30 de março de 2009
Como nos velhos tempos, ou “categóricos” torturadores
BLOG, Chamando na chincha, O mundo lá fora
Por Luiz Bello
No dia 3 de abril de 1964, o jornal “O Globo” estampou, em sua primeira página, matérias apoiando a Marcha com Deus e a Família pela Liberdade, manifestação de setores conservadores da classe média carioca, que foram às ruas, no dia anterior, apoiar o golpe de estado contra o presidente João Goulart. Passeatas semelhantes haviam ocorrido em São Paulo (em 13 de março do mesmo ano) e em outras capitais. Tudo fazia parte de uma grande campanha, apoiada por políticos de oposição, empresários conservadores, setores militares e pela CIA, para desestabilizar o governo de Jango, considerado esquerdista e perigoso aos olhos do Tio Sam. Aliás, todos os governos democráticos da América Latina eram considerados perigosos, na época, e todos foram derrubados e substituídos por ditaduras, com apoio do EUA. Dólares foram despejados fartamente em jornais brasileiros, que não se acanharam em participar de uma trama orquestrada do exterior, para desestabilizar o governo democraticamente eleito de nosso país. Isso é História. A parte vergonhosa da História que cabe às organizações de Roberto Marinho.
Neste domingo, “O Globo” pareceu voltar às suas origens, estampando em primeira página manchete que acusa o falecido Leonel Brizola de receber propina das empresas de ônibus do Rio de Janeiro. Empresas encampadas por ele e que, mais tarde, se uniram para financiar o candidato que o derrotou nas urnas (Angorá Moreira Franco).
Vivo fosse para se defender, certamente o velho Briza acionaria novamente a Justiça contra “o jornal do Dr. Roberto”. E, creio eu, venceria. Como venceu inúmeras vezes, conseguindo publicar suas respostas, respaldadas por lei, nas páginas do jornal que o difamava.
É de uma leviandade absurda que se dê espaço na primeira página de um dos jornais mais importantes do país para relatórios produzidos por gente que assassinou, torturou e se especializou em contra-propaganda clandestina, financiada com dinheiro estrangeiro. Gente cujo objetivo principal era desestabilizar o governo constitucional e implantar no Brasil uma ditadura militar, fiel aos ditames de Washington.
A matéria não menciona quase nenhum nome. Apenas reproduz o que os relatórios anônimos do SNI vociferavam contra Brizola, o governador gaúcho que organizou a resistência ao golpe de 1964 mesmo depois de o presidente João Goulart ter abandonado o país. Os militares golpistas jamais o perdoaram por isso, perseguindo-o até quando ele, retornado do exílio, conseguiu recuperar, no voto, o espaço que a ditadura lhe havia roubado. Houve no Brasil algum político que tenha conseguido se eleger governador por dois estados (Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro)?
Os arquivos do SNI são públicos? Como “O Globo” teve acesso a eles? Outros pesquisadores poderiam ler os textos reproduzidos pelo jornal? Quem assina os relatórios do SNI? Qualquer fonte anônima pode ter suas palavras estampadas na primeira página do jornal mais importante do Rio de Janeiro?
O próprio texto da matéria reconhece que nada foi provado, mas manifesta implícita simpatia com os autores das calúnias, ao afirmar que a ditadura acionou seu “sofisticado esquema de espionagem” para investigar o governador do Rio. Ora, quem viveu e conheceu as investigações perpetradas naquele tempo sabe que a ditadura foi tudo, menos sofisticada. As “informações” eram obtidas por caguetagem, intimidação e porrada, muita porrada, distribuída covardemente, nos porões dos quartéis.
O texto da reportagem ainda diz: “Os relatórios não apresentam provas e não indicam ter originado investigações formais, mas são categóricos nas acusações”. Um torturador “categórico” parece ser fonte confiável, aos olhos dos atuais editores de “O Globo” e do repórter que assina a matéria, Bernardo Mello Franco.
Nunca votei em Brizola. Não confiava em seu discurso de caudilho. Mas, ainda assim, não pude deixar de notar que ele sempre esteve muito acima de todos os milicos e torturadores que conspiraram pela sua derrota, fosse antes ou depois do golpe. “O Globo”, aparentemente, ainda não perdoou o velho gaúcho. Ainda o teme e difama, tantos anos após a sua morte.
A manchete correta, na minha modesta opinião, talvez fosse “Sarney rasgava relatórios do SNI”, uma informação dada ao jornal, com exclusividade, pelo proprio ex-presidente, e que demonstra a credibilidade que tais arapongas tinham entre os políticos da época.
Por mais que tenha se excedido e transigido com diversos aliados de conduta para lá de duvidosa, Brizola foi um político impar. Ele, certamente, poderia sentar seus netos no colo e contar a sua vida, sem medo ou vergonha. Será que poderiam fazer o mesmo os rapazes anônimos do SNI, do Cenimar, dos CODI e outras siglas obscuras, para quem “O Globo” cedeu espaço tão nobre e generoso?
E olha que eu nem falei da Proconsult…
14 comentários para “Como nos velhos tempos, ou “categóricos” torturadores”
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30 de março de 2009 às 10:09
Esse Bernardo Melo Franco vai longe.
30 de março de 2009 às 23:05
Acaso o outro lado, ao qual pertencia o Dr BRIZOLA, tb não tinha o objetivo de instalar uma ditadura e tb não pegou em armas e matou inocentes nesse processo? Esse merece a capa do Globo?
30 de março de 2009 às 23:07
Diogo, que discurso bonito, dando aval ao mau jornalismo e à ditadura militar. Parabéns!
31 de março de 2009 às 11:43
Vc não retrucou a opinião!
