Itapemirim
    Eu amo Rubem Braga

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