13 de abril de 2010
Por Henrique Koifman

Terminamos o fim de semana prolongado da semana anterior na fazenda da família de nossa amiga, no Brejal. São de lá as duas primeiras coluninhas à esquerda que abrem esta edição do Fotodiário. O café na tarde e velas (faltou luz) na noite de sábado; inseto (percevejo?) com pintas coloridas e folhas amarelas pelo caminho de um passeio a pé no domingo; vista da varanda ao entardecer, pouco antes da partida (e da chuva).
Na segunda pela manhã, chuviscava quando cheguei ao Centro e a moça de guarda-chuva azul esperava para atravessar a Pres. Wilson. No começo da tarde, peguei o metrô para a Tijuca (fiz a foto durante a parada na Carioca) e, de lá, segui de carro com um amigo para Maria da Graça, acompanhando a linha do trem. Quando nossa reunião acabou, lá pelas seis da tarde, parecia que o mundo estava acabando também. A tempestade inundou nosso caminho de volta. Ainda assim, com paciência e sorte, chegamos ao Grajaú (onde meu amigo mora e tem seu escritório) em pouco mais de uma hora. Chegamos é modo de dizer, pois ficamos engarrafados pelas ruas do pequeno bairro (muitas transformadas em rios) por mais de hora e meia. Durante a espera, fotografei as gotas de chuva que escorriam pelo parabrisa do carro, refletidas no painel da porta. Numa trégua na borrasca, paramos num bar para esperar as águas baixarem. Nova carona até a Saens Pena e – tive mesmo sorte –, pouco depois das 10 da noite consegui pegar um metrô. Quando entrei no ônibus que subiria a Laranjeiras, a tempestade voltou à carga. Pela janela, registrei o aguaceiro e a estação. leia mais…
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6 de abril de 2010
Por Henrique Koifman

Não lido exatamente bem com a passagem do tempo. Não que tenha lá uma grande neura a respeito de envelhecer ou uma daquelas síndromes que levam adultos a se comportarem como adolescentes. Mas a verdade é que costumo tomar consciência do avançar do tempo em episódios específicos e de periodicidade variada, e quase sempre me assusto com a constatação óbvia do aumento do montinho de grãos de areia na parte de baixo da ampulheta. O clichê (perdoem-me por isso) é sincero e foi posto em letras logo depois que digitei, lá no alto, o número 100 em algarismos romanos. Tanto que nem tinha preparado nada especial para esta edição. Cem edições do Fotodiário, 100 semanas retratadas e descritas, uma centena de e-mails, de colunas publicadas na Zé Pereira, de momentos em que parei e pensei no que tinha feito e por onde tinha andado nos últimos sete dias. Puxa, nunca pensei que teria disciplina para chegar tão longe, nem que haveria gente interessada nesse meu mundinho, tão comum, por tanto tempo. Por tudo isso, agradeço a todos os que lêem estas mal-tecladas linhas (é, hoje é dia de clichê, definitivamente).
No sábado da semana anterior, passei rapidamente pela feirinha da General Glicério e parei para um papo com um amigo bacana, que “marca ponto” junto à barraca etílico-musical do Luizinho – onde fotografei a cesta com frutas que, em breve, virariam caipirinhas. No final do dia, fomos ao aniversário de uma amiga, comemorado num restaurante do Leme, com sorrisos e ostras. No domingo caseiro, preparei um risoto “reciclato” para o almoço e, depois, um cafezinho à italiana.
Chegando a Cinelândia na segunda de manhã, passei por um vendedor de panos em sua loja pedalável. Outra bicicleta, igualmente carregada, levava um camelô com traços de índio andino, suas mercadorias e sua companheira, na Lapa, ao anoitecer. No dia seguinte, passei pela Linha Amarela a caminho de uma reunião de trabalho e, aproveitando que não estava dirigindo, fotografei um galpão amarelo plantado em uma de suas margens. À noite, fomos à casa de meus pais para o jantar de Pessach, a Páscoa judaica – que em nossa família é tradicionalmente um encontro de carinho, comida maravilhosa (os guefiltefish na travessa são apenas parte do cardápio) e, adaptando ligeiramente o conceito original da festa, de celebração da liberdade de ser feliz.
Na quarta, caminhando logo depois do almoço, registrei uma janela de um dos muitos belos sobrados da Joaquim Silva. À tardinha, na Alcindo Guanabara, enquanto tomava um pingado na padaria em frente, fotografei o letreiro do velho Cinema Orly refletido na sarjeta. No dia seguinte, chegando novamente ao Centro, gostei do colorido e das formas variadas das mercadorias de um “tem-tudo” expostas na calçada do Passeio. E logo ali adiante, dobrando a esquina das Marrecas, encontrei um obsoleto disquete de computador largado sobre as pedras portuguesas. Mas alguns metros e reparei no relevo fundido em um velho poste de ferro. À tarde, aguardando em uma recepção, cliquei um auto-retrato distorcido em uma espécie de vaso de flores (sem elas) sobre o balcão.
Na sexta, feriado, amanhecemos (viajamos à noite) na fazenda de uma querida amiga no Brejal. São de lá as flores amarelas de ipê sobre o chão do caminho, o lago e a paisagem refletida, o reflexo da mesma paisagem (e de meu caçula) nos vidros de um basculante e os bezerrinhos do curral.
A torta de pêras feita com farinha de matzá (pão ázimo típico de Pessach) estava deliciosa e foi feita por minha mãe. A flâmula histórica da antiga CBD é de meu estimado amigo livreiro da Folha Seca.
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30 de março de 2010
Por Henrique Koifman

