9 de outubro de 2009

O filme emo “Os famosos e os duendes da morte”, de Esmir Filho, ganhou o Redentor de melhor longa-metragem, segundo o júri oficial; mais bonito ainda fez “Dzi Croquettes” (foto), de Tatiana Issa e Raphael Alvarez, que levou o oficial e o do voto popular. A lista completa dos ganhadores está aqui. Reclamações com Fernando Solanas, Roman Paul, François Sauvagnargues, Helena Solberg e Julia Lemmertz, os jurados. Mas vamos ao que interessa, o Prêmio Zé Pereira:
Melhor conversa pra boi dormir: “Viajo porque preciso, volto porque te amo”, de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes
Melhor filme de Beto Brant: “Cabeça a prêmio”, de Marco Ricca
Melhor reality show para pessoas descoladas: “O amor segundo B. Schianberg”, de Beto Brant
Melhor diretor de teatro: Felipe Hirsch, de “Insolação”
Melhor Katia Lund: Daniela Thomas, de “Insolação”
Melhor atriz (este prêmio é seriíssimo): Cássia Kiss, de “Os inquilinos”
Prêmio Leni Riefenstahl: “O troco”, de André Rolim
leia mais…
Sem comentários »
6 de outubro de 2009

CABEÇA A PRÊMIO
Première Brasil
Por Fernando Gerheim
O narcotráfico é um tema onipresente na América Latina e geralmente Maras, Zetas, Farc, ADA, CV, PCC etc. são tratados de forma diversa do que ocorre em “Cabeça a prêmio”. Aqui o tema sócio-político serve a um faroeste edipiano na tríplice fronteira Brasil, Paraguai e Bolívia, onde Mirão, criador de gado e narcotraficante, é encarnado por um Fúlvio Stefanini com um barrigão dramaticamente perfeito para o papel. Só que a trama não recai no policial, nem no social, nem no romântico, e sim no trágico. O duro e grosseiro Mirão só se derrete pela linda filha Elaine (Alice Braga), que provoca a lei paterna envolvendo-se com o piloto de avião paraguaio Denis (Daniel Hendler), que trabalha para o seu pai. O ótimo filme de estréia de Marco Ricca reúne um elenco excelente e conduz a história com mão firme até a corda da decadência da família Menezes ficar totalmente esticada. leia mais…
Sem comentários »
6 de outubro de 2009

THE CHASER
Midnight Movies
Por Arnaldo Branco
Já disse que uma das vantagens do cinema coreano são os nomes difíceis de virar adjetivo - duvido que um dia vá ouvir a expressão Universo BongJoon-ho-iano. No caso de Hong-jin Na, isso é ainda mais difícil: “The chaser” (”Chugyeogja”) é o seu filme de estréia, e o diretor ainda vai ter que comer muito cachorro para construir sua cinematografia.
Sabemos que Roteiro Original é uma categoria retórica do Oscar, mas a trama desse filme bate alguns recordes de precedente: policial corrupto é obrigado a se aposentar e se virar como cafetão. Aos poucos suas prostitutas vão desparecendo e ele descobre que todas tiveram como último cliente o mesmo sujeito, que admite tê-las assassinado. É a senha para começar uma perseguição com elementos de comédia - ou de overacting oriental, dá no mesmo para o público do Espaço de Cinema, claque de sonhos para qualquer “Zorra Total” da vida.
A verdade é que aí reside a força do thriller oriental, em fazer o mesmo do seu jeito entre o gore e o naïf, devolver os clichês de gênero (policial, terror) com a vivacidade de quem está brincando, inventando na hora - mas com a proficiência de quem tem um cinema autosuficiente nas bilheterias, estrelas locais e - graças a Buda pela diversidade - uma forma diferente de contar uma história.
Não estranharia que esse aqui ganhe um remake americano com Jared Leto (na falta do Heath Ledger) como o cliente maluco e Nicolas Cage de ex-policial proxeneta. Mas aposto que mudariam o final, confira por que.
1 Comentário »
6 de outubro de 2009

