6 de janeiro de 2010
Clint Eastwood - O homem e o mito
BLOG, Cinema
Por Luiz Henriques
Acabei de ver “Gran Torino” em Blu-ray (uma espécie de DVD em alta definição - sorry, periferia). O velho Clint já havia anunciado na época em que lançou “Mystic River” (”Sobre meninos e lobos”) que havia se aposentado como ator, mas que um bom roteiro, principalmente de bangue-bangue, poderia fazê-lo voltar à frente das câmeras. “Gran Torino” não é um western, mas é um competentíssimo roteiro sobre ritos de passagem (assunto adorado por americanos). Como a esta altura da carreira já está mais do que claro que Eastwood não faz papel de coadjuvante e é pouco provável que alguém concatene um script realmente interessante com um octogenário em esplêndida forma como protagonista, parece pouco provável que vejamos o rosto do velho diretor novamente nas telas. Assim sendo, a última imagem dele em película terá sido sua morte, crivado de balas em pose de crucificação, para salvar seus vizinhos asiáticos.
Assim, mesmo sem querer, Clint Eastwood, inegavelmente um mito do cinema, percorreu a evolução do mito nas sociedades. Não sei a religião dele, mas os últimos dois filmes que protagonizou, “Menina de ouro” e “Gran Torino”, têm padres que ele sacaneia, mas que depois se mostram perspicazes e inteligentes. Sua carreira começou também nas mãos de um católico, o ritualizadíssimo Sergio Leone, mas o personagem que ele fazia tinha pouco a ver com o Cristo referenciado em “Torino”. Pelo contrário, parecia mais um herói da Idade do Ferro, herança das sociedades caçadoras coletoras. Esse povo não plantava e ficava esperando os grãos brotarem, eles metiam a mão na massa - pegavam suas lanças e saíam na porrada com os bichos em troca da carne deles. Matar para sobreviver criou a culpa (não foi invenção do monoteísmo, como muita gente pensa) e exigia, junto com a inteligência, a destreza e a habilidade. É o que celebramos até hoje nos esportes. É dessa época que vêm as mitologias “vivas”, em que a mágica ainda acontece: pense nos índios brasileiros e seus pajés, que entram em transe e vão lutar pelas almas dos doentes com divindades malignas ou as lendas sobre todas as criaturas que habitam a floresta - curupiras, sacis, botos e mães d’água. Esta é a era dos heróis violentos e que sabem o que quer. Como o pistoleiro cínico da trilogia dos dólares (”Por um punhado de dólares”, “Por alguns dólares a mais”, “Três homens em conflito”), que se preocupa apenas em conseguir sua recompensa (a caça), sem preocupações morais e éticas.
Mas depois a humanidade começou a plantar e a regularidade dos ciclos de plantações e o excesso de farutra, que criou uma classe que não precisava trabalhar e servia só pra supervisionar, levou aos regulamentos. É a era dos primeiros códigos legais, do “olho por olho”. É o que levará ao monoteísta Deus vingativo e violento do Antigo Testamento. E Clint Eastwood igualmente seguirá essa trilha, passando do amoral pistoleiro dos western spaghetti para o policial - ou seja, parte de uma organização - que irá despejar sua ira sobre aqueles que transgredirem a lei e subverterem a ordem. É a era de “Meu nome é Coogan” e principalmente de Dirty Harry, o “Perseguidor implacável”, lançando como Zeus trovões de sua Magnum 44. Como Javé, ele irá queimar Sodoma e Gomorra no fogo de seus pecados, em “O estranho sem nome”.
Mas o Jeová do Antigo Testamento só criava um ciclo de violência interminável (cf. “Munique”, de Spielberg, he, he, he). Era preciso algo mais. “Josey Wales, o fora-da-lei” foi o primeiro a descobrir que abandonar as armas e abraçar o próximo talvez fosse melhor para tocar a vida. “O cavaleiro solitário” já abraçara o monastério e trocou suas armas por uma gola eclesiástica. Mas no Oeste Selvagem a lei era mercenária e se voltava contra os justos, daí que ele no final voltava a encarnar o pistoleiro sem perdão, disparando seus enormes (e fálicos) símbolos de autoridade, os Colt Dragoon, de carga dianteira.
Foi preciso uma tentativa de voltar a essa vida sem sentido, de matar tudo que anda ou rasteja nessa terra, para perceber o vazio existencial. “Os imperdoáveis” também tem um tiroteio final, mas com um gosto amargo. Seu melhor amigo continua morto. Os mortos permanecem mortos. Qual o sentido disso tudo, então?
Amar o próximo.
É assim que o velho ranheta, ranzinza e racista de “Gran Torino” se tornará o herói e messias dos vizinhos asiáticos. Ideal amoroso das moças, modelo para os rapazes e salvador para a família, sua grande ação final não é um tiroteio, mas um sacrifício. Caído no jardim, em pose de crucifixão, Clint Eastwood, já um mito das telas, representou em suas fitas justamente a evolução da mitologia, do herói amoral em busca da presa até o iluminado que percebe que somos todos parte de uma grande comunidade e nunca haverá fim enquanto uma alma caminhar por este vale de cólera e lágrimas, buscando aprender, conhecer, amar e viver.
3 comentários para “Clint Eastwood - O homem e o mito”
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6 de janeiro de 2010 às 22:55
Hehe, o final é do caralho, não podia contar, pô.
7 de janeiro de 2010 às 20:38
Ótima análise da carreira de Clint Eastwood. É de foder o último parágrafo em que você diz que no final estamos todos no mesmo barco de merda, e que ao negarmos isso, sempre seremos desmentidos por uma dura realidade.
27 de janeiro de 2010 às 16:06
Texto fodão, difícil de ver por aí. Parabéns.