Imagino que isso aconteça com muitos de vocês. Trago na lembrança algum lugar, comida ou algo do gênero que, lá no passado, era particularmente bom, especial mesmo. E, quando tenho chance de rever ou reviver o objeto dessa lembrança “ao vivo”, fico com medo de que a tal coisa não corresponda ao que ficou na minha memória. Ou porque a minha memória costuma ser mesmo generosa, ou porque o que foi tão bom daquela vez pode ter mudado a ponto de ficar ruim – ou, talvez pior ainda, ficar completamente comum. Explico isso porque esta edição do Fotodiário começa no sábado da semana anterior, com uma ida à Teresópolis – onde passei muitas temporadas de férias na infância e adolescência – e, mais especificamente, a uma cantina escolhida por um querido amigo para comemorar seus 50 anos. leia mais…
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23 de março de 2010
Por Henrique Koifman

No sábado da semana anterior, fomos convidados por amigos para passar com eles a tarde quente na beira da piscina do Clube dos Macacos, no Horto. É de lá a imagem que abre esta edição do Fotodiário e que mostra as copas de algumas das palmeiras imperiais centenárias que enfeitam o lugar. No domingo pela manhã, fomos à festa de aniversário de uma prima e, no playground do edifício, meu caçula ficou encantado com o pequeno campo de futebol, com gama sintética e tudo. No final do dia, sei lá por que, fotografei a bagunça da minha cabeceira iluminada pelo abajur. Pouco depois, preparei para o nosso jantar um talharim com tomates, alho e manjericão – que, sem querer me gabar, ficou bom à beça.
Na segunda cedinho, fomos a uma reunião no colégio das crianças, em Santa Teresa. No caminho para o carro, registrei a composição formada pela latinha amassada de refrigerante com a coluna de tijolos de uma casa. Mais tarde, já no Centro, almocei no macrobiótico Metamorfose e gostei especialmente do missoshiro e do rocambole de cará. Na volta, encontrei a Álvaro Alvim estranhamente vazia (está sempre abarrotada com os carros dos vereadores e suas dezenas de agregados, que usam o espaço como estacionamento privativo), parcialmente interditada – imagino que por conta do mau estado da fachada de um de seus maltratados edifícios.
Na terça, na pontinha da Ouvidor, passei pela porta da última loja de artigos de pesca (eram muitas) que sobrou por lá. E poucos metros adiante, no boteco da esquina, almocei um comercial de peixe com legumes e molho (o ponto fraco do prato) de camarão. Dia seguinte, chegando ao Centro pela manhã, resolvi atravessar a quase sempre deserta praça que ocupa o espaço onde antigamente ficava o Palácio do Monroe. Chovera muito na véspera e, em uma das várias poças, encontrei um flor exótica (caiu de uma árvore dali) destacada pelo espelho da água. Aproveitei a trégua das águas para almoçar – novamente, filé de peixe, mas com salada, feijão, arroz e abóbora – no Esquimó. Na caminhada de volta para o escritório, passei pela esquina de Rio Branco com Santa Luzia, onde me deparei com uma estranhíssima engenhoca de vigilância, espécie de mirante-xereta móvel, colocado ali por conta da manifestação pelos royalties do petróleo, que aconteceria poucas horas depois.
Na quinta, novamente chegando ao Centro pela Cinelândia, notei que a maior parte das árvores ali estão floridas. No final do dia, fui com meu sócio a uma reunião no Jardim Botânico, que acabou acontecendo na varanda da casa. Lá fotografei uma interessante poltrona esculpida em um tronco de madeira maciça. Antes, passando pela Senador Dantas, gostei da textura e da cor de uma rede de proteção de um canteiro de obras, àquela hora, iluminada em cheio pelo sol.
Sexta, passando pela Travessa do Comércio, notei um novo desenho, muito bonito, reproduzindo personagens do Rio antigo, enfeitando um muro. E no final da tarde, fui encontrar uma querida amiga na Carioca para um café (o capuccino foi ela quem tomou).
A cabeça de pedra de traços agudos retrata Catulo da Paixão Cearense, na tal praça, na entrada da Cinelândia; o marcador quebrado (ou é isso ou o elevador saiu pelo telhado do prédio…) é do belo edifício em que funciona o Metamorfose; a vista noturna e chuvosa, da janela de nossos escritório, foi fotografada na quarta; o copo com coca-gelo-e-limão eu bebi no clube, no sábado.
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16 de março de 2010
Por Henrique Koifman

