21 de setembro de 2009

Na semana que começa no dia 28 de Setembro Dia da Luta pela Descriminalização do Aborto da América Latina e do Caribe, cinco canais (Canal Futura, TV Câmara, TV Educativa da Bahia, TV Sesc e TV Cultura) vão exibir o documentário “Fim do silêncio”, de Thereza Jessouroun, inédito na televisão. Nele, pela primeira vez, mulheres, de três estados do país, de diferentes idades, religiões, classes sociais e profissões, falam para a câmera, sem esconder rostos nem identidades, como e porque fizeram aborto.
Rio de Janeiro, São Paulo e Pernambuco estão nas duas regiões (Sudeste e Nordeste) que concentram maior número de abortos inseguros do Brasil, um dos mais graves problemas de saúde pública do país. Só foram incluídos depoimentos de mulheres que fizeram aborto há mais de oito anos, pois o “crime” prescreve depois deste período. Apenas 26% dos países do mundo ainda não descriminalizaram o aborto. Todos eles na América Latina, África e Ásia. No Brasil, o aborto foi considerado crime em 1940, sendo permitido hoje apenas para gravidez resultante de estupro e em caso de risco de vida da gestante. Esta lei ainda está em vigor. A gente publicou aqui uma entrevista com a diretora.
Sem comentários »
14 de agosto de 2009
Por Fernando Carneiro
Devagar no andor com notícias alvissareiras no crescimento do mercado imobiliário aqui. Principalmente na maneira como o crédito para o mesmo é concedido. Ainda bem que nosso lado tacanho e controlador tem esse viés positivo. De dar rédea ao bicho, mas não soltá-lo de vez. Nossas hipotecas e créditos imobiliários já são securitizados. Isso dilui risco. Dá uma proteção.
Mas falsa e ilusória.
Que me perdoem os apologistas da securitização. Ela é altamente necessária por uma questão de escala, mas são derivativos. Pura e simplesmente. Se um número maior de contemplados com as hipotecas tornar-se inadimplente por uma mudança de vento econômico, o fato de elas estarem num pool, na forma de FDICs, ou o que seja, diminui o risco na aparência. A modelagem de risco parte de premissas falsas. O pool terá mais hipotecas em dia, mas quando você joga uns protozoários na água, a contaminação adiante é certa e segura, portanto não é panacéia.
Na verdade, o risco é muito maior, pois a hecatombe varre tudo ao redor. Vide a crise do subprime. Onde a hipoteca de um californiano de Stockton, depois de ser securitizada via uma obrigação colateralizada de dívida, CDO, era empacotada nas fábricas e linhas de montagem de Wall Street e vendida para bancos na Islândia, outros asiáticos e por aí vai. As “montadoras” fugiam para offshore com sua grana driblando a Regra 140, pedindo compulsório de 3% sobre o capital , pois domesticamente é de 10%. Ora, quem não vai comprar CDO??? Com os juros na lona, um papel desses, com cupom suculento, e ainda assim com colateral???
Puxa um fio do novelo e vamos ver….
Basta perguntar aos ex-empregados do Lehman Brothers como a coisa funciona. Portanto ainda bem que o nosso sistema é restritivo. Temos que conceder hipoteca e empréstimo a quem pode pagar. O dia em que eu anunciar aqui que um banco me concedeu um empréstimo para eu comprar um apartamento na Vieira Souto, e a Marli vai comprar o dela na Lagoa, raspa a poupança e vá para a Bolívia plantar coca. Pois será a hora…
Sem falar que o conluio da turma do cimento aqui com a turma que controla a rapadura é um mix indigesto para qualquer betoneira.
Portanto, cuidado.
Sem comentários »
10 de agosto de 2009

Por Fernando Barreiros
Eu acabo de descobrir que tenho grandes habilidades jornalísticas! Sexta feira, na Fundição Progresso, vai rolar show do Adam Green (ex-Moldy Peaches), de quem eu sou fã louco (no-homo)! E por acaso, uma amiga minha de três anos de internet é uma grande amiga dele (Bibbe Hansen). Claro que ela já pediu meu nome completo e o do meu pai, ou seja; eu entro num camarim no Rio por “um contato” de Nova York! Eu conheço uma mulher no Second Life que por acaso é a mãe do Beck e também é amiga de um dos meus maiores ídolos! Agora, jornalismo é basicamente isso, entrar em camarim e comer a comida de graça só porque você conhece alguém!
1 Comentário »
9 de agosto de 2009

