28 de maio de 2009
Maracatron: Capítulo 4
MARACATRON
Texto e ilustração: Toinho Castro
quando foi a última vez que vimos uma boa partida? quando foi a última vez que subimos à superfície e andamos pelas galerias do estádio? na minha gaveta ficam jogadas algumas fotos que registram nossa alegria, minha, do jamerson e do jadeir, assistindo a uma partida de futebol. hoje caminhamos pelos corredores escuros, onde apenas piscam luzes intermitentes, vermelhas, amarelas… caminhamos e mal esbarramos em alguém. ouvimos ecos da torcida logo acima, que nos ignora. sentimos um certo arrepio por sabermos, intuitivamente, que a bola raspou a trave, que noventa minutos ainda não definiram um jogo.
outro dia flagrei johnson, o filho de john, com a orelha pressionada contra uma parede, tenso, tentando escutar o desenrolar de um jogo da seleção brasileira que, segundo ele, se propagava em ondas desde a superfície até aquele ponto exato. — contra quem? perguntei. — não sei… estamos perdendo. de repente ele olhou para mim e falou:
— estou acompanhando esse jogo há três dias…
então ele me explicou que percebeu variações inexplicáveis em certos gráficos durante bombardeios regulares no coração do maracatron. mapeando o complexo em busca de distorções de realidade encontraram alguns pontos de reverberação, de onde emanavam sons que, aparentemente, provinham da superfície, do estádio, através de caminhos tortuosos pelos dutos e paredes, chegando apenas a alguns pontos milimétricos da estrutura ao nosso redor. nesses pontos, com estetoscópios, ou com o rudimentar método de colar a orelha contra a parede, podia-se escutar o desenrolar de uma partida, mais precisamente aquela partida entre o brasil e uma seleção desconhecida. esse looping dimensional já durava três dias, até onde se sabia.
deixei johnson “monitorando” o jogo e saí a procura do jadeir, aquele cínico. acabei por encontra-lo no controle central debruçado sobre os monitores, atento aos gráficos e númeors que se multiplicavam nas telas em busca dos pontos específicos que irradiavam aquele jogo bizarro.
— pelo visto não fui o único a encontrar o johnson…
— e você acha mesmo que eu precisaria encontrá-lo para saber que algo está fora do lugar?
— o que há por trás dessa jogo?
— o de sempre… o estagiário de sempre bombardeou a partícula errada com outra partícula errada de sempre e agora deve estar tomando café no 5º subsolo. como sempre. filho da mãe…
— se você quer destruir o mundo basta arrumar um estágio no lugar certo. como vamo sair dessa?
— quem disse que ele arrumou um estágio aqui?
enigmático, maldito enigmático. onde ele queria chegar?
— e agora… o que vamos fazer?
— temos que descobrir qual é o outro time e utilizar esse dado no reversor fatorial de neutrons. talvez assim a gente consiga anular o looping e acabar o jogo.
— mas a gente tá perdendo, jadeir. não podemos acabar agora.
— volte para a sua cela!
— nós não vivemos em celas aqui, jadeir… mas em alojamentos.
— chame como quiser… olha, vou dar uma chance pros palhaços. se esse jogo já dura três dias, a gente pode deixar rolar mais um pouco.
de repente escutamos a voz de johnson ecoando pelos corredores e salas:
— levamos mais um!
jadeir correu desesperado para pegar o reversor fatorial de neutrons e executou cálculos complexos que eu jamais esperaria ele que conhecesse. foi como se a minha mãe começasse a falar aramaico de uma hora pra outra.
— vamos acabar com esse merda agora! aposto que é a argentina!
jogou o “argentina” codificado e anagramatizado no reversor, que emitiu sinais e ruídos típicos de um reversor fatorial de neutrons. por fim um apito pareceu soar dentro da minha cabeça. caí ajoelhado…
— é o apito final… o apito final. — murmurou jadeir.