Como este Fotodiário não se cansa de atestar, gosto muito de minha, quer dizer, de nossa cidade. Por isso, quando fui convocado no sábado da semana anterior para mostrá-la a duas jovens visitantes estrangeiras – a filha de uma prima e a amiga dela, ambas israelenses, hospedadas na casa dos meus pais –, aceitei feliz da vida. O “tour” começou depois da sobremesa, o pudim da foto que abre esta edição.
Primeiro subimos até o Mirante Dona Marta, de onde olhamos para a Enseada de Botafogo sob um céu de nuvens densas, mas que não davam sinal da tempestade que viria horas mais tarde. De lá, seguimos para uma volta por Santa Teresa, com parada para café e lojinhas de artesanato. Depois de rodar por vários outros bairros, fomos ver o final da tarde da murada (cheia de pescadores) da Urca.
Foi dali que começamos a ouvir os trovões sobre a cidade. A foto com relâmpagos iluminando as montanhas e o Corcovado foi a última que tirei antes que um pé (tamanho 45) d’água caísse sobre nós. A volta para casa foi epopéica, mas chegamos sãos e secos. No domingo, passando pelo pátio da garagem de nosso edifício, encontrei algumas janelas (despencadas pela chuva?) encostadas no muro. leia mais…
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9 de março de 2010
Por Henrique Koifman

Na manhã do sábado da semana anterior, peguei um ônibus com o caçula para o Largo do Machado atrás de uma bateria para seu relógio. No caminho, na Conde de Baependi, quase esquina de Tavares Lira, fotografei a barraca (dupla) do camelô que, há muitos anos, vende ali miniaturas de animais. Dinossauros, insetos, bichos de fazenda… Uma verdadeira arca de Noé. Mais adiante, na Machado de Assis, entramos na loja de um relojoeiro – uma raridade nesses tempos em que, cada vez mais, se substitui as coisas em vez de consertá-las; especialmente relógios, vendidos por trocados em qualquer esquina. Saindo dali, passamos pela feira no Largo do Machado, onde registrei almofadas listradas, combinando o toldo da barraca em que eram vendidas. leia mais…
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2 de março de 2010
Por Henrique Koifman

Talvez seja porque tenha a música como um elemento básico e fundamental na vida, talvez por puro delírio, mesmo (com esse calorão que andou fazendo…). O caso é que na semana passada, associei símbolos musicais, ritmo e melodia a vários dos lugares em que estive e cenas que presenciei – algumas delas registradas nesta edição do Fotodiário. Começando pelo sábado – com direito a “legenda” tipo poema-concreto (rap?) impressa no asfalto da Ortiz Monteiro para marcar o lugar de uma barraca, na feira. - E seguindo com o passeio de carro pela Atlântica, no meio da tarde. Parado num sinal, abri a janela e fotografei o vai-e-vem no calçadão. A imagem, mistérios eletrônicos, acabou contaminada pelo desenho ondulado do calçadão, que aos meus olhos, é uma espécie de partitura em pedrinhas da bossa nova. A bossa “O barquinho” me acompanhou, mais adiante, no Aterro, quando resolvi dar uma entradinha no Monumento a Estácio de Sá – que mostra uma das mais belas vistas da baía. leia mais…
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23 de fevereiro de 2010
Por Henrique Koifman