Por Fernando Carneiro
Muito interessante a coluna Logo do “Globo” de hoje, onde o cineasta Sylvio Back fala um pouco sobre a Guerra do Contestado em Santa Catarina, e sobre seu próximo filme em relação ao tema. Realmente é triste ver que temos poucas fontes primárias sobre uma rebelião tão importante, e que seu maior expert, Todd Diacon, seja professor da Universidade do Tennessee.
Quando fiz a resenha do livro de Diacon, ele ainda era da Univesidade Duke e isso foi em outra encarnação, no “Times of the Americas” – em inglês mesmo. O mais importante a ressaltar do Contestado é que a parte política e ideário foi ficando de lado e sobressaiu o caráter milenarista da coisa. Os protagonistas chamavam-se José Maria e Adeodato, e a própria inssurreição não era nada vanguardista – algo omitido por Back. Toda a modernidade, a estrada de ferro, o tal do progresso como alguns assim o chamam, não foi bem digerido pela caboclada e por polacos. Mais uma vez, o narrador principal de uma de nossas mazelas mais importantes é de fora.
Enfim, o mais curioso é que no seu projeto, Back nos conta que recorreu a médiuns e ao espiritismo para tentar retratar e/ou pelo menos entender o que aconteceu. Resta muito pouco. Eu acho que apesar de inusitado, alguém falar sobre esse método de pesquisa num jornal de família num domingo de inverno, ele está coberto de razão. Em primeiro lugar, a curimba é nossa como a taça do mundo. Esse país tem a síndrome da perda de memória recente. No Contestado ou no Senado – onde o caldo de sururu é indigesto. Portanto eu apóio, em se faltando fonte primária, recorrer às entidades. Filantrópicas ou metafísicas.
Os gringos ficam zilionários com filmes como “O segredo” e “Quem somos nós?”. E cientistas renomados, alguns hindus e físicos quânticos para dar a pitada xamânico-matemática, falam que é tudo verdade no docudrama da vida. Sem contar que no caso dos hindus, os royalties gerados pela yoga são incomputáveis e inimputáveis. A coisa faz um bem danado. A todos. Então acho que ao usar a mediunidade e espiritualidade, estamos abrindo uma importante frente contra os pós-positivistas de plantão, seguidores de Comte, e não de Platão.
Essa nova frente telepática pode ser inserida em outros rincões de atividades econômicas, não só fazendo trabalho de reconstituição histórica, mas prevendo colheitas para o agronegócio, dentre outras mil frentes a serem abertas. Enfim, temos que institucionalizar a curimba, pois ela é nossa. Esse nome em si se refere ao conclamar das entidades pelos ogãs, que rufam as tumbadoras chamando os mesmos.
Mas sem ministério, por favor.
Bom que ela comece a ser usada para uma reconstituição histórica. Sim, vamos abrir um precedente enorme. Mas nem pensem em contestar minhas idéias. O preto velho me protege. Fale mal da curimba correndo risco próprio.
2 Comentários »
8 de agosto de 2009

Por Fernando Carneiro
A Lúcia Hippólito disse em post no “Globo Online” sobre o caso Sarney que o coronelismo está agonizando. Acho que precisamos chamar Mark Twain de volta com sua máxima. Ou seja, tem morto- vivo por aí… De todo modo, mesmo “morrendo” um coronel, há tenentes e cabos subindo no pau de sebo da hierarquia. O coronelismo portanto é inseparável de nossa fábrica social. Morre o coronel e não o coronelismo.
Dois eventos poderiam agregar muito ao debate.
Aparentemente díspares, são assuntos correlatos e muito pertinentes à sociologia do país. O primeiro tem a ver com a eterna reclamação sobre o “estado” do Estado do Rio de Janeiro. E o segundo, com o perfil de Sérgio Rosa, chefe da Previ - o maior fundo de pensão da América Latina – na revista “Piauí”. Assuntos absolutamente díspares, mas que geraram interessantes comentários de colegas de pesquisa, heterônimos, alucinações, psicografia, Chico Xavier, etc… que chegaram à mesma conclusão provocativa. Não concordo com tudo o que é dito, mas fica a visão de que tudo acaba em coronelismo. E ele jamais morrerá; agoniza como o samba, mas morre, nasce trigo, vive, morre pão. Vamos às reclamações pois, sem censura e com aspas. leia mais…
2 Comentários »
29 de julho de 2009
Por Toinho Castro
Recife tem um Marco Zero. Passei anos achando que ali havia começado a cidade. Quando descobri que era, na verdade o quilometro zero das estradas de rodagem do estado não consegui evitar uma certa decepção. Esta foi a primeira decepção, que logo foi superada justamente pela idéia de que ali começavam as estradas, de que dali podia-se partir para onde quer que fosse. Eu mesmo parti e acabei no Rio de Janeiro.

