7 de julho de 2008
Coleção Primeiros Passos: O que é Didatismo
Por Arnaldo Branco
O problema com esses filmes recentes sobre a ditadura militar é que os atores falam igual aos livros do Elio Gaspari. Neles não existe diálogo sem função - o contexto é algo para se falar a respeito, e não para simplesmente inserir os personagens. Os diretores desses filmes parecem abrir mão da verossimilhança pela certeza que o público vai entender a mensagem. O ditado reza que quando o artista precisa se explicar para o público, um dos dois é débil mental, mas a burrice ou a falta de talento sozinhas não explicam a fascinação dos nossos auteurs pelo didatismo. É a nossa culpa, católica e às vezes jurídica que explica a crença fundamental no caráter educacional da arte. Aqui, até o cenário se associa às intenções informativas da obra. Lembro de uma cena de rua em um filme passado nos anos 60 em que a fachada de um cinema prometia nada mais nada menos que “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Assim é a paisagem nas nossas produções, sempre prontas a aludir a obras fundamentais para a compreensão da época retratada ao invés de algum filme do Jerry Lewis ou uma sessão dupla de kung fu. O artista brasileiro se sente frustrado se perde a oportunidade de aborrecer o público, talvez na esperança de expulsá-lo definitivamente de nossas salas de projeção para que desista dessa diversão pequeno-burguesa e se ocupe de coisas mais importantes para nosso desenvolvimento enquanto nação. Deve ser por isso que nossos cineastas são remunerados através da isenção fiscal - prestam um serviço ao governo e ainda fazem os beneficiados (os contribuintes) participarem de uma espécie de consórcio da conscientização. Se os filmes nacionais parecem chatos, é porque entreter é considerado um crime de lesa-discurso - existe a necessidade dedesossar uma narrativa de toda distração para que o principal fio condutor seja o sermão. Veja pelo lado bom: em comparação a um comício do Fidel nossos filmes até são curtos.
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