Nesses últimos anos, cada vez mais, Laranjeiras tem sido ótima durante a folia – para quem gosta de longos “passeios” no meio da multidão, latinha de cerveja morna na mão, barulhão (samba? acho que não), azaração adolescente, confusão… Não é meu caso. Por isso, no sábado de Carnaval, bem cedo, partimos do Rio para Guapi em exílio voluntário. São de lá – onde, diga-se, rola um simpático Carnaval de interior, com bailes de rua e até desfile de escolas de samba – as imagens das quatro primeiras colunas (da esquerda para a direita) desta edição do Fotodiário.
A primeira, feita quando chegávamos, é da rua principal, que ganha arquibancadas e decoração para o desfile das escolas. Mais tarde, estreamos os novos pratos (de vidro) do Cantinho do Sabor e, pouco depois, passei um tempo refrescante na beira do rio que margeia o condomínio. Mesmo longe da água, o calor de lá, não chegava ao do “forno carioca”, como atestava o termômetro da varanda, fotografado lá pelo fim da manhã de domingo – dia do aniversário do nosso filho mais velho, que ganhou bolo de chocolate da vovó. Mais tarde, passando novamente pela cidade, registrei outro trecho da rua principal, com lojas vendendo máscaras, confete e serpentina. Adiante, almoçamos no Alaiu, onde os ventiladores lutavam para amenizar o mormaço. De volta em casa, encontrei uma espécie ultramegapeluda de lagarta ruiva que me lembrou o cachorro do Cebolinha. As cachorrinhas do meu irmão – estas reais em latidos e rabos abanantes – ganharam recentemente casinhas próprias, instaladas ao abrigo da varanda. leia mais…
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16 de fevereiro de 2010
Por Henrique Koifman

No sábado da semana anterior, resolvemos enfrentar o calor dar um pulo na feira da General Glicério – que, na prática, funciona em uma de suas transversais, a Ortiz Monteiro. São de lá as duas primeiras imagens desta edição do Fotodiário: o casal de simpáticos vendedores de frutas e o detalhe de um portão do edifício que fica em frente ao ponto onde eles armam sua barraca (há pelo menos uns 30 anos). No domingo, passando pelo Largo do Machado, fotografei os ladrilhos do chão da lanchonete onde paramos para que o caçula (são dele as pernas na foto) tomasse um refresco. À noite, passando pela Laranjeiras, já próximo à nossa casa, registrei o movimento da lanchonete móvel na calçada.
Já na segunda, caminhando do centro de volta para casa, flagrei o bonde passando sobre os arcos da Lapa com um belo poente ao fundo. Mais adiante, já na Laranjeiras, pouco antes da Soares Cabral, passei por um cachorrinho que aguardava, amarrado a um fradinho, seu dono(a) fazer compras no mercado. No dia seguinte, caminhando pela Senador Dantas, encontrei um jogador de futebol seriamente contundido sobre as pedras da calçada. Pouco mais tarde, fui com meu sócio experimentar a nova cafeteria do tradicional Hotel OK, na mesma rua (o expresso é bom).
Na quarta, com o céu limpíssimo depois da tempestade que caiu na noite de terça – aqui em casa, tivemos até granizo –, chegando ao Centro, resolvi fotografar o chafariz que fica onde um dia esteve o Monroe. Ele estava ligado, coisa meio rara no verão carioca, supostamente por conta da dengue.
No final do dia, caminhando pela Voluntários, em Botafogo, notei que o calçamento ali colocado não faz assim tanto tempo (parte do projeto Rio Cidade) já está completamente degradado. Os ladrilhos além de encardidos, parecem prematuramente gastos. Seria isso, em parte, culpa de minhas tão constantes caminhadas por ali? Na mesma rua, passei pela vitrine de uma loja em liquidação e, mais adiante, entrando pela Martins Ferreira, encontrei um reluzente fusca vermelho.
Na quinta, com sol a pino, passei (esbaforido) pelo canteiro central do comecinho da Avenida Chile, ali em frente à Carioca, e, pela primeira vez, notei um belo grafite enfeitando um bloco de concreto plantado ali não sei bem para quê (vai ver era o pedestal de alguma placa de bronze roubada). No final da tarde, parei com minha namorada para uma boquinha rápida na Cavé e experimentei uma pizza de sardinha – sem queijo, mas (ou talvez até por isso) bem interessante – com suco de uva.
Na sexta de manhã cedo, na Cinelândia, passei por um sujeito que, confortavelmente instalado em uma cadeira de praia, lia seu jornal, em descontração precarnavalesca. No começo da tarde, de carro, descendo a Presidente Vargas, cliquei pela janela (estava de carona, não dirigindo, ok?) um detalhe de um grande carro alegórico estacionado perto do sambódromo.
Gandhi, que parecia caminhar em direção à portaria do Serrador, fotografei na quarta (logo após o chafariz); o relógio-termômetro com o calorão exagerado para o horário, registrei na terça, no início da Laranjeiras; a flor meio despetalada, com jeito de quarta-feira de cinzas, estava em uma das calçadas da General Glicério, no sábado.
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9 de fevereiro de 2010
Por Henrique Koifman