Lembro da minha mãe me levando até lá, para ver as águas do porto, águas oleosas. Para ver o molhe e uns poucos navios, enormes, atracados. Era um conjunto de pequenas praças, com árvores, uma estátua, alguns bancos e o próprio Marco Zero, uma peça aparentemente de ferro, pintada de vermelho e com as inscrições apropriadas a esse tipo de… Marco. Havia ali uma movimentação típica desse tipo de recanto, embora fosse ali, à margem do mar, aberto à dimensão do mar, era um recanto no qual residia uma certa intimidade de cidade do interior, com direito a pipoqueiro e folhas pelo chão.
Quando soube, já morando no Rio de Janeiro, que a praça do Marco Zero seria reformada, não pude conter então minha alegria, satisfação por saber que quando eu fosse ao Recife, poderia reencontrar a velha praça organizada, limpa e iluminada. Lá eu poderia reencontrar certas lembranças e um Recife bem pequeno, bem menor que a metrópole suja com mais de um milhão de habitantes. O Recife que eu trouxe comigo para o Rio de Janeiro é assim pequeno, pequenas praças, pequenas ruas no lugar de amplas avenidas.

Visitando então o Recife quis rever a praça do Marco Zero. E eis minha segunda decepção, essa irremediável. A praça havia sido destruída e substituída por uma imensa, redonda e plana aridez de cimento. A praça do Marco Zero é agora um pomposo espaço-porto colorido, coisa para ser vista do alto, como as figuras de Nazca, só que feio. Mas soube que agora, no entanto, é palco de grandes acontecimentos da cidade, grandes shows, porque o que importa é a hipérbole.
Bem sei que essa é uma polêmica antiga no Recife, junto com o monumento de Francisco Brennand que se postou entre a cidade e o mar e que não merece comentário. É que hoje pensei na antiga praça do Marco Zero e na insolação que impuseram no seu lugar para caber as multidões. Procurei por fotos na internet e mal encontrei três, com resolução e tamanho clássicos das coisas esquecidas. Quem quiser pode chamar de nostalgia, mas porque diabos não se pode ter nostalgia, quando aquela praça era uma lugar tão aprazível? Hoje as estradas de Pernambuco começam num vazio tremendo.
Sem comentários »
8 de julho de 2009