O SOL DO MEIO-DIA
Première Brasil
Por Fernando Gerheim
Eliane Caffé é a narradora do Brasil profundo do cinema da Retomada. “O sol do meio-dia” mantém o mesmo vínculo com regiões não urbanas de “Os narradores de Javé” (2003), mas é mais denso, o ambiente que envolve os personagens fica menos seco e mais equatorial, desbrava-se uma Amazônia mergulhada em sombras. A diretora situa sua história numa paisagem exótica, mas quer falar de temas universais; o clima quente, úmido e as cores vibrantes combinam-se com a sensualidade contida, mas febril de Artur (Luiz Carlos Vasconcelos). Culpa e redenção são os pólos de um périplo por afluentes do Amazonas, num verdadeiro boat-movie pela selva que vela e desvela o lado negro da alma humana.
No início do filme, Artur deixa a prisão e sonha com sua casa em chamas. Segue o conselho do oráculo onírico e deixa a cidade a bordo do barco de Matuim (Chico Diaz), que o conduz, como Creonte, rio abaixo, em sua ascese espiritual. Ali a História nem chegou. Ele esculpi, solitário, artesanato popular, avesso à tentação das prostitutas ribeirinhas. Matuim tem um espírito dionisíaco, encarna o curupira quando bebe e, nas brigas, perde a peruca de cabelos longos.
Um boneco vestido com a primeira roupa de Mutuim, pendurado no alto do mastro do barco herdado do pai, parece um espantalho a lembrar que ali vale a tradição, não a mudança. Os bandidos roubam o barco, como um sinal de que eles estão chegando na cidade. Num destino inverso ao do “Coração das Trevas” de Joseph Conrad, que deu origem ao “Apocalypse Now” de Coppola, em que o horror esperava no interior da floresta, Mutuim e Artur chegam a Belém e encontram Ciara (Cláudia Assunção) como promessa de salvação.
A fotografia de Pedro Farkas mostra menos a cor local do que uma Amazônia negra. A aparição de Ary Foutoura, no papel de pai de Ciara, despertou das entranhas da minha memória o lobisomem de Saramandaia. No lugar do sertanejo e do brasileiro dos fundões reduzido a folclore, Caffé busca uma densidade psicomitológica. Ciara trabalha no guichê da casa lotérica e usa cabelo preso. Artur, em sua busca de redenção, entrega a filha dela, uma prostituta que se ofereceu a ele, de volta à mãe. Ciara, que também é cobiçada por Mutuim, solta o cabelo para ir ao encontro de Artur. Nesse regionalismo universalista que lembra José Lins do Rego e Graciliano Ramos, Artur narra para Ciara o crime que ele cometeu, cego pelo ódio como pelo sol de meio dia, matando a própria mulher. A atmosfera pesada, abafada e silenciosa acumulada até ali, cujo preço é um filme um tanto arrastado, se desanuvia num beijo final menos romântico do que animal.
Sem comentários »
6 de outubro de 2009

HUMAN ZOO
Midnight Movies
Por Flu
Este ano recorri aos trailers pra achar alguns filmes interessantes. Tinha errado muito só indo atrás de sinopse do jornal. Quando botei o olho no trailer de “Human zoo” já veio uma ótima impressão da atriz, roterista, produtora e diretora Rie Rasmussen. A beleza dela, então, é o grito final pra pegar o ingresso!
Com surpresa vejo que ela veio ao Rio apresentar o filme! De havaianas e dizendo que foi no samba na noite anterior, ela fala da produção e do problema de escravas sexuais compradas pelos russos. Menina simpática e sagaz com certeza!
O filme em si é confuso e com uma péssima direção de atores. Mas com muita energia! Descobri que ela trabalhou no “Femme fatale” do De Palma (deve ser aquela modelo no início do filme), num filme do Luc Besson, é modelo profissional, produziu alguns curtas metragens e lançou um livro com suas pinturas. A menina vai longe com certeza!
No filme, ela é salva por um desertor soldado na guerra de Croácia, Sérvia, Albania e sei lá mais o quê. Isso não é explicado. Mas os soldados eram escrotos e estupradores. O desertor não era bonzinho. Mas ensinou ela a manusear armas e a trabalhar como terrorista. Por sinal, o ator (Nikola Djuricko), toma conta do filme com seu olhar peculiar sobre a situação naquela área. Isso foi o passado. No presente mostra ela morando em Marseille, apaixonada por um americano e ajudando os estrangeiros da cidade a conseguir passaporte. Menina querida e feliz!
Ela gosta de confusão e por isso as confusões acabam acontecendo no roteiro. De qualquer forma, o filme tem boas cenas de ação e nos mostra um talento que aparecerá muito com o tempo!
Sem comentários »
5 de outubro de 2009

