26 de novembro de 2008
Por Eduardo Souza Lima

A esta altura, todo mundo já leu os blogs do Zanin e do Bonequinho e deve estar sabendo que “FilmeFobia”, de Kiko Goifman (chapadão na foto), ganhou, merecidamente, o Candango de melhor filme do 41° Festival de Brasília - veja aqui a lista completa dos vencedores -, mas vou dar os meus pitacos. A gente pode até discordar de um prêmio ou outro, mas o júri está de parabéns pelo esforço de não deixar de premiar nenhuma categoria, apesar dos pesares - o melhor exemplo disso foram os prêmios de melhor atriz e melhor atriz coadjuvante dados em conjunto ao elenco feminino de “Siri-Ará”, de Rosemberg Caryri. Everaldo Pontes levou o de ator coadjuvante e devia levar o de flair-play também, ao dizer que, num festival de cinema, a competição é o que menos importa. Kiko Goifman também merecia o troféu por lidar bem com as vaias ao receber o prêmio principal e com a surpresa, ao ganhar o da crítica: “Eu nunca esperaria por isso depois das críticas que li do filme”. Já o de falta de espírito esportivo e de consideração com os colegas vai para Geraldo Sarno, que não foi ao Cine Brasília por achar que não ia ganhar nada - e o filme dele, “Tudo isto me parece um sonho”, ganhou os de melhor direção e roteiro. O meu camarada Evaldo Mocarzel ganhou, pela segunda vez (a primeira foi com “À margem do concreto”), o prêmio do voto popular por “À margem do lixo”; tomara que esta comunicação com o público em breve se reflita no circuito também.
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25 de novembro de 2008
Por Eduardo Souza Lima

Nunca entendi muito bem como o Fernando Adolfo está há tantos anos à frente do coordenadoria geral do Festival de Brasília. Ele me parece um cara sério, correto, discreto, nunca o vi bajulando ninguém, e o cargo é político. Há quem discorde do critério do ineditismo para os filmes, muita gente está reclamando dos longas-metragens da competição, mas a verdade é que esta safra em especial não foi das melhores - o Cine PE já apontava para o fato e o Festival do Rio veio a confirmá-lo -, não dá para culpá-lo ou culpar a comissão de seleção. Entretanto, ele parece abatido, há quem diga que está rolando um processo de fritura. Disso eu não sei, mas realmente parece que alguém quer que a gente acredite que o festival está em irremediável processo de decadência - basta ver o estado lamentável do Cine Brasília ou ouvir as reclamações de quem assistiu à competição de vídeo/16mm.
P.S.: queria manifestar a minha solidariedade ao pessoal da Cinética, que teve negados três vezes seus pedidos de credenciamento para o festival, e aproveitar para dizer que viajei para cá a convite de Anna Azevedo, minha mulher, que fez parte do júri de vídeo/16mm e tinha direito a um acompanhante. E eu que pensava que a maior função de um evento destes era estimular o debate crítico.
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25 de novembro de 2008
Por Eduardo Souza Lima
“Não sei até hoje que filme é esse”, disse Geraldo Sarno a respeito de “Tudo isto me parece um sonho”, último longa-metragem da competição do 41º Festival de Brasília. Se ele não sabe, imaginem eu. Mas, no debate de hoje de manhã, o diretor, que faz as honras da casa no vídeo acima, deu algumas pistas - tirem as suas conclusões: o filme lhe foi encomendado por Ricardo Dias, presidente da Odebrecht, seu amigo de infância, que, por sua vez, é amigo do presidente da Venezuela Hugo Chávez, que lhe fez uma provocação. Abreu e Lima foi um general permanbucano que lutou ao lado de Bolívar pela libertação da América Latina. Dele, só há uma imagem, uma pintura cuja data é desconhecida e, ao que parece, vai continuar sendo. Como não há imagens, Sarno acredita não ser possível fazer um documentário sobre o personagem e diz ao amigo que gostaria de fazer um filme de ficção. Entretanto, resolveu também documentar o seu processo de pesquisa e dá liberdades plenas ao câmeras. Se expõe corajasamente - a melhor seqüência, por Pedro Urano, mostra o diretor cortando cana, com a voz de uma menina em off dizendo que ele morreria de fome se tivesse que fazer isso para viver - enquanto expõe suas teorias sobre o Brasil. O documenário teria três horas e meia de duração, mas o bravo montador Luiz Guimarães de Castro conseguiu cortar para duas horas e meia. No fim da sessão, a sala estava bastante vazia; os poucos que ficaram, porém, o aplaudiram com entusiasmo. Ainda não tenho idéia do que seja o filme, mas acredito que ele vá ser recebido como um maná pelos fãs e pesquisadores da obra do diretor, e como uma enorme egotrip por quem não está tão interessado assim nela.

E já que eu falei do Pedro Urano, ele não pôde vir ao festival, mas é o seu grande destaque - assim como Lula Carvalho foi do Festival do Rio; quando essa nova geração puder produzir com regularidade, o cinema brasileiro vai arrebentar de verdade. Além de “Tudo isto me parece um sonho”, ele assina a fotografia de “Siri-Ará” e de “Superbarroco” (foto), também exibido ontem. O curta de Renata Pinheiro (diretora de arte dos filmes do Claudio Assis) deve ter aliviado a barra do júrio oficial. O outro curta da noite, “Cães”, de Adler Paz e Moacyr Gramacho - cuja deslumbrante fotografia é do outro fotógrafo do filme de Geraldo Sarno, Pedro Semanovischi, isso é que é curadoria -, também. Os prêmios principais da categoria devem sair daí. Quanto aos longas… eu só digo que a reunião dos jurados acabou às cinco da manhã. O resultado sai à noite, no Cine Brasília.
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24 de novembro de 2008
Por Eduardo Souza Lima
O Evaldo Mocarzel não é mais aquele, olha a cara dele no vídeo acima, em atitude fashion, apresentando ontem à noite “À margem do lixo”, no Cine Brasília. O diretor niteroiense radicado em São Paulo perdeu a proeminente barriga, aposentou as camisas coloridas espalhafatosas, não faz aparições michaelmooreanas e usa trilha sonora em seu novo filme, algo antes impensável para o bressoniano convicto. E mudou pra melhor, já que “À margem do lixo” (foto abaixo) é o seu trabalho mais consistente e já desponta como um dos favoritos do festival.
Evaldo é conhecido por ser rápido no gatilho: só este ano, o diretor lançou nos cinemas “Brigada pára-quedista”, mostrou “Sentidos à flor da pele” no Festival do Rio. É tanto filme que isso às vezes acaba comprometendo a qualidade de alguns deles, que estão mais para o jornalismo do que