Por Fernando Carneiro
A Moody’s está pensando em aumentar o “rating” de crédito do país para grau de investimento, assim como a S&P e a Fitch já o fizeram antes. As agências de ratings foram e continuam sendo execradas urbe et orbi por não terem previsto a xoxola financeira em que nos metemos. A Moody’s é a única que ainda não deu seu imprimatur e nihil obstat. Foi-se o FMI, mas vem aí uma galera falar com os homens no Planalto para dar uma olhada nos livros.
Em vez de Fora FMI, vão criar o Fora Moody’s – pelo andar da carruagem.
Nos píncaros da febre internética bem nos final dos Anos 90 (cuja debacle aliás as agências de raings não previram) havia um serviço que analisava debêntures conversíveis muito bom e criterioso. Indicava ao investidor se aquele investimento nas debêntures conversíveis em ações era bom negócio. Era um site e chamava-se ConvertBond.com. O pessoal que vendia esses papéis na Morgan Stanley começou a ficar pê da vida porque quando esse site, respeitado – friso novamente – sentava a chinelada em algum papel, eles não conseguiam desovar o presunto.
O que fez o Morgan Stanley? Comprou o site e tirou ele da tomada. Acabou com aquela inconveniência.
Ora, hoje em dia temos fundos soberanos. Não seria uma boa idéia comprar essas agências de ratings? Basta fazer uma oferta, são empresas fechadas, e simplesmente tirar elas da tomada. Aí não tem essa história de grau de investimento. A gente decide quando a gente vai ser grau de investimento.
Seria um choque de ordem no sistema de aferição de crédito corporativo e soberano. Perderíamos os parâmetros de vez, seria uma loucura. Irado….
Passa a idéia pro Ipea, aposto que vão gostar. Eu não tenho nada que ver com isso. Só ofereço alternativas – com duplo sentido, sempre, por favor…
Sem comentários »
3 de julho de 2009
Por Fernando Carneiro
A celeuma sobre o que FHC disse em relação a Lula e a inflação, que deixariam ela com mais folga no ano eleitoreiro – mas que deveriam fixar o teto em 4%, é fruto apenas de mais um nó tático que o venerando e admirável sociólogo levou do torneiro mecânico.
O insuspeitíssimo Banco Central projeta uma inflação de 3.9% com a Selic a 9.25% ao ano. Ou seja, o Bacen pode – e vai – sentar ainda mais a marreta na Selic. Mais do que se espera. E ainda assim podemos ter uma inflação que deixaria tanto Lula como FHC contentes. Lula faz o que qualquer um faria. Dar folga na margem. Apertar seria até leviano pois caso o país saia da meta, a desordem com os agentes financeiros seria maior.
Com a palavra, o “Valor” de ontem e meu menestrel favorito, Cristiano Romero: “A crença de amplos setores do governo num cenário mais favorável à redução dos juros já existia antes do Relatório de Inflação, divulgado sexta-feira passada. Com o relatório, redobrou-se a aposta numa queda da Selic superior à sinalizada na última ata do Copom - que indicava cortes residuais, totalizando corte até o fim do ano de 0,25 a 0,50 ponto percentual, o que levaria os juros, na melhor hipótese, a 8,75% ao ano. O BC pode surpreender o mercado novamente - disse alta fonte ao “Valor’.
E vai mesmo. Pode apostar o cavalo.
A meta de 4.5% foi fixada pelo CMN pelo sétimo ano seguido, ou seja não estamos falando de nenhuma aberração.
Engraçado como a oposição atual consegue ser tão pobre (de idéias) e analfabeta. Tem algo de errado nisso. Achei que deveria ser o contrário. Mas não é. Ou seja, Lula terá margem técnica para cortar talvez até mais um ponto percentual na Selic, em ano eleitoral, e ficar dentro da margem. Alguém aí está comendo mosca. Ou então é melhor ficar calado quando não temos nada a acrescentar.
Sem comentários »
30 de junho de 2009
Por Fernando Carneiro

Fala Serginho,
Ora, no país do “Homem Cordial” de Sergio Buarque de Holanda, e de seu companheiro de legenda (Seu. Não do seu homônimo, Pai de Francisco), Ribamar do Maranhão, eu pelo menos tenho o direito de te chamar assim, né seu vascaíno sacana? Claro que foi o Ribamar do Maranhão que falou, ao discursar uma vez no Congresso americano, sobre a tal da “liturgia do cargo”, que nos faz separar a pessoa do personagem e tratar os dignitários no genuflexo. Eu vi aliás o Presidente do Senado discursando no Congressso Americano, lá do alto da galeria, convidado especial de Jimmy Malloy, que tinha um cargo curioso. “Doorkeeper of the House” seria o honorífico de “porteiro da casa”, mas tratava-se apenas do diminuto irlandês que bradava a entrada do presidente ou de outros ilustres que adentravam o parlatório. Isso tudo para dizer que eu devia te chamar de senhor governador, apesar de não te ver há tempos. Mas não faria isso nem fornicando. Aliás… Bem, deixa prá lá. Só ajoelho em locais sagrados, na hora de rezar. Somente para coisas metafísicas ou para a hora do lanche. Fora isso, tou fora.
Isso não importa. Temos amigos em comum e você sempre foi carinhoso e pergunta por mim. Eu estive fora muito tempo como você sabe. Continuo por fora (como você pode constatar), numa órbita pessoal e intransferível e, a essa altura, eu vou morrer assim. Curiosamente, estava no país que mantinha oligarquias que promoviam desigualdades como a nossa. Mas lá mesmo se pratica uma coisa mais igualitária. Gozado. Não tem genuflexo a não ser na hora de rezar. Nem monarquia ou pseudo-aristocracia. Tem ignorantes, como aqui, essa coisa que Nélson Rodrigues invejava por ser das únicas que se sabia ser eterna.
Bom meu caro, um dia a gente se vê e bota o papo em dia, aquele que começou lá na sétima série. Nunca mais te procurei pois você tem mais o que fazer e está ocupado e eu também. Não quero pedir nada e nada tenho a oferecer. A não ser a boa conversa afável, com boas risadas, fazendo troça de outrem, como manda o figurino. Obrigado por apartar algumas de minhas brigas, eu ia quebrando o meu pulso na marginália infanto-juvenil. Você foi pra vida do parlatório. Eu preferi ficar mudo. Parabéns aí pelo sucesso. Mas queria escrever essa nota rápida pra dizer que, por questões profissionais, fiquei em recinto fechado com estrangeiros, ainda mais em São Paulo. Por precaução, depois de dias sem melhora de febre e gripe, fui numa de suas UPAs verificar se estava com a peste suína. Não sei se foi sua criação. A UPA. Ou da sua criatura que é pretérito mais que prefeito. Mas não vou dar a César o que não é de César. Nem fornicando. (continua aqui)
leia mais…
1 Comentário »
24 de junho de 2009