31 de março de 2009 às 12:17
Caro Diogo, opinião não se retruca, todo mundo tem o direito de ter a sua, democracia é isso aí.
31 de março de 2009 às 17:51
Mas se estamos debatendo deveria ser argumento contra argumento, não? Eu nem era nascido qdo tudo isso aconteceu, mas vejo gente dizer que o outro grupo político [esquerda] tb tem culpa no cartório em relação ao uso de métodos extremos e ainda não achei um bom motivo para discordar.
31 de março de 2009 às 18:19
O fato é que a esquerda não chegou ao poder naquela época, então tudo o que se diga sobre isso hoje é mera especulação. Já os militares mataram muita gente inocente (muito mais do que o outro lado, não há nem comparação), fecharam o congresso, acabaram com a votação direta para presidente e censuraram a imprensa. Isso é História e não história. A esquerda faria isso? Não dá pra saber. Eu era muito pequeno na época, mas amigos meus mais velhos que sobreviveram àqueles anos são pessoas bastante democráticas. Outra coisa: se a grande imprensa hoje é toda de direita, isso já seria um bom motivo para ao menos desconfiar do que ela diz, correto?
E o que está em jogo aqui, o que considero mais grave, não é quem tem a razão, mas o baixo nível do jornalismo praticado atualmente.
2 de abril de 2009 às 14:24
Ainda.
Não acho que dê pra falar que a imprensa é toda de direita. A imprensa é toda BURRA, isso vc pode dizer. Todos repetem tudo o que lêem-e-não-apuram; os jornais em geral são mera compilação das agências de notícias e, com isso, já não sabem mais a quem servem: há tanto notícias de direita como de esquerda.
E se vc diz que o que te preocupa, mesmo, é o baixo nível do jornalismo e toma como prova disso o fato d’O globo falar bem da ditadura, no fundo vc está querendo dizer que jornalismo de direita ou conservador é de baixo nível, o que não pode ser admitido como uma postura democrática.
2 de abril de 2009 às 15:22
ôooo Diogo, vc está querendo dizer que ter a OPINIÃO de que jornalismo de direita ou conservador é de baixo nível não é UMA POSTURA DEMOCRÁTICA? PRESTENÇÃO!
2 de abril de 2009 às 16:51
Diogo, talvez eu tenha me expressado mal. Eu não disse que a grande imprensa é antidemocrática porque é de direita, mas porque TODOS os veículos da grande imprensa defendem os mesmos interesses, não dando espaço para vozes dissonantes - e aí tanto faz se ela é de direita ou de esquerda. E porque distorce fatos, mente e manipula informação. Estamos entendidos?
3 de abril de 2009 às 12:54
ANA SILVIA: sim, foi o que eu disse. Acho que um democrata, que aceita que numa sociedade deve haver lugar pra posições políticas de um lado e de outro, não pode associar imediatamente direita com baixo nível ou esquerda com alto nível. Certo?
ZÉ PEREIRA: Entendi, mas você já mudou o que tinha dito anteriormente.
Vamos simplificar a coisa: o argumento do seu artigo é que o jornalismo brasileiro é de tão baixo nível que um grande jornal como O globo tem a cara de pau de defender a ditadura. Isso está muito claro, basta reler o seu artigo, pois pelo visto nem você sabe o que disse.
Aí você diz que não há espaço para opiniões dissonantes. E a Carta Capital? E a Caros Amigos? Quantas vezes na Folha de São Paulo você terá visto artigos de gente descendo o pau na ditadura?
3 de abril de 2009 às 15:14
Você tá de sacanagem? Tá querendo comparar o número de leitores e o alcance da Carta Capital e da Caros Amigos com os da Veja, d’O Globo, do Estadão, da Folha e da Época? (sem contar o número de espectadores da Globo.) Peraí, né, meu chapa. É uma briga muito desigual.
A Folha mudou a sua linha editorial recentemente e estranhamente.
Só para esclarecer: quem escreve aqui é Eduardo Souza Lima, eu não sou o autor do artigo.
10 de abril de 2009 às 21:48
Olha, o que a turma competente do SNI fazia era colecionar recortes da imprensa, e na época o Globo vivia acusando o Brizola de fazer arranjos com a bandidagem e piorar a segurança pública do Rio.
Eu não acho que o Brizola fosse exatamente um santo. Errou muito, mas seus erros devem ser considerados no contexto das coisas. E o Globo fazia campanha estridente contra ele, muitas vezes levantando calúnias e mentiras deslavadas.
Uma coisa que o espalhafatoso jornal esqueceu de dizer nessa matéria, assim como em pequeno editorial atacando seu antigo arqui-inimigo Brizola (!), é que o governo CHAGAS FREITAS era desesperadamente corrupto. E era apoiado pelo jornal. Chagas, anterior a Brizola, ao que parece tinha também aliança com os bicheiros, sendo que o famigerado capitão Guimarães era fruto do regime. E a violência já era um grande problema. Depois, o MOREIRA FRANCO, que governou após 4 anos de Brizola, tinha sim aliança com os bicheiros. E a violência na cidade só aumentava.
O fato é que, se, como quer o Globo, “Brizola tinha visão tosca sobre direitos humanos”, a ditadura militar também tinha “visão tosca” sobre combate à criminalidade. E nem tinha visão alguma do que seriam direitos humanos.
Vade retro, Golbery!
21 de junho de 2009 às 15:36
[...] A íntegra da matéria está na edição impressa e na área do site dedicada aos assinantes, mas mesmo a parte liberada para o público tem muitos detalhes. Embora vindas por uma figura execrável, as denúncias veiculadas pelo Estadão têm o mérito de serem identificadas, ao contrário do que fez, recentemente, O Globo, em relação ao governo Brizola. [...]