13 de março de 2010

Por Fernando Barreiros
Fui ao estacionamento para fumar. Ainda fazia calor mesmo à noite, fazia você querer andar pelado. Uma música brega anos 90 tocava no bar ao lado, podendo estragar qualquer vontade de ter ouvidos. Resolvi voltar para dentro do prédio, com ar condicionado e um sentimento de distância infinita com o resto do mundo. Andando para minha sala, meus conhecidos me comprimentavam e grande parte deles só fingia que me achava um sujeito legal. leia mais…
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6 de março de 2010

Por Fernando Barreiros
Jarbas pegou o cacho de uvas e começou seu discurso ligeiramente esquizofrênico:
- Nós comemos filhotes.
- Filhotecídio? Do que você tá falando? - Perguntou Jonas, ainda olhando fixamente para o teto.
Botou o cacho na cara de Jonas, apontando para aquele amontoado de uvas, e disse “Fruto, filhote. A uva é filhote do cacho…” Ambos encararam o cacho, porém, Jarbas o encarou como um motoqueiro bêbado querendo arrumar briga, os olhos arregalados e sem senso de direção, talvez? leia mais…
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20 de fevereiro de 2010

Por Fernando Barreiros
Saí do apartamento para as ruas desertas dessa cidade maldita tentando achar um táxi. Desde peitos à maçanetas, tudo que tocava naquela noite ficava manchado de sangue. Havia machucado minha mão e não lembrava como, achei sensato ir embora antes de alguém me dizer que machuquei-a socando a mãe de alguém ou algo grotesco assim.
A borda do canteiro de plantas que estava perto avermelhave-se conforme eu esperava o táxi. Alguns movimentos bruscos fizeram com que as plantas também pingassem sangue. A noite estava terrivelmente clara graças as luzes exageradas da cidade. Ao longo da rua, o que parecia ser um táxi brincava de Nascar em minha direção, bom, pilotos de Nascar são bons motoristas e vou chegar rápido em casa, ótimo. Fiz a saudação nazista para chamá-lo e, para conseguir parar na minha frente, teve de deixar marcas no asfalto ao freiar. Como se num filme de terror vagabundo, a porta abriu-se sozinha, e, como uma puta, me convidou para dentro. leia mais…
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13 de fevereiro de 2010

Por Fernando Barreiros
Agora, com o sapato em minha mão ensaguentado de culpa e um pavor tremendo que me consumia, precisava pensar no que fazer, em como me livrar de toda aquela merda. O tempo corria como o sangue em minhas veias e só podia sentir a decomposição chegando com aquele cheiro. Esfreguei a sola do sapato na cortina branca, deixando um largo rastro de sangue. Acabar com a vida de alguém com um sapato é mais divertido do que eu pensava.
“O que fazer com os corpos?” Essa foi a grande pergunta. Meus músculos estavam moles e sentar no sofá foi a decisão mais rápida que pude tomar. Meu corpo afundou como uma pedra. Fui tirar o cigarro que estava em minha boca e prendeu na secura de meu lábio, fazendo com que queimasse meus dedos. leia mais…
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6 de fevereiro de 2010

Por Fernando Barreiros
Com duas garrafas de vinho nas mãos, a cara suada e um sorriso escrachado, esperava a fila do supermercado acabar. Decidi que para comemorar a vida, ou simplesmente beber mais, compraria duas garrafas “decentes”. Saí do mercado e fui tropeçando, esbarrando e xingando até chegar em casa. A sombra virara uma raridade naquelas ruas quentes de verão. Eu me sentia a maior aberração de todas e não sabia porque, sob a influência de psicotrópicos ou não, os malditos “transeuntes” me encaravam. “Você está vendo? Aquele garoto está drogado! Aposto que andou injetando, olha como ri, olha os olhos vermelhos!” Obviamente, ri com meus olhos vermelhos e meio fechados demonstrando que as duas velhas que passavam estavam certas quanto ao meu atual estado.
Minha casa derretia e meus pés descalços queimavam. A voz de garotas rock’n'roll nos anos 60 estourava minhas caixas de som quando o telefone tocou. Atender telefone é uma das piores tarefas de um ser humano sensato. Você nunca sabe quem pode ser, pode tanto ser algum amigo quanto um viciado quanto alguma ex, ou seja, atender telefone nunca foi um prazer. leia mais…
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30 de janeiro de 2010