Por Terêncio Porto
Testemunhei outro dia uma cena espetacular, uma dessas cenas maravilhosas do nosso cotidiano absurdo, uma dessas imagens que trazem em si uma resposta dos tempos. É incrível. Não tinha uma máquina digital à mão, mas foi tudo tão rápido que, mesmo que a tivesse, não flagraria a tal cena. Todavia, graças a um bom deus, tinha meus olhos, e minha memória, e agora posso contar o que vi, e o que senti. E a reação hipotética que não tive. Estava dirigindo, infelizmente, porque cada vez me parece mais caro dirigir. Ia sozinho pelas avenidas do bairro-eldorado aqui do Rio, a fajuta pseudo-Miami City que criamos, longe do centro, longe do velho, do sujo, do decadente. (E o irônico, como veremos, é que todos esses atributos do arcaísmo vigente já estão incutidos lá, não há antídoto, só fuga donde o rabo vai atrás…)
À minha frente vinha um carro com o adesivo evangélico clássico “Propriedade exclusiva de Jesus”, ou talvez “Jesus é Fiel”, ou algo que o valha, disso não lembro exatamente. No canto esquerdo da pista, que não tinha acostamento, ou seja, na sarjeta, de pé, uns 3 moleques de rua brincavam, um deles se insinuando pra cima dos carros, como se fosse se atirar neles, ameaçando interromper o fluxo, a máquina do vai e vem. Isso numa avenida onde essas maravilhosas e seguras cápsulas de metal são permitidas trafegar a 80 quilômetros por hora. Eis por fim a tal cena: o crente do carro com o adesivo de Jesus coloca a mão pra fora, faz aquela famosa forma de revólver ou pistola, tão comum às crianças, simulando uma arma com a mão, e dá alguns tiros virtuais nos moleques de rua. O gesto de meter bala, sentar o dedo. Tão simples quanto isso, uma fração de segundo, como quem diz “vocês merecem morrer, escória. Se eu pudesse, matava vocês”. E a maravilhosa reação mental que eu tive, mas não executei – pra não comprometer a integridade física, talvez a razão pela qual não reagimos a nada, e não nos comprometamos com merda alguma, mantendo tudo como está… -, foi a de emparelhar com o babaca, botar a cabeça pra fora e gritar “Qual foi, meu irmão, Jesus tá querendo matar criancinha agora?”
Vá lá que não eram criancinhas, mas moleques de uns 15 anos. Muito mais ameaçador pra um evangélico fascista, mas ainda sim me pareciam mais crianças que bandidos. Eu vejo dessa forma, acho que eles precisam de algum tipo de atenção que ninguém está disposto a dar, e não de bala. No entanto, parece que vem um na ausência do outro. O detestável cristão seguiu seu rumo, com sua detestável esposa, pregando a morte pelas ruas, e os moleques ali permaneceram, brincando de morte, com todos os bons motivos pra continuarem na rua, inclusive pelo ódio dos irmãos.
1 Comentário »
22 de junho de 2009