HISTÓRIAS DE AMOR DURAM APENAS 90 MINUTOS
Première Brasil
Por Fernando Gerheim
O roteirista e diretor Paulo Halm faz uma comédia romântica suave como a brisa da beira-mar, passada entre a Zona Sul e a Lapa, carioca sem falar de favela e tráfico, com doses precisas de humor e surpresa. “Histórias de amor duram apenas 90 minutos” é um filme de roteirista, sem reviravoltas apressadas no final nem piadas e situações forçadas. Como no cinema clássico de raiz (Billy Wilder), a história é narrada no passado, com voz em off, por um narrador que faz parte dela.
Eis o vaudeville: Caio Blat representa um jovem que tenta ser escritor (Zeca), mas não consegue terminar um livro. Ele tem um temperamento meio carente, meio mimado, de quem comeu muito iogurte Danone, e sofre por mulher. É casado com Júlia (Maria Ribeiro, sua mulher na vida real) – situação de estabilidade A. A inversão do herói latino (problema) ocorre quando ele descobre que a esposa está traindo-o – aí entra a nota surpreendente – com outra mulher (a atriz argentina Luz Cipriota).
Ele se apaixona pela outra (desenvolvimento do conflito), leva-a pra cama e, hora H, ela pede pra ele esperar “um minutinho”, com seu sotaque hermano, e sai do banheiro com um pênis de borracha (só vemos a sombra). Zeca se recupera do revés e acaba ficando amante da amante da própria esposa, revezando-se entre as duas, num triângulo amoroso em que o traído trai com a mesma amante da traidora.
Até que Zeca, cansado, resolve ser flagrado pela própria mulher (desenlace). A história não volta para a situação A. Sozinho (situação B), ele terá que enfrentar o livro, seguindo a vontade do pai, que quer que ele se torne escritor. A dose de comédia é um pai (Daniel Dantas) querer que o filho se torne escritor e lhe dar mesada aos 30 anos.
A comédia é leve como sessão da tarde, mas o simples fato de não repisar clichês batidos faz dela um destaque do gênero no cinema da Retomada. Fazer cinema é uma epopéia (”Ben-Hur”), e Halm realiza uma comédia romântica que não trata o espectador como débil mental, sendo bonitinha, mas honesta.
Sem comentários »
5 de outubro de 2009
VOGUE - A EDIÇÃO DE SETEMBRO
Midnight Movies
Por Arnaldo Branco

Você conhece Anna Wintour como a Miranda Priestly (Meryl Streep) de “O Diabo veste Prada” - isso se não tiver alergia ao assunto moda, aversão a filmes de garota ou namorada pra influir na escolha do que alugar na locadora. Quem viu, sabe que Miranda é a regra de três para Anna, editora da Vogue americana e uma bitch de coração frio, poder quase divinal e língua ferina.
O documentário “Vogue - A edição de setembro” segue a sujeita durante os cinco meses necessários para produzir a tal edição (”setembro é o janeiro no calendário da moda”) e confirma o personagem da ficção - exceto pela língua ferina. Na verdade Anna exerce seu poder pelo mutismo: nunca diz exatamente porque descarta uma sessão de fotos que custou cinco mil dólares, o que não gosta nas roupas que lhe trazem aos milhares para examinar com profundo tédio e nada muito interessante sobre sua carreira ou vida pessoal.
Cabe à diretora de criação Grace Coddington fazer o contraponto à Esfinge Wintour, compartilhando com o público o espanto de ver sua chefe em ação. Cada vez mais desesperada ao perceber que todos seus editoriais vão sendo limados sem maiores explicações do que “muito Galliano” para uma sessão de fotos inspirada em, bem, John Galliano, Grace não esconde sua frustração cada vez que perde espaço na edição de ouro.
É um belo estudo sobre construção de carreiras e reputações - Anna e Grace são ex-modelos que entraram no mesmo ano para a revista, e que agora lutam com patentes diferentes para fazer valer suas assinaturas. Superficialidade e ultraprofissionalismo são a tônica. Muito bom.
Sem comentários »
4 de outubro de 2009