Quem acompanha este Fotodiário já sabe que adoro nossa cidade. Para além da natural afinidade por ser “carioca da gema”, tenho grande prazer em olhar para o Rio, seja da janela de casa ou da de um ônibus; em passos apressados em direção a algum compromisso ou caminhando despreocupadamente para casa num fim de tarde. Não sou lá tão viajado, mas tive chance de conhecer quase todas as capitais brasileiras e algumas grandes cidades em outros países e acho que, sem exagero de filho coruja, o Rio é dos melhores lugares para se flanar (há tempos aguardo a chance de usar esse termo sem parecer pedante, mas apenas pedestre). A despeito disso tudo, há dias em o que mais quero é estar longe daqui.
Calor exagerado, início prematuro da zorra pseudocarnavalesca, alguns dias de folga coincidindo com o final das férias das crianças, recesso no consultório da namorada, convites e ofertas de amigos para hospedagem… A conjunção era perfeita e lá fomos nós. No sábado da semana anterior, saímos de Guapi (chegáramos lá na quinta) e, via Teresópolis – é de lá a imagem da moto “estradeira” que abre esta edição –, fomos para a casa de nossos amigos em Araras. Lá nos esperavam o casal com seu carinho habitual e quitutes inspiradíssimos (o da panela é um delicioso frango indiano), o preguiçoso gato Lua e horas e horas de gostosa conversa.
No domingo, passando pelo centrinho de Araras, encontrei um cachorrinho aproveitando a sombra sob o balcão da mercearia. De volta à casa, gostei das linhas e sombras formadas pelas sandálias de meu amigo sobre os ladrilhos do quintal. À noite, com a ajuda de uma lanterna empunhada pelo caçula, fotografei um sapo malhado. Já na segunda pela manhã, um contratempo me levou a pegar um ônibus em Itaipava para o Centro do Rio. Poucas horas mais tarde, já estava de volta a Araras, a tempo de clicar os panos brancos secando no varal da varanda, fazer as malas e seguir com a família para a cabana de outra querida amiga, no vale do Stucky, em Muri. A mandala colorida foi a primeira foto que fiz lá, à noitinha, quando chegamos.
Construída no alto de uma colina e escondida por um bosque de pinheiros, a casa tem um clima daqueles que bastam para que sair de lá exija um tremendo esforço. Ainda assim, na terça, fomos almoçar “fora”, no restaurante da Leína, na estrada Muri-Lumiar (é de lá a imagem da paisagem “encanada” por um tijolo vazado, com uma chave dormindo dentro dele), e fazer compras em Muri – onde o fusca verde-abacate passou roncando tão rápido que quase fugiu inteiro da foto.
Devidamente abastecidos, voltamos para a cabana e de lá só voltamos a sair na sexta. São daquele pedacinho de paraíso o material de jardinagem – nossa amiga é uma competente fada das flores –, as sandálias na janela, o violão do filho mais velho no sofá, o perfumado macarrão-borboleta preparado pela namorada, o reflexo do bosque na janela, as flores, o copinho porta-vela, o fragmentado (feito através de um cristal) auto-retrato deste que aqui mal tecla, a rede de sonho pendurada entre árvores, a cozinha, as árvores-bruxas no caminho, o pôr-do-sol atrás dos pinheiros e montanhas (visto da rede) e a mariposa na vidraça.
Na sexta, no começo da tarde, partimos de volta, com uma parada almoçar novamente no restaurante da Leína (a fome foi maior que a vontade de fotografar, daí a imagem com pratos vazios, pela qual peço desculpas). E pegamos um pequeno engarrafamento na Niterói-Manilha, na altura do Barreto – pretexto para registrar a baía, que parecia mais limpa que o habitual, no contraluz.
Os guindastes com braços em diagonal oposta a dos suportes da murada da Perimetral fotografei na segunda, voltando para Araras. A placa indica o caminho para o condomínio onde fica a cabana mágica de nossa amiga, em Muri.
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2 de fevereiro de 2010
Por Henrique Koifman