Por Freddie Seashore
Minha primeira vez no Recife… Bem, repetindo… Minha primeira vez VISITANDO A CIDADE DO RECIFE, foi direto no Mamelungo e Mamulengo perto da Bom Jesus, ou Judeus, dá no mesmo literal e metaforicamente, com boneco por tudo que é lado. Ambiente bom com pagode desfiando de Roberto Ribeiro a João Nogueira. Tocado com trombone de vara e mini-maceta de surdo arrancando som do tamborim. A bossa do tantã era de afoxé, meio Beija-Flor, duas colcheias no contratempo. Isse, tanta incongruência boa. Bahia e Rio aqui? Tudo como deve ser porque não é como é, ou deve ser, entende? Mas toca de chover e vou no Pátio (de) São Pedro, alguma quermesse sendo organizada. Não quero comer cartola, maltado, grude, tapioca, nem o feijão que sempre é fradinho. Já comi tudo isso. Vocês tem medo de pimenta? E o café tem que melhorar. Quero o Memorial Chico Science com DJ Onda Buena. Ora, mas isso é de cinco as sete, com um cartesianismo holandês de “clockwork orange” visse. Entro e a mamelunga é uma bo-nenequinha simpática. Me mostra o Memorial no sobrado. Bonito. Os horários são para museólogos no batente Bartleby. A Hora Feliz ali com DJ era concessão. Ora, argumentei, prefiro que você deixe a espelunca aberta até de manhã, pegue uma mesa de som maior e vamos estourar a cúpula e o sino de São Pedro…. Da Lama ao Caos e visse… Versa, verseja minha trovadora. Ah, não dá pedal. Tá certo. Olha então a mostra multimídia tá muito boa. Cheio de monitor legal. Deixa eu colocar uma revista online chamada Zé Pereira, ela é meio Rio, meio Recife. Mas que coisa boa, adorei o dezaini (sic). Eu também - sorriso alvo. Olha a flecha, cuidado. Vou deixar essa revista no terminal pra quem entrar. Ah volta mais pra trás, isso, aí. Viu? Monte de matéria de Pernambuco na imensidão. (continua aqui)
leia mais…
Sem comentários »
29 de abril de 2009
Por Toinho Castro

telefonema urgente do líder dos patos para o líder dos porcos:
— que história é essa agora de gripe suína?!
— vocês fracassaram, pato… tiveram sua vez e fracassaram.
silêncio do outro lado da linha.
— tínhamos uma estratégia a longo prazo! todos sabem disso.
— um prazo longo demais, pato. precisamos de resultados… precisamos nos livrar deles o mais rápido possível.
— eles vão achar que estamos divididos. você está se precipitando, porco! não podia ter iniciado um ataque sem consultar o conselho revolucionário!
— eu sou o conselho revolucionário, pato! estamos assumindo o comando.
silêncio do outro lado da linha.
— milhares de aves sacrificaram suas vidas para transmitir a gripe aviária! meses de pesquisa e agora você joga tudo no lixo!
— para que isso não seja em vão, nós assumimos. e não adianta mais cacarejar no meu ouvido. o vírus está na rua. temos o controle.
— eu não cacarejo, não sou uma galinha.
— pato, galinha, tico-tico… tanto faz, vocês falharam! não parece, mas estamos do mesmo lado das trincheiras. no fim disso tudo vamos sentar juntos, celebrar e homenagear os nossos mortos.
— sinto cheiro de golpe, porco.
— por isso você é um pato.
— poderíamos ter ajudado, cedido nossas pesquisas, informações valiosas…
— invadimos o laboratório do núcleo revolucionário na fazenda do seu valdir. sabemos de tudo, pato. não há novidade que você possa nos contar dessas pesquisas.
— você enlouqueceu, porco… você foi longe demais. quem mais apoiou essa decisão?
— a decisão está tomada e o destino está em curso…
o porco desliga o telefone:
— patos… humpf. quem teve essa idéia idiota?
7 Comentários »
23 de abril de 2009

A Justiça dessa vez trabalhou direitinho e deu o seu aval para a realização da Marcha da Maconha no Rio, dia 9 de maio. Iniciando as conversas sobre o tema, vai rolar hoje, a partir das 20h, um debate no Circo Voador com as participações do músico Marcelo Yuka, do delegado da polícia civil e autor do livro “Acionistas do nada” Orlando Zacone, do jornalista do blog Sobredrogas Rodrigo Pinto, do estudante de Ciências Sociais, pesquisador e representante da UNE no Conselho Nacional de Drogas Sérgio Vidal, e do cientista social Renato Cinco. O papo vai ser transmitido pelo site do Circo e, além dele, vão haver outras atividades, como a exibição do filme “Waiting to Inhale” e de um documentário sobre a repressão à marcha no ano passado, além de DJs e participação especial da Orquestra Vegetal, a partir das 16h, com entrada franca.
Sem comentários »
17 de abril de 2009