Por Fernando Barreiros
O tempo estava acabando assim como minhas chances de continuar com o emprego. Dormir deixou de ser uma necessidade e virou apenas uma opção pouco escolhida. Como em “Clube da Luta”, a falta de sono realmente causa pequenas alucinações e te arranca da realidade. Destemido, andei até o espelho do banheiro e pratiquei minha imitação de Tony Montana: “Show me you got cojones, maricón”, “Meet my little friend!” Bom, na verdade, estava apenas tentando imitar um mexicano puto da vida. “Tenho de parar de tentar se um mexicano puto da vida e voltar ao trabalho”, pensei. Sentei na cadeira e derreti de sono. As letras se embaralhavam assim como meus pensamentos, que obviamente ainda estavam focados em xingamentos em espanglês. leia mais…
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23 de janeiro de 2010

Por Fernando Barreiros
Mais uma vez, botei a mão em minha nuca e subi um pouco. Pude sentir tudo, sua boca, seus lábios carnudos, seu nariz, toda a sua imperfeição caótica e bela. Aquele rosto me atormentava e me apaixonava. Ela afirmava ser minha perdição e eu nunca poderia me separar. Porque iria querer me separar de um ser tão belo quanto ela? Ou porque não iria querer me separar de um rosto na parte de trás da minha cabeça que faz de mim o novo homem elefante? Eu havia tentado de tudo para matá-la, mas não conseguia. A cada tentativa frustrada, ela apenas sorria e dizia o quanto me amava. Horas de minha vida foram desperdiçadas tentando ver seu rosto. Nunca pude vê-lo, apenas tocá-lo. Andar na rua virou um tormento, todos me olhavam como se estivesse em um show de aberrações. leia mais…
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16 de janeiro de 2010

Por Fernando Barreiros
O sol queimava minha cara e esquentava minha mesa, deixando o quarto cada vez menos agradável de estar. O céu estava limpo e azul como não ficava em muito tempo, quase dava vontade de sair de casa. Olhar para o céu azul e limpo sempre me causou certo mal estar. Pensar que a maioria das pessoas praticamente comemora só pelo céu azul sempre me enojou. Suando que nem um porco e com a garganta implorando por uma bebida alcoólica e gelada, saí de meu apartamento para comprar cerveja. Andei até a porta da frente e assim que a abri senti que havia alguma coisa errada. A realidade ficava cada vez menos densa à medida que me afastava de casa. A idéia de o chão ruir debaixo de meus pés ou de um trem passar na minha frente, mesmo no corredor, não pareciam mais tão absurdas.
Tudo começou a ficar embaçado e não era a minha visão. Ainda no corredor, olhei para trás e vi que minha porta não estava embaçada como todo o resto, ela estava normal, estava real, densa. Encarei-a por alguns segundos e segui meu caminho. Nos últimos degraus para o primeiro andar, sentia que estava pisando em terra. Cheguei ao primeiro andar, ele estava tomado por plantas que saíam de frestas e que se alastravam pelas paredes. Conferi meu bolso para ver se não havia esquecido o dinheiro e saí. leia mais…
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9 de janeiro de 2010