No sábado da semana anterior, almoçamos na casa dos meus pais – é a mesa posta, a espera de pratos e comensais, que abre esta edição do Fotodiário. E, no final do dia, fomos ao Leme visitar uma querida amiga. Paramos o carro junto ao calçadão da praia, quase em frente a um belo edifício dos anos 1940/50 com fachada de ladrilhos grandes. De uma das janelas da casa de nossa amiga, registrei o final da tarde na praia. Pouco antes, fotografei seu gato sobre o tapete felpudo.
No domingo, de preguiça (início de duas semanas de férias) em casa, passei parte da manhã recostado em uma almofada xadrez, lendo o jornal. Já no final do dia, preparamos um lanche com salada e sanduíches com pão árabe. Mais cedo, passando pelo jardim do edifício, encontrei bolas coloridas presas às plantas, por conta do aniversário de uma pequena vizinha.
Na segunda, batendo pernas pelo bairro pela manhã, registrei uma luminária da pracinha da Pires de Almeida tardiamente (ou seria prematuramente?) acesa sob a copa das árvores. No final do dia, sob chuva, engarrafados na Mário Ribeiro, fotografei uma das entradas do Jóquei através da janela gotejada do carro. Já na terça pela manhã, passando de ônibus pela Praia de botafogo, gostei do contraste criado pelo sol, no contraluz, com a névoa branca e fiz uma foto de um ciclista que passava pelo canteiro. À tarde, fui jogar ping-pong com os meninos no clube.
No dia seguinte, novamente na Praia de Botafogo, desta vez a pé pela calçada junto aos edifícios, passei diante do busto em homenagem a Manoel Thomaz de Carvalho Britto. Como imagino que aconteça com a maioria de vocês, nem teria reparado na estátua – e muito menos na placa que a identifica – não fosse o saco de plástico que alguém havia colocado sobre a cabeça do jurista e legislador mineiro e que me causou um certo desconforto (impossível não associar esse tipo de coisa, saco sobre a cabeça, com tortura). Mas, graças a tal cena, fiquei sabendo que Manoel era possuidor de “raro descortínio, administrador enérgico e arguto reformador do ensino primário em Minas Gerais”, além de “entusiasta servidor da causa pública”. Mais tarde, numa parada para trocar o óleo do carro, encontrei um velho jipão militar, desses que hoje são usados para transportar turistas “em clima de aventura” pela cidade, estacionado junto ao posto e fotografei sua roda.
Na quinta pela manhã fomos para Guapi, onde encontramos a casa de meu irmão com novos portões de entrada de madeira. Peguei minha sunga oficial no secador e tratei de mergulhar logo no rio para espantar o calorão. Na sexta, passeando pelo quintal de manhã, apontei o celular para a copa das árvores e, enquanto disparava a câmera, girei o pulso. A imagem ficou parecendo com a da superfície da água onde se atirou uma pedrinha, não acham? À tarde, fotografei algumas tangerinas sobre a mesa da cozinha.
As espigas de milho dentro de sacos estava ao lado de uma banca de jornal na Laranjeiras, na segunda; o telefone celular – o primeiro aparelho que comprei, em 1999, e sei lá por que cargas d’água guardava até então – foi totalmente desmontado e fotografado antes de ser jogado fora em lugar apropriado; a salada com ovinhos de codorna nós comemos no restaurante do Alaiu, em Guapi, na sexta.
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26 de janeiro de 2010
Por Henrique Koifman

No sábado da semana anterior, aproveitando o calorão, fui com o caçula dar uma nadada na piscina do clube. São de lá as duas primeiras fotos que abrem esta edição do Fotodiário: nossas camisetas dependuradas no gol usado no pólo aquático e dois “pés” à beira d’água. No domingo, ainda em companhia do pequeno (o mais velho tinha viajado), fui ao Parque Laje, lugar de que gosto muito e frequento desde criança. Encontramos o chão forrado por folhas e jambos – que comemos e trouxemos para casa. No espaço em que um dia funcionou o estábulo da mansão, encontramos uma grande e interessantíssima instalação que, coincidência, descobri ser criação de um vizinho de janela aqui do prédio. Dentro do casarão, reparei no chão, revestido por um belo mosaico de pedras de várias cores e formatos (não me lembrava desse detalhe).
Já na segunda, caminhando pela Laranjeiras, passei diante da porta de um sobrado em reformas – aborrecido, confesso, descobri depois que ali funcionará mais uma agência bancária. Sinceramente, não acho que meu bairro precise de mais bancos (já há três num espaço de menos de 10 metros) nem farmácias (dessas eu perdi a conta). Torcia pela volta da antiga padaria que funcionava ali até um tempo atrás. Dinheiro nunca vai ter o cheirinho bom que eu costumava sentir quando passava ali na porta. Mais tarde, caminhando pela Lapa, avistei um Uno vermelho totalmente abarrotado de tambores.
Na terça pela manhã, fotografei o Theatro Municipal, quase pronto, a partir da ensolarada esquina da Alcindo Guanabara, juntinho à Câmara. No final do dia, engarrafado num ônibus, pela janela, apontei o celular para a tempestade veranista que desabava sobre a cidade e consegui congelar um pedacinho de raio.
Na quarta, feriado de S. Sebastião, pela manhã, fui buscar um aparelho que deixara para consertar na galeria do 336, prediozão monstruoso da Laranjeiras. Aguardando pelo técnico, fiz um auto-retrato no reflexo da janela de uma pensão e registrei também a loja dele entreaberta. Já na quinta, no fim do dia, na mesma Laranjeiras, encontrei um triciclo de entregas do supermercado com seu pneu murcho sobre a calçada molhada (mais chuva), na contraluz. Na sexta, debaixo de outro temporal, mais uma vez dentro de um ônibus, usei o vidro da janela como “filtro” para uma foto.
As fotos de peixinhos na parte de baixo da página foram todas feitas no aquário do Parque Laje, no domingo.
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19 de janeiro de 2010
Por Henriquer Koifman

Dia 9 de dezembro pela manhã, subimos a serra para Araras, onde um par de nossos melhores amigos iria se casar. Festa que preencheu todo aquele sábado e mais uma parte do domingo (dormimos por ali). São de lá as três primeiras colunas de fotos (à esquerda) que abrem esta edição do Fotodiário. A flor estava sobre a mesa em que nos sentamos após a cerimônia, o chapéu panamá guardava o lugar de um dos convidados; por trás do véu (que dava um ar de mistério à cozinha logo adiante), cozinheiras preparavam os quitutes; o ponche de frutas estava em um dos cantos da sala e, pouco adiante, bolo e docinhos aguardavam a vez de entrar em cena. A casinha com jeito de ilustração de livro infantil é onde vive o caseiro do seminário luterano, onde nos hospedamos após a festa.
Já na segunda, de volta ao Rio e ao Centro, pela manhã, encontrei uma coleção de chapéus feitos com folhas verdes trançadas expostos nas escadarias da câmara dos vereadores. Mais tarde, voltando a pé para casa, passei por uma calçada molhada, forrada de flores de flamboyant, no Catete (próximo ao colégio Zacaria). Na terça, engarrafado numa das prateleiras daquela primeira parte elevada da Linha Vermelha que corta e estraga São Cristóvão, registrei uma espécie de torre no alto de um dos muitos sobrados sufocados pelo concreto. No fim do dia, passando por Copacabana, fotografei um cachorrinho preguiçosamente (fazia muito calor) encaixado sob as grades de um edifício na Bolívar.
Quarta pela manhã, chegando ao Passeio, vi uma moça rebocando uma imensa mala com rodinhas que, sobre a calçada de pedras que rodeia o parque, avançava devagar e barulhenta. Sempre que vejo alguém carregando uma mala grande pela rua, não sei bem porque, fico com a impressão que ali vai uma pessoa que está de mudança, deixou a casa dos pais ou, quem sabe, terminou um namoro ou casamento. Enxergo alguém que está passando por um daqueles “momentos decisivos” e que, dentro da mala, leva o pouco que acha fundamental para seguir com sua vida. Ou então não era nada disso e a moça só estava levando sua mala, vazia, para o concerto, sei lá. A imaginação voa também quando chego à janela do escritório, como naquele fim de tarde, e vejo um desenho de nuvens e sol poente – cena que, invariavelmente, minha mente associa a uma canção de Tom Jobim (nem sempre a mesma, mas sempre dele).
Quinta, seguindo a pé pela Laranjeiras em direção ao Largo do Machado, passei por um fusca que parecia já ter rodando últimos quilômetros (ao menos com seu dono atual), tomado de folhas e poeira. À noite – o dia foi corrido –, passei pelo ponto de ônibus da Senador Dantas e gostei das luzes do Bobs da esquina em frente e da do abrigo para passageiros. No dia seguinte, caminhando pelo inóspito canteiro central daquele último trechinho da Almirante Barroso, já prestes a virar Avenida Chile, encontrei três pequenas tampinhas de caixas de gás, uma ao lado da outra, formando uma espécie de composição geométrica em meio ao caos de texturas, tonalidades e linhas do cimento. Atravessando a rua, entrei no espaço cultural da Caixa e encontrei uma única e pequena exposição em cartaz, no mezanino, sobre Marighela. Horas mais tarde, saindo do trabalho logo após um pé d’água, na Evaristo da Veiga, fotografei o reflexo do sol no asfalto encharcado. À noite, fomos jantar com meus pais – um saboroso cardápio frio, ótima ideia da minha mãe para amenizar o fim de uma semana tórrida.
O jarrinho com flores sobre a mesinha estava em um dos corredores do seminário luterano, em Araras. Os noivos – Dona Baratinha e João Ratão com final feliz – faziam pose sobre o bolo de nossos amigos, agora, recém-casados.
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12 de janeiro de 2010
Por Henrique Koifman

Nessas primeiras semanas do ano, sei lá; me sinto com um pé lá outro cá. Como se ainda vivesse no ano passado, confundindo data, preenchendo cheque errado, como se tivesse passado noites em claro ou então com o fuso horário trocado. E ainda por cima, esse calor. No tórrido sábado da semana anterior, saí de casa já no meio da manhã e, pouco depois de passar pelo portão, no chão, achei emaranhadas em cores e fios algumas fitinhas do Bomfim. Diz a crença que uma fitinha se arrebenta (e seu dono, então, a perde, geralmente sem sentir) após a realização de um pedido, feito no momento em que foi atada ao corpo. Aquelas, que sabe, podem ter pertencido a um sortudo que, bem na virada do ano, viu vários de seus desejos realizados de uma só vez. Dali, marchei à feira da General Glicério, onde compramos peixe e camarão – este último, ingrediente de um risoto, magistralmente preparado pela namorada, pouco depois. leia mais…
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5 de janeiro de 2010
Por Henrique Koifman

Ouvi dizer que fazer mudança de casa em dia de chuva dá sorte. É provável que esse agouro tenha lá seu quê de misericórdia. Assim como outros ditos, que atribuem a fortuna a quem é alvo de fezes de pássaros, quebra copos, coisas do gênero. Ao copo quebrado, associam-se “energias ruins” que, com os cacos do vidro, dissipam-se (e deixam o desastrado livre delas). Às fezes na roupa, confere-se o dom da fertilidade – mais ou menos o mesmo poder atribuído à água das chuvas nas mudanças que, tal qual em um dia de semeadura, garantem o sucesso do plantio e uma futura colheita farta. Lembrei disso, claro, ao selecionar as imagens para esta edição de ano novo do Fotodiário, boa parte delas feita debaixo de chuva, justo nesses dias da virada do ano.
No sábado da semana anterior, amanhecemos em Guapi (chegáramos à noite), onde ficamos até segunda no almoço. São de lá as três primeiras colunas de fotos à esquerda. A bromélia estava no jardim da casa do meu irmão – onde também moram o catavento multicolorido e o sapo compenetrado. As sandálias com acerolas (colhidas pouco antes, comidas pouco depois) são minhas, largadas sobre uma pedra durante um banho de rio. A árvore com lampadinhas enfeitava uma das casas do condomínio e o céu azul (de domingo) está refletido no vidro do nosso carro. A lojinha fica na rua principal da cidade e ajudava a marcar as horas dos últimos dias do ano.
Na segunda à tarde, já no Rio, encontrei flores de flamboyant no cimento molhado da garagem de nosso edifício. Mais tarde, deixei o filho mais velho na casa de um amigo, na Fonte da Saudade, de novo sob chuva. No dia seguinte, à tarde, parei o carro na Presidente Vargas para um telefonema (não falo ao celular enquanto dirijo), justo quando a chuva virou tempestade. Na quarta, passei algumas horas trabalhando no escritório da namorada, onde a luminária me lembrou uma lua cheia. Já na quinta, saindo do nosso edifício, fui novamente pego por uma chuvarada daquelas na Laranjeiras. A água espelhou o asfalto da General Glicério, que, na altura da praça do chorinho, refletia a copa das palmeiras. Pouco adiante, na esquina com a Laranjeiras, uma senhora vendia palmas para serem presenteadas a Iemanjá.
No começo da noite, fomos para a casa de uma querida amiga no Jardim Botânico para, com outros amigos, comemorarmos a passagem do ano. São de lá as velas, a vista da lua cheia (azul, segundo soube) sobre o Redentor – parou de chover! –, a vista dos fogos de artifício no céu da Lagoa e o anjo com bumbum de fora.
A cadelinha (de verdade) de olhar meigo se chama Mina, mora em Guapi e é do meu irmão. A salada de tomate, alface e cenouras é do Cantinho do Sabor, também de Guapi. O cachorrinho (de pano) estava sobre a nossa cama, aqui em casa, no dia primeiro de janeiro e foi modelo para a minha primeira foto ao acordar em 2010. Aliás, que o ano seja fértil em sorrisos, de todos nós.
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