Por Gustavo Acioli
Eu já senti uma tristeza profunda por ter que sair da cama para ir trabalhar em um lugar que eu detestava.
Eu já senti uma tristeza profunda por ter que ir pra cama pra acordar no dia seguinte e ir trabalhar em um lugar que eu detestava.
Eu já viajei sozinho e tive uma vontade louca de nunca mais voltar pra casa.
Eu já passei dias e meses e anos pensando apenas no dia em que eu teria coragem de largar tudo e mudar de vida.
Eu já parei pra pensar e vi que tinha todos os motivos do mundo pra ser feliz, mas isso não aplacou a minha tristeza.
Eu já parei pra pensar e cheguei à conclusão de que eu precisava de ajuda, mas continuei calado, fazendo tudo como sempre fiz.
Eu já me olhei no espelho e tive a certeza de que estava diante do meu maior inimigo.
Eu já me olhei no espelho e tive a certeza de que estava diante da única pessoa capaz de me entender.
Eu me considero normal.
Eu entendo o Adriano.
5 Comentários »
15 de abril de 2009

Por Adhemar S. Mineiro*
A recente reunião do G-20 em Londres, entre várias de suas medidas aprovadas, resolveu “turbinar” o velho Fundo Monetário Internacional (FMI) com algumas centenas de bilhões de dólares para que este possa ampliar as suas operações em tempos de crise econômica (a orientação do comunicado do G-20 seria de triplicar os recursos disponíveis para as operações do FMI, passando estes de US$ 250 bilhões para US$ 750 bilhões).
Apesar de o México aparecer em todas as avaliações como o provável primeiro candidato a se beneficiar da nova capacidade financeira do FMI, esse novo e volumoso aporte de recursos para a sexagenária instituição representa uma evidente conquista da diplomacia econômico-financeira europeia na reunião. Isso por pelo menos dois motivos, entre outros que podem ser levantados. O primeiro deles, talvez menos relevante, é o fato de que na divisão de comando sobre as instituições criadas em Bretton Woods cabe aos europeus o cargo de Diretor Gerente do FMI, enquanto cabe aos estadunidenses a Presidência do Banco Mundial. A outra, de suma importância, diz respeito ao fato de que os pacotes financeiros de socorro recentemente deslanchados pelo mundo tem combinado basicamente dois instrumentos para sua operacionalização, um banco central e um tesouro nacional, além de uma institucionalidade nacional para sua definição e aplicação – um Estado Nacional. No caso dos países da União Europeia, essa institucionalidade até existe parcialmente, nas instituições de Bruxelas, mas está ainda em construção e, mais grave, existe um enorme debate sobre o chamado “déficit democrático” das instituições da União Européia, o que coloca em questão a sua legitimidade, o que não é pouco importante neste momento de crise. Além disso, os países da União Europeia constituíram um Banco Central Europeu (e muitos deles aderiram até a uma moeda única, o euro) mas não dispõe de um relevante orçamento comum (o orçamento comunitário é apenas institucional e administrativo), e o importante aqui são os diversos orçamentos nacionais, aí existindo um evidente problema de calçar medidas de salvamento supranacionais em orçamentos definidos e administrados nacionalmente. A Alemanha, tradicional caixa de última instância nesses casos de busca de recursos orçamentários, evidentemente se assustou com a perspectiva de ter de socorrer de uma só vez, e além do seu próprio sistema financeiro e economia em crise, uma crise que na Europa atingiu mais fortemente a chamada “periferia” europeia, com gravidade na Islândia, Irlanda, países bálticos, países do Leste Europeu, Grécia, Portugal e Espanha.
Assim, o reforço de caixa do Fundo permite agora aos europeus remeterem os países mais afetados pela crise naquele continente para a vetusta instituição, com a vantagem para os principais países da União Europeia que o FMI exigirá a restrição fiscal tão a seu gosto. Ou seja, caberá de certa forma ao FMI fazer o papel duro que os principais países da Europa não têm hoje a condição de cumprir (a maior parte está passando os limites definidos por acordos em Maastricht quanto a possibilidade de déficit público), e portanto menos ainda de cobrar dos outros, mas que ao mesmo tempo não se cansam de teoricamente defender. (continua aqui)
leia mais…
Sem comentários »