30 de agosto de 2010
Não é só você
MAL NECESSÁRIO
Por Arnaldo Branco
Existe uma linha de abertura muito comum quando vamos expressar uma opinião que julgamos muito pessoal e controversa: “Será que só eu acho que…”. Uma variante comum: “Desculpem, mas eu acho…”. Não, não é só você.
Não sei bem com quem estamos falando quando falamos assim, como se buscássemos a aprovação de um amigo imaginário ou nos protegêssemos da grande vaia coletiva da platéia que só está esperando nosso parecer sobre o assunto. Tem a ver com a afirmação da identidade, tarefa tão difícil em um tempo em que todo mundo dirige seu próprio reality show e cada vez há mais protagonistas do que espectadores.
Já escrevi sobre como muitas pessoas se sentem mais definidas pelo que gostam do que pelo que são ou fazem, em um processo de projeção que as desobriga de traçar projetos maiores do o que o de colecionar traços da sua própria personalidade na obra dos outros. Também os desgostos e preconceitos parecem ser pontos cardeais importantes nesse propósito de nos situar no mundo.
E são (Nelson Rodrigues dizia que a incapacidade da platéia se escandalizar no final dos anos 60 era um sinal dos tempos), embora, como os gostos, não tragam em si nada de extraordinário. O que você faz com esse seu catálogo de desagrados é mais importante: alguns erguem sua obra crítica, outros se tornam meros ostentadores, Ed Mottas da sua própria preferencioteca.
Não é só você - mas você bem que gostaria, não? A boa notícia é que existem outras formas de ser especial.










