25 de janeiro de 2010
História de vingança e carnaval no boteco Barangal
CRÔNICAS DO RIO
Carnaval, ah, o carnaval! Delírio e desgraça. Quem nunca perdeu ou ganhou um amor durante o carnaval que atire a primeira lata de cerveja. Em mim, que eu já estou em ritmo de carnaval. O coração esquenta e lá vou eu, skindô skindô, pelas esquinas do Rio. E nessas andanças a gente vê é coisa, viu? Outro dia, num boteco ali na Cardeal Dom Sebastião Leme, no bairro de Fátima, o tempo fechou. Pelo que entendi, parece que Agenor tinha dado um perdido em Alice no dia anterior e ela, que é esperta e sabe que a vingança é um prato que se come quente, acompanhado de uma cerveja bem gelada e de um cara mais gostoso do que o otário com quem você ainda estaria se ele não tivesse feito merda, logo conclamou Zito, pra deixar bem claro que com ela não, violão.
- Que merda é essa? Onde você vai? Volta, Alice! – esbraveja Agenor lá do fundo do bar.
- Voltar pra quê? Esse ano não vai ser igual àquele que passou, meu bem. Ah, não vai não!!!
- Vem, bagunça o meu coreto, vem satisfazer esta rola preguiçosa, vem que esse é bom, mas ninguém sabe, só você. Vem, sorri pra mim preu me lembrar que simpatia é quase amor, mesmo que você esteja me odiando agora. Eu sei, eu sei que o nosso romance anda meio morno, mas é que também a gente nem muda nem sai de cima, né? Por mim eu não saía de cima é de você. Eu sei, você tem razão, ontem eu cheguei em casa com o maior bafo da onça, mas Ih!, é carnaval, amor. Além disso, eu te avisei, lembra? Meu bem, volto já!!! Gritei lá do portão, mas você estava numa ressaca só, acho que nem me ouviu. Quem mandou? Meu amor, quem num guenta bebe água. Você me conhece, eu não posso ouvir uma banda passar que já quero ir atrás. Quem manda ficar em casa, enchendo a cara? Você concentra, concentra, mas não sai. Na hora agá, você rói a corda e diz: me deixa, quero ficar no meu kantinho. E pra mim carnaval é diversão, é brincadeira, é tão bom que se melhorar, afunda e eu quero é me acabar.
A essa altura do campeonato o bar inteiro já tinha parado o que estava fazendo para prestar atenção no Agenor. Aquilo ia dar forrobodó, ah, se ia! Um assunto prato cheio pro samba do bloquinho dos amigos que o grupo da mesa do fundo vinha tentando compor há duas semanas. Alice? Pediu uma gelada, a mais gelada que você tiver, Confete, que eu tô fervendo por dentro, e uma porção de azeitona sem caroço! Agenor? Coitado. Cheguei a sentir pena dele. Só não me rolaram lágrimas face abaixo porque o teor alcoólico ainda não dava pra isso. Num lamento, Agenor ainda implora.
-Vem meu bem! Você sabe que quando você me xupa mas não baba eu vivo o céu na terra. Faz isso comigo não. Vem, vem só pra ver o que vai dar.
Antes de se atracar com o Zito, um negão maravilhoso fantasiado de São Jorge, espada em riste, que vem encontrá-la na porta do bar, Alice manda pra Agenor um beijinho soprado com a pontinha do dedo. Cruel, cruel.
- Imaginou? Agora amassa – ordena Alice a Zito, que a essas alturas já segurava a nega pela cintura carregando ela num dois pra lá, dois pra cá tão suingado que derretia o coração das meninas ali presentes. O meu inclusive.
- Imprensa que eu gamo, responde Zito, tascando-lhe um beijo no pescoço de deixar o mais devasso da cardeal sem graça.
Agenor ainda pensou em colocar as barbas de molho, deixar a raiva passar. Carnaval é assim mesmo. O problema é que estava prestes a ter uma síncope e, se não reagisse, e rápido, era capaz de sofrer uma parada cardíaca ali mesmo. Não, não passaria o resto do carnaval num leito de hospital. Tampouco era a hora de dar a Zito o título de rival sem rival. Nem por Alice. Como tudo é desculpa pra beber, ele dá um gole na gelada, pra tomar coragem, e sai correndo na direção dos dois pombinhos tal qual uma besta descontrolada. Na porta do boteco ele tropeça, escorrega, mas não cai. Agenor alcança os dois bem na hora que Alice sussurra no ouvido de Zito: vem, meu bem, vem ni mim que eu sou facinha.
Nem é preciso contar o bafafá que deu, né?
Desafio do dia: há 33 blocos de carnaval citados nessa história. Quem descobrir quais são ganha uma cerveja estupidamente gelada no primeiro bloco em que a gente se encontrar. Promoção válida até o final do carnaval.