Por Fernando Barreiros
Vou até a cozinha pegar o abridor de garrafa. Abro a gaveta, facas para qualquer tipo de carne, talvez até humana. “Não, não está aqui.” Abro a gaveta de baixo e só encontro um ralador de queijo e um martelo de carne. O calor acabou e hoje, nesta noite, o frio tomou conta. O frio, o vento e a chuva. Abro a garrafa e levo para a sala. O vinho não é realmente bom, mas é decente comparado ao que eu bebia. Sento no sofá e dou a primeira tragada no cigarro e o primeiro gole.
A campainha toca educadamente. “Não estou esperando ninguém.” Dou mais um gole e vou atender. Olho pelo olho mágico e vejo a imagem distorcida de Dario, uma gorda e outra garota com uma cara meio de travesti tailandês. Espero que não seja um travesti tailandês. - Qual é a senha? - Pergunto. Ele levanta uma garrafa de vinho com um baseado entres os dedos. A senha está certa, tenho que deixá-lo entrar. leia mais…
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2 de janeiro de 2010

Por Fernando Barreiros
O quarto estava todo fechado, não podia saber se estava dia ou noite. A luz que entrava pelas frestas podiam tanto ser do sol quanto da casa ao lado. Não estava calor, mas eu suava como se estivesse no sol. Rebecca finalmente estava morta e eu estava tranquilo, sentia uma calma incomparável. Penso nela desesperada quando soube que iria morrer.
Eu a conhecia melhor que ninguém, sabia de suas neuroses, paranóias, loucuras e esquizofrenices, afinal, eram as mesmas que as minhas. Não só o fato de tê-la envenenado que me faz feliz, mas como ela deve ter ficado antes de morrer. Espero que tenha gritado, arranhado a janela, qualquer coisa. Queria que Rebecca sofresse, não fisicamente, nunca poderia machucá-la assim, eu sabia que o fato de ter algumas horas de vida iria fazê-la enlouquecer mais do que já era. Me impressiona ela não ter ligado para a polícia ou coisa assim, ela sabia que iria morrer. Quem sabe ela também não achou que merecia? leia mais…
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26 de dezembro de 2009

Por Fernando Barreiros
Estava tentando escrever há horas, mas só consegui não mais que dois parágrafos que realmente faziam sentido, o resto era apenas um amontoado de idéias inconclusivas. Páginas e mais páginas de idéias sem fim, sem começo ou sem meio. Eu podia viver no meu próprio mundo, mas isso não fazia o relógio parar de contar as horas. A idéia de escrever bebendo foi descartada, sempre acabava dormindo no meio ou escrevendo finais imbecis.
Diferente do resto das noites, esta estava silenciosa, sem barulho de carros ou bêbados gritando na rua. Fazia tempo que não tinha uma noite assim. Os bêbados deviam estar caídos e os viciados tendo uma overdose em algum lugar aonde ambulâncias não chegam. “Não vá ter uma overdose no meu tapete.” Já tive de dizer isso muitas vezes para convidados indesejáveis, uma vez não respeitaram e troquei o maldito tapete verde cheio de baba por um vermelho sangue, combinava mais.
Nunca recebi visitas agradáveis depois de duas horas da manhã, entre viciados e conhecidos chatos, minha ex namorada satanista dava o ar de sua graça embaixo da minha varanda para me xingar ou chorar perguntando se eu estava bem. Aquela louca maldita, ela sim poderia ter uma overdose ou simplesmente ser atropelada por uma jamanta.
O relógio marcava quatro e quarenta e seis da manhã, mas meus relógios estão sempre adiantados, então me atraso menos para compromissos. Apesar da calma da madrugada, eu não conseguia me concentrar, estava com apenas um lápis em casa e não poderia quebrá-lo de jeito nenhum. Quando encostei o lápis no papel, alguém resolveu bater na minha porta. Tentei ignorar de todas as maneiras para ver se o visitante iria embora logo, mas essa idéia só se revelava cada vez mais inútil a cada minuto que se passava e a batida continuava. Não parecia ser um homem batendo, era uma batida um tanto quanto feminina, se é que é possível definir o sexo de alguém por sua batida na porta. Resolvi atender, afinal, quem sou eu para não atender a porta para uma mulher de madrugada? leia mais…
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19 de dezembro de 2009

