30 de junho de 2010

Por João Moraes
Em minha longa jornada Copa adentro vou convivendo com duas restrições que não imaginava ter que atravessar. Esperava uma copa com futebol mais gordo, exuberante e a TV só emite jogos anorexos de técnica e emoção. Os campos pequenos, a força física e o obsessivo Si bemol das vuvuzelas são cenário, narrativa e trilha sonora dessa magra cinematografia. E eu, um gordo convicto que há muito vem acumulando adiposidades e um gosto cada vez mais refinado por gorduras e proteínas, harmonizadas com nobres cachaças e outros alteradores líquidos de boa índole, acabei por ter que fazer a tal cirurgia bariátrica para restrição alimentar.
Canecas de sopa e água de coco são meus companheiros durante a mesmice das coberturas da copa, só esquentada pelas grosserias inexplicáveis do Dunga e das maradonadas patéticas do hermano despescoçado. O spa de gols na tela da TV vai se tornando uma irritante anfetamina daquelas que enchem as cápsulas bicolores dos chamados remédios manipulados para emagrecer. Eu sei, ao longo de minha vida já tomei muitas dessas na tentativa de perder peso, mas no correr dos dias o que perdemos é a calma e em seu lugar nos enche um ódio profundo por tudo que nos chegue perto. leia mais…
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11 de junho de 2010

Por João Moraes
Já ouvi de tudo sobre o Dunga e sua seleção de médios. Há os que colocam a mão no peito e dizem que agora só nos resta torcer com fervor; aqueles que insistem na viuvez de Gansos e dancinhas esquisitas; os que vão torcer pela Argentina em forma de protesto e os que vão torcer pela Holanda em forma de protesto crível. Tudo em nome do bom futebol, contra a sargentalização do Dunga e seu time de soldados patriotas. Eu tenho um problema sério: sou neto de Orlando sapateiro, um dos fundadores, em 1916, do Estrela do Norte futebol Clube; sou filho de seu Otto contador, homem tranquilo que, ao nascer de cada um de seus quatro filhos, bradava aos cinco ventos cachoeirenses “nasce mais um flamenguista no Brasil”. E mais ainda; aos 7 anos, em 1970, me vi assistindo Brasil e Tchecoslováquia, sem que houvesse um adulto conduzindo a televisão e me encantei pela amarelinha e sobretudo por Tostão. Nunca joguei bola, exceto talvez até os 8 anos no quintal de flores de minha mãe, campo não abençoado para o esporte, e depois na faculdade em uma ou outra pelada quando costumava tropeçar nas linhas desenhadas na quadra de cimento. É, mas torcedor sempre fui dos bons: efusivo, confiante, incansável, transtornado. leia mais…
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4 de junho de 2010

Por João Moraes
Sim, comer é uma arte! Mas qual arte? Lembro bem da expressão “menino arteiro” para apontar crianças brincalhonas e bagunceiras. Pois penso que é dessa arte que a comida deva se construir; e aí prefiro dizer: sim, comer é uma brincadeira!
A comida pode ser um jogo planejado que começa numa feira colorida e perfumada onde senhoras enérgicas e homens litúrgicos, além de outros incautos, brandem o frenesi de alfaces americanas e contestam o frescor de tomates e peixes; escarafunchando suas guelras, afirmando tonalidades inconfiáveis do vermelho profundo sob o prata absoluto.
E pode ser também uma diversão fugaz de quem chega em casa às três da matina e resolve que arroz gelado com maionese de saquinho e alcaparras dará um glorioso pasto, principalmente se harmonizado com leite e groselha devidamente misturados em vigorosos giros de uma colher de sopa. leia mais…
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28 de maio de 2010

Por João Moraes
Aquele homem sabe muito mais que eu. Ele escreveu diariamente por 60 anos. Ensinou belezas que só olhos quietos podem ver e corações pacificados sentir. Num mundo de angustias e melancolias, caminhou na velocidade dos córregos, por várzeas apinhadas de coleiros e tizis; vez por outra chacoalhadas por casais de lontras ou solitários frangos d’água. leia mais…
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21 de maio de 2010

