8 de outubro de 2008
Cimentando o caminho das nuvens
BLOG, Cinema, Festival do Rio 2008
Por Eduardo Souza Lima
Poucos cineastas chegaram ao seu primeiro longa-metragem com a bagagem de Vicente Amorim. Até chegar a “O caminho das nuvens” (2003), ele foi assistente de direção de 23 filmes, de diretores como Leon Hirszman, Paul Mazursky, Cacá Diegues, Hector Babenco e Bruno Barreto, e ainda fez uma espécie de estágio em “2000 Nordestes”, documentário que co-dirigiu com David França Mendes que nasceu da pesquisa que fizeram para o longa de ficção. E é claro que essa experiência contou para que fosse convidado para dirigir a produção internacional “Um homem bom” (Reino Unido/Alemanha), que tem sessão de gala hoje, às 22h, no Odeon, com a presença do astro Viggo Mortensen - o filme passa de novo amanhã, às 16:45h e às 21:15h, no Espaço de Cinema 2. Vocês vão notar que eu bobeei na última pergunta de novo.
O que te atraiu mais no projeto “Um homem bom”?
“Um homem bom” é um filme que tem uma visão muito original sobre a ascenção do nazismo na alemanha. Em vez de ser, como quase sempre, pela ótica dos ingleses, dos americanos, dos russos ou das vítimas (judeus, comunistas, ciganos) ele nos dá uma visão de dentro - não da máquina nazista, mas de um cidadão comum, um “homem bom” que se envolve com ela. O filme não é feito com o peso da perspectiva histórica que temos hoje, mas do ponto de vista de alguém que vive o momento. É, portanto, um filme sobre a época, mas também um filme atemporal sobre escolhas e sobre a vaidade que nos leva a fazê-las. E as escolhas que milhares de pessoas comuns fizeram na Alemanha dos anos 30 foi o que possibilitou a ascenção do regime, não apenas a direção apontada pelo partido. Isto serve como reflexão para escolhas que fazemos hoje, todo dia. Nós não temos o privilégio de saber as consequências de nossas escolhas, vivemos o presente, mas se pensarmos mais sobre elas, talvez sejamos capazes de escolher melhor - afinal toda escolha que fazemos é, em essência, política. Poder contar uma história como esta, com personagens tão interessantes, com um drama humano tão bem construído (e tendo a peça de C.P. Taylor como base) era irrecusável.
Como pintou o convite para dirigir o filme?
A produtora, Miriam Segal (inglesa e judia, vale dizer), que persegue este projeto há quase 20 anos, achava que para dirigir o filme, por causa da sua visão heterodoxa, precisava de um diretor que não fosse europeu, que não carregasse “bagagem e preconceitos pessoais”, como ela disse, sobre o tema. Começou a pensar em cineastas latino-americanos, viu o meu filme “O caminho das nuvens” e achou que eu era a escolha certa. Dei sorte.
No que sua experiência como brasileiro te ajudou a contar uma história da Alemanha Nazista?
Se a Miriam, produtora do filme, estava certa em evitar diretores que trouxessem “bagagem pessoal” para o projeto, acho que esta foi a principal vantagem de ser um cineasta brasileiro. Dito isso, sou velho o suficiente para ter vivido, como adolescente, o fim da ditadura militar e para ver o estrago que ela causou não só ao país, mas à minha família e a vários amigos dela. E para ver pessoas aparentemente “boas” justificando sua participação no que foi o maior desastre institucional e humano da História brasileira. Os paralelos são óbvios.
Você teve carta branca para fazer mudanças no projeto original?
Os produtores do filme me deram liberdade para trabalhar tanto na estrutura quanto nos detalhes do roteiro. Foi um processo colaborativo muito rico e que durou quase três anos até que finalmente filmamos. Não sei se isto pode ser chamado de “carta branca”, pois por mais liberdade que te seja oferecida num projeto destes, você tem responsabilidades em relação não só à visão dos produtores e financiadores, mas ao material original, que é, na Inglaterra, uma peça muito conhecida.
O Viggo Mortesen já fazia parte do pacote ou foi você quem sugeriu o seu nome?
O Viggo estava no topo da minha lista de sugestões para o papel principal quando fui chamado para o filme. A princípio ele não poderia e chegamos a pensar em outras alternativas, mas o timing do projeto mudou e quando ele terminou de filmar “Senhores do crime” estávamos prontos para começar “Um homem bom”. Deu tudo certo.
Quais as maiores diferenças que sentiu em trabalhar numa produção internacional em relação às nacionais?
Não há tantas diferenças assim, principalmente quando se trata de uma produção independente como foi a de “Um homem bom”. As grandes diferenças estão nos filmes de estúdio com orçamentos multimilionários - não era nosso caso. As dificuldades foram as de sempre: conciliar as ambições do filme com seu orçamento. Certamente, em relação à maioria das produções brasileiras, tive um pouco mais de conforto na produção, mas não muito.
Qual o seu próximo projeto? Pensa em continuar trabalhando fora do Brasil?
Meu próximo projeto é o “Corações sujos”, que a Mixer vai produzir junto com a Columbia - as filmagens estão previstas para maio de 2009. É, evidentemente, um filme brasileiro (mesmo que fechemos alguma co-produção internacional). O filme, baseado no livro do Fernando Morais, conta uma história passada dentro da comunidade japonesa no interior de São Paulo depois da Segunda Guerra: a maior parte da colônia não acreditava na derrota. O filme é focado na história de um dos principais matadores da Shindo Renmei, organização dedicada a matar todos os “corações sujos” - que eram os poucos japoneses que aceitavam a vitória americana. Um thriller de época bem atual, de novo: os seus principais temas são intolerância, fundamentalismo e a manipulação da verdade.
Trabalhar fora do Brasil não é um objetivo de carreira. Mas se outros projetos bacanas rolarem, topo.
E que filme, fora o do David e o seu, você recomenda neste festival?
O curta “Domingo de Páscoa”, de Pedro Amorim.
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