O AMOR SEGUNDO B. SCHIANBERG
Première Brasil
Por Fernando Gerheim
No seu novo filme, Beto Brant ingressa no cinema conceitual. Vivemos a instabilidade entre as categorias artísticas, e ele quer experimentar. O diretor tem a interessante proposta de trazer para o cinema o “tempo real”, descendente do “ao vivo”, renascido nas micro-câmeras de vigilância. E em vez do semi-lumpesinato aspirante ao estrelato do “Big Brother”, registra uma videoartista (Marina Previato) e um ator (Gustavo Machado) durante três semanas num apartamento (o filme é inspirado num personagem do livro “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios”, de Marçal Aquino). Uma história de amor construído na convivência, sem música no fundo.
A filmagem é editada, como em um reality-show comum. Quer dizer, o diretor não abandona totalmente a dramaturgia, deixando as câmeras filmando em “tempo real”, como fez Andy Warhol na década de 60. A edição mostra justamente Schianberg e Gala falando sobre vida e relacionamento, ele tocando violão, ela criando videoarte. Eles não falam coisas interessantes, mas não é esse o ponto. Quando chega o final do filme, aparece o inter-título “O amor segundo Gala”, e as imagens afinal abandonam o apartamento.
A videoarte entra também no cruzamento de cinema com estética de reality-show, mas o vídeo interessa mais como obra que foi realizada pela personagem Gala. O filme transforma-se em making-off, feito com microcâmeras de vigilância, do seu final. A linguagem do vídeo, anárquica, também está numa instância ficcional. O diretor experimenta uma enunciação diferente, com vários tipos de discursos visuais relacionados, tendo como centro o casal.
O que vemos é uma pesquisa de linguagem avançar em relação a “Um crime delicado” (2005), introduzindo cada vez mais uma operação conceitual no cinema. Infelizmente em “O amor segundo B. Schianberg”, a experimentação, na verdade, é mais ilustrativa do que incorporada ao pensamento de uma linguagem cinematográfica. O vídeo é a ilustração de um vídeo, o reality-show reproduz o modelo “Big Brother”, e essas formas não são redimensionadas. O filme pega mais delas do que lhes dá de volta. Mas Brant apresenta uma das características mais importantes do cinema, que é a liberdade de formas de fazer audiovisual, mesmo que a troca entre os discursos pudesse ter sido mais orgânica.
Sem comentários »
4 de outubro de 2009
Um dos roteiristas mais requisitados do cinema brasileiro, diretor de curtas e médias-metragens premiados, ele apresenta seu primeiro longa, “Histórias de amor duram 90 minutos”, num Odeon superlotado, na noite de ontem.
Sem comentários »
3 de outubro de 2009

O NATIMORTO
Première Brasil
Por Fernando Gerheim
“O natimorto” não é só baseado no romance homônimo de Lourenço Mutarelli, mas o autor representa o protagonista do seu livro. A performance, mesmo que em alguns momentos seja difícil entender o que ele diz – o diretor não quis dublar e filmou na ordem cronológica –, dá ao personagem, dentro da instância ficcional, veracidade. E o texto falado pelo seu autor vai abrindo caminho para a imaginação com mais força que muita imagem.
Quando a pesquisa de novas formas narrativas se dirige para a realidade, nesse filme a palavra introduz o espectador na esfera subjetiva, como uma vingança contra o cine-romance que agarrou-se à literatura mas sempre foi deficiente em penetrar na mente dos personagens. Mutarelli esbraveja no clímax, depois de explicar que Baudelaire está sisudo e Nietzsche tem um bigode tão grosso e não sorri nas fotos porque naquela época não havia tantos recursos dentários e até eles, gênios da Humanidade, queriam esconder a boca banguela. “Orgulho e vaidade! A porta para o inferno!”. leia mais…
Sem comentários »
3 de outubro de 2009

Por Gustavo Acioli
O festival promoveu um dia inteiro de debates sobre televisão com diretores de diversos canais como Arte (França), TV Cultura, TV Brasil, GNT, Canal Brasil, entre outros. Em tais discussões, o que mais me chamou a atenção foi a unânime constatação de que a televisão está perdendo a audiência entre os jovens para a internet. Os diretores da Arte chegaram a afirmar que a maior parte da sua audiência era composta por pessoas acima de 60 anos. Até as novelas estão perdendo audiência. Os jovens, simplesmente, não ligam mais o aparelho de TV. A solução apresentada também foi unânime: encontrar programas capazes de trazer os jovens de volta.
Desculpem, senhores, mas devo dizer que não vai dar certo. Não é uma questão de conteúdo. É uma questão de modus operandi, de modus vivendi. É impossível convencer uma pessoa a deixar de assistir ao que ela quer, na hora que ela quer, no lugar que ela quer, fazendo várias coisas ao mesmo tempo, podendo também oferecer conteúdo produzido por ela mesma, para trazê-la de volta ao sistema “veja o que estou oferencendo, com dia certo, hora certa, não saia daí, a gente volta já já…”
Minha filha de 6 anos já cansou da TV. Não tem jeito. Acabou. Ou a TV vira internet, ou vai acabar junto com a minha geração - pois confesso que gosto de ficar zapeando, tentando encontrar alguma coisa que pesque a minha atenção, mesmo que na maior parte do tempo eu fique apenas zapeando sem parar em nada; gosto de ver sempre o mesmo programa no mesmo horário; gosto até de dizer que hoje não posso sair de casa porque vai passar um filme que eu não posso perder.
A TV foi a minha janela para o mundo, a minha babá, a minha professora de muitas coisas, a minha companheira nos momentos de solidão. Sou do tempo em que a gente tinha que levantar para trocar de canal e eram apenas seis canais e estava todo mundo satisfeito. É, minha velha, o tempo passa… Perdeu, Plim-Plim!
Sem comentários »
3 de outubro de 2009