Por Fernando Barreiros
Levantávamos uma nuvem de poeira atrás de nós. O motor rugia a cento e vinte quilômetros por hora, um Maverick V8. A paisagem não mudava há horas, apenas dunas e mais dunas de areia. De vez em quando um carro nos xingava pela velocidade, mas nós apenas atirávamos latas vazias e baganas. O sol se punha atrás de nós e queimava nossas nucas, mas nos avisava de que a casa não devia estar longe.
Dirigimos até a noite cair, a temperatura esfriou e nada se podia ouvir além do motor do carro. Um posto de gasolina chamou a nossa atenção, precisávamos reabastecer e comer. Enfiamos dois sanduíches pela goela e voltamos para a estrada.
- Acho que devemos estar chegando. - Molly sempre foi expert em bocejar e falar ao mesmo tempo.
- Sim, ele falou que em menos de seis horas nós chegaríamos. - Não estava cronometrando, mas ainda podia sentir o tempo passar. leia mais…
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12 de dezembro de 2009

Por Fernando Barreiros
“Rebecca, espero que você entenda o porquê de eu ter feito isso com você. Eu te amo e eu te odeio. Eu odeio você mais que tudo. Você assombra minhas noites com a lembrança de seu ronrono. Pela primeira vez eu estou sendo mau de verdade. Sempre te lembrei de como eu sempre posso ser pior e você nunca acreditou, espero que acredite agora. O pó que você comprou de mim - que por acaso foi seu único motivo para me encontrar - estava envenenado. Eu amo você e só lhe peço uma coisa: chegue em casa e durma, não sou mau à ponto de querer que você sofra. Me desculpe, Rebecca, me desculpe.” leia mais…
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5 de dezembro de 2009

Por Fernando Barreiros
Charles Manson dizia que o apocalipse aconteceria por causa de uma grande guerra de etnias entre negros e brancos. Bom, o apocalipse vai acontecer por causa de uma guerra, não entre negros e brancos ou pessoas que usam cartola e pessoas que preferem um chapéu coco. A guerra será entre os fumantes e os não-fumantes. Entre aqueles que têm medo de asma por fumaça alheia e aqueles que a menor preocupação é a asma.
Cada vez mais o povo fumante sofre com o preconceito da sociedade. Estamos virando párias. Os ônibus, cinemas, restaurantes, bares e até tabacarias não nos aceitam mais. Nem nas ruas podemos fugir do preconceito. Podemos ser iguais por fora, mas por dentro nós somos diferentes, especialmente no pulmão. Nós os fumantes somos humanos também. Gozamos, arrotamos e principalmente tossimos que nem qualquer outro ser humano, é normal tossir sangue, certo? leia mais…
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28 de novembro de 2009

Por Fernando Barreiros
A noite de quarta feira chegou mais cedo. Por nenhum motivo, todos os bons bares resolveram fechar. O único lugar que vendia bebida era um bar metido à bacana com roda de samba da zona sul. A música era tão merda quanto as pessoas que estavam lá. O samba iria durar até de madrugada, mas não havia outro lugar.
Liguei para Rebecca e disse para irmos beber. E beber no lugar mais deprimente do mundo nós fomos. Contrariando o repórter do tempo, à noite fazia frio. Não um frio agradável, mas um frio gelado que cerra seus dentes e congela seus dedos. Finalmente recebi a grana de um trabalho antigo e decidi que beberia como um cavalo, não, como um cavalo condenado. Ela disse para ir até a casa dela e de lá irmos beber. Botei minha jaqueta, meu chapéu e fui buscá-la. Rebbeca já estava fumando encostada na parede do prédio quando cheguei. O bar não ficava muito longe, mas no caminho passaram sete viciados em crack para pedir cigarro e eu conhecia seis deles. O bar era arrumado, com banheiro limpo e garçonetes simpáticas, realmente, é o tipo de bar de samba de raíz zona sul.
- Hey, pelo menos podemos ficar do lado de fora, baby.
- Tá frio, mas é melhor do que essa música. leia mais…
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