Por João Moraes
Não beba demais; come só um pouquinho; meu bem, você está trabalhando muito; você não acha que dorme além do necessário? – E ainda o clássico “água demais mata a planta”. E por aí vão as intermináveis manifestações contra o excesso.
A ditadura do equilíbrio, numa vã tentativa de acertar, tenta, patética, eliminar os erros para chegar à perfeição. De um lado os solenes, do outro os lunáticos; no meio, instalam-se sobre o fiel da balança, no conforto das condições básicas de pressão e temperatura, os equilibrados. leia mais…
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30 de abril de 2010

Por João Moraes
Me dei conta outro dia de que em 2010 posso comemorar dez anos da gravação do CD “Quase ao vivo”. Criei esse disco com a ajuda dos amigos Aroldo Sampaio, Giovanne Donato e Douglas Gonçalves, a indefectível banda Patuléia. No início de tudo foi Aroldo quem impôs a necessidade de gravarmos minhas músicas. Não havia a banda, nós andamos ao contrário, primeiro gravamos o CD para depois lançar a banda. Ficamos dois anos no velho quarto estúdio do Giovanne, lá no bairro BNH em Cachoeiro, trabalhando as 14 músicas do disco. Havia uma mesa de gravação de oito canais, sendo quatro de entrada e mais nada. Para gravar o disco, compramos um bom microfone, uma bateria e um mini pré-amplificador de apenas uma válvula. Ah, todos deveriam saber como as válvulas são importantes para o rock. leia mais…
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12 de março de 2010

Por João Moraes
A janela do meu quarto no terceiro andar do velho prédio em Bonsucesso, onde morei por dez anos, dava para os fundos dos galpões de uma antiga fábrica. Os telhados escuros e empoeirados abrigavam gatos dos mais variados tipos. Magros esguios de orelha fina e pelagem escura com manchas amarelas; parrudos meio cambotas de rosto redondo de olhos grandes e amarelos; rajados de rabo quebrado e cicatrizes reveladoras de grande volúpia sexual – porque, humanamente, o amor entre os gatos é quase uma guerra -; gatos negros de olhos verdes, altos e majestosos; brancos sorrateiros de olhos bicolores, siameses heterodoxos; e alguns angorazados especialistas em lambedura de pelos. Não faltava gato e nem comida para eles. leia mais…
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5 de março de 2010

Por João Moraes
O gato amarelinho, vivo, mínimo. O cérebro neblinado, condescendente, generoso, ébrio. Não deu outra: peguei o animalzinho pelo cangote, gesto que o fez assumir a posição reveladora de sua pronunciada barriga de felino bebê. Subi as escadas batendo pelas paredes caracachentas, pintadas de verde água. Quem tava n’água era eu, após quantidade considerável de Caninha da Roça e outros alteradores pouco mais nobres do que essa deplorável água (mais uma vez a água)ardente.
Travei violenta luta corpo a corpo com as fechaduras, quase desistindo após a terceira volta na Papaiz renitente. Até que lembrei: a bolinha prazima, a bolinha tem que vicar prazima.
Abriu.
Passo pela microentrada do apartamento, ancorado no longíquo oceano de Bonsucesso, Avenida Bruxelas, 73, 301. A samambaia ressecada me agarra pelos cabelos, aperto o gato, ele mia. Faço a curva, entro na sala e desabo no sofá repleto de almofadas sobre o colchão de capa verde estampada, ano após ano seviciada noites adentro por corpos melados de álcool e algum sexo.
Dividia o apartamento com o imponderável Zé José, então protagonista, na “Tribuna da Imprensa”, de implacáveis críticas musicais que vitimaram em especial um certo gordo Ed e o lupino roqueiro, avec ou sem a menor elegance. Éramos sócios cotistas de um certo mineiro que vendia angu na saída da estação. Por sobre a gororoba amarela uma concha gigante cheia de rins, coração, fígado e pulmões de porco. Quase toda noite batíamos aquele pratão e depois levávamos outro tanto para o caso de súbita fome alvoroçar as barrigas. leia mais…
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26 de fevereiro de 2010

Por João Moraes
A vitrine da estufa olhava fixamente dentro de meus olhos, por trás de suas retas retinas vítreas, banhados em banha, pedaços de porco seduziam. Perguntei se era barriguinha, mas Joel disse que era papada. Ô Joel, então bota aí pra gente provar e abre a meiota de Engenho do Vovô.
Assim começa meu carnaval em Mundo Novo, distrito de Dores do Rio Preto, lá na Serra do Caparaó.
Mas não ficamos na cidade, ficamos numa casinha cravada na serra, mais acima. Um terreiro de café diante a casa era nosso planetário. Não havia luz perto da casa, apenas capoeirão e uma mata cheia de Canelas, Embaúbas prateadas e Quaresmeiras. Nessa época do ano, seria comum chover a não mais poder, mas a seca e o céu limpo tornava as estrelas tão vivas e tocáveis quanto os vaga-lumes que por lá também ocupavam sua parte no firmamento. leia mais…
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5 de fevereiro de 2010

Por João de Moraes
Esses dias, tomando uma cerveja com meu amigo Charles Reis, algumas fichas caíram. Caíram e fizeram barulho. Charles, sujeito dos mais perspicazes dos que tenho em conta, esteve recentemente em Salvador e me trouxe de lá umas sacadas que eu ainda não tinha mirado. Ele é de Linhares e, como todo bom linharense, é muito atento ao tamanho e dimensão das coisas.
Esteve pelos vários dos ícones baianos, entre eles a Lagoa do Abaeté, Praia de Itapoã, Pelourinho e a Igreja de Nosso Senhor do Bonfim. Caminhou botocudo pelas vielas, resistiu, a bordunadas, ao arrastão dos garçons e seus cúmplices angariadores de incautos fregueses. Turista experiente, vagou nômade, quase mimetizado aos alegres soteropolitanos. Nessas andanças regadas a dendê, percebeu, singelo, algumas importâncias que só agora me parecem óbvias. A cerveja ia descendo cada vez melhor, que a boca estava em dia bom para o ato líquido. E Charles seguia contando a viagem. leia mais…
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22 de janeiro de 2010

Por João Moraes
É melhor checar de novo para ver se está tudo no carro. Duas caixas de cerveja, copos, uma grosa de cigarros, garrafão de boa pinga – na época eu bebia AS, Alegria do Sertão - e um imprescindível panelão de farofa de linguiça e pão. Isso mesmo, farofa de pão. É só picar o pão francês e fritá-lo na gordura de bacon que o pão fica parecendo torresmo.
O caminhão para levar os homens encostou e o velho fusca verde detonado, estufado de víveres fundamentais, partiu. Para quem vai virar o 31 de dezembro atrás de uma folia de Reis tem que tomar as devidas precauções; paramos e compramos um garrafão de vinho tinto suave, da famosa marca Boca Roxa ou Sang’dbuá. Fomos eu, Penha, Graciene e Ronaldo Barbosa, amigo dos bons, lá de Cachoeiro, um verdadeiro mago na cozinha pesada; homem capaz de fazer um beiço de boi como ninguém, fora a rabada com couro que me deve até hoje. leia mais…
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27 de novembro de 2009

Por João Moraes
- Enjeitei 20 mil reais nessa mula. Dinheiro é fácil de ganhar, mas essa mula ninguém tem. É minha e não vendo por dinheiro nenhum.
O sujeito sem camisa, de calça jeans, falava para a cidade de Guaçui inteira ouvir. Numa das mãos brandia um churrasquinho de gato devidamente empanado por espessa camada de farinha, malhada por manchas marrons de molho inglês. Os olhos esbugalhados e a euforia denunciavam que o churrasquinho, de fato, cumpria o nobre papel de tira-gosto.
- Esse mulão aqui é muito chique. Tem 20 anos que eu estou atrás de um animal bonito e bom de cela igual esse.
A mula empinava, girava e sapateava com as duas patas dianteiras na calçada. Os dois; mula e muleiro, envergavam, vaidosos, o estandarte do orgulho. O animal castanho brilhava o sol do crepúsculo e seus olhos muito grandes e negros mal piscavam.
Eu, Léo e Johnson estávamos dentro da lanchonete comendo fartos sanduíches, merecidos após dia longo de trabalho ensinando os rudimentos do cinema para uma interessada turma de meninos e meninas do ensino fundamental. À nossa frente o sujeito na mula continuava seus elogios ao bicho. Nós estávamos muito interessados na cena desenvolvida no quadro da tarde esfriando. Até que Johnson, puxou para fora do casaco sua vasta cabeleira rasta com cachos de mais de metro.
- Não vendo por nada, qualquer um pode ter dinheiro, mas essa mula só eu tenho. Não vendo, não troco… aí olhou pro Johnson e disparou: - Eu troco no cabelo daquele ali. Se ele topar eu corto a mula no cabelão. leia mais…
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20 de novembro de 2009

Por João Moraes
A ponte suspensa de cabo de aço e ripas de metro e meio atravessada sobre a água brava balançava muito. Menino de algumas convicções religiosas em esquizofrênica simbiose com um racionalismo ateu reluzente e desproporcional feito crista de galo garnisé, supliquei ao pai que me salvasse o corpo e fizesse da alma o que bem entendesse. Mas depois dessa ponte onde, óbvio, meu pedido foi atendido, embora Deus ainda não tenha me revelado o que fará de meu pobre espírito, muitas outras pontes mais assustadoras, mais altas e com os cabos de aço já sem manutenção, se seguiram.
Meu irmão Cláudio morava no norte do Paraná e a família toda estava lá para os regabofes natalinos. Aproveitamos e fomos visitar as Sete Quedas no ano em que o lago de Itaipu começaria a se formar e fagocitar a boca espumante do Rioo Paraná mordendo a carne dura da terra naqueles quenions profundos.
Mais uma vez medo e fascínio. Mais uma vez o medo de altura. Mais uma vez o banho de rio. Quando chegamos à cachoeira principal, vimos ser possível tomar banho há poucos metros do salto sem ser arrastados pelo grito branco da água quebrando coroada por seus arco-íris multiplicados e permanentes. Papai me pediu que guardasse uma pedra de recordação, já que, em poucos meses, tudo ali estaria sob o silêncio das águas turvas e os peixes poderiam finalmente vasculhar as escarpas por trás das cortinas líquidas, antes, tão impossíveis de subir. Guardei uma pedra no bolso do calção, reverente, contrito, engasgado. leia mais…
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6 de novembro de 2009

Por João Moraes
Eu vou logo avisando: aprendi a nadar no rio. Primeiro, num canalzinho lá na Ilha da Luz, onde também aprendi a bater peneira para pegar camarão. Eu tinha 5 anos e com 6 já atravessava a língua grossa do Rio Itapemirim observando as distâncias para traçar uma diagonal perfeita que me levasse até onde os mais velhos mergulhavam às cegas para pegar carás, camarões e lagostas. Bichos que vivem nas locas sucumbidas sob a água em movimento. Mas nunca aprendi a remar muito bem, que nosso bote foi levado numa enchente brava, quase igual à de 37. E, se minha vó, que vira o Cometa de Halley em 1910, assim afirmava, então é porque era, sim.
Andávamos muito para ir até os córregos e açudes perto do Itabira. Gostávamos muito do banho perto do pontilhão da Leopoldina Railway. Quando estava muito vazio, passávamos horas represando parte do córrego, empilhando pedras e amalgamando tudo com barro. Quando a água estava na altura certa, já era hora de ir embora, nunca sem antes vasculhar o corpo atrás das inevitáveis sanguessugas. Sempre guardados por setas (nem estilingues, nem bodoques) e uma sacola cheia de bolas feitas de barro branco ou pelotas de minério de ferro, generosamente doadas pelas bocas abertas dos vagões enfileirados. Eram bem redondas e pesadas; na medida certa para abater rolinhas, anus e qualquer sorte de pequenos bichos que nos atravessasse, desavisados, o caminho. leia mais…
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16 de outubro de 2009

Por João Moraes
A manhã começou plena de heresia. Indo de Vitória para Vargem Alegre, em São Vicente, distrito de Cachoeiro de Itapemirim, parei para fazer um lanche e pedi um pastel de carne ao invés do sagrado sanduíche de pernil com molho de manteiga e limão. Quebrei a ortodoxia litúrgica daquelas paragens a não ser pelo fato do bar ostentar paredes e paredes de chaveiros pendurados; indicativo de muito respeito pelas tradições de Iconha.
Subi por Vargem Alta. Lá as pessoas andam com um prestobarba no bolso para o caso de decidirem comer um torresmo pega-rapaz no bar do Paraíba e terem que aparar o topete do quitute antes da mastigação. Desci para uma falangeta de prosa e perguntei como iam as coisas. Paraíba, velho pensador que é, lembrou de uma conversa com Dedé Caiano: Vargem Alta é igual a qualquer outro lugar, mas o clima compensa. Criaram então esse slogan para a cidade: “Vargem Alta: o clima compensa”. leia mais…
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