OS INQUILINOS (OS INCOMODADOS QUE SE MUDEM)
Première Brasil
Por Fernando Gerheim
O filme de Bianchi focaliza a vida de uma família da periferia, em vez de fazer grandes alegorias do país, como “Central do Brasil” ou “Cidade de Deus”. O pai de família Valter (Marat Descartes), trabalha no depósito do supermercado e conclui o ensino médio à noite para tentar melhorar de vida; o patrão não quer assinar sua carteira, diz que isso só vai tirar dinheiro dele e dar para os políticos corruptos; os novos inquilinos da casa ao lado são bandidos que fazem festa e churrasco à noite, incomodando Valter e sua família.
O diagnóstico da inviabilidade crônica do Brasil desta vez aparece mais invisível por trás do realismo da narrativa. No enquadramento sociológico, o brasileiro pobre da periferia é aquele que integra a economia informal; convive com estupro e assassinato de crianças e tem que proteger a filhinha que imita a Xuxa dos pedófilos; aceita resignado o poder paralelo do Partido; mas é ordeiro e pacífico. Enfim, o brasileiro comum é um homem acuado e com medo.
A professora (Cássia Kiss) discute com a turma poemas de Ferréz e Drummond, ponto alto do filme. Valter acha “a paz é uma palavra muito curta para fazer efeito”, coisa de quem quer mesmo é “ver sangue!” Imprensado entre o patrão e os bandidos, ele clama por ordem. O povo brasileiro é pacato, passivo e gostaria de um Capitão Nascimento para impor ordem e paz. “Os inquilinos (os incomodados que se mudem)” é o “Tropa de elite” ao contrário
Enquanto no filme de José Padilha o incorruptível policial quer limpar a cidade dos bandidos, no de Bianchi o personagem Valter quer a ordem e a paz, mas sem o heroísmo do Capitão Nascimento. No fim desse retrato moral da periferia da grande cidade, a pura e simples maldade humana dá tonalidade mais ácida à doença social. O mau transcende o esquematismo sociológico para revelar-se no ser humano.
Essa endoscopia da realidade brasileira diagnostica uma doença endêmica, mas a saúde para Valter é uma ordem enclausurada, uma paz chapada, em que os bandidos são malvados e a família, o trabalho, e quem sabe concluir o ensino médio são o bom caminho. Prevalece a visão de um jogo de forças em que a árvore que aparece no início do filme no meio da árida estrutura uniforme da favela (diferente dos morros cariocas), irrompe sufocada em busca de uma lufada de desordem.
Sem comentários »
3 de outubro de 2009
Por Eduardo Souza Lima
Beto Brant apresentou ontem no Odeon seu último longa-metragem, “O amor segundo B. Schianberg”, edição para o cinema de um reality show que produziu para a TV Cultura. Filme novo do Beto é sempre um acontecimento, mas muita gente estava comemorando mesmo era o fato de não passar curta antes dele.
Sem comentários »
3 de outubro de 2009
Por Gustavo Acioli
Quero um filme normal: com começo, meio e fim. Com apresentação de personagem, exposição do problema, conflito, crise, transformação, clímax. Quero um filme com ritmo e encadeamento de ações. Quero reencontrar o meu amor da adolescência, que me fazia esquecer do relógio, que me fazia esquecer da namorada, que me fazia esquecer de mim. Quero me divertir.
Os aplausos ainda vão acabar com o Cinema.
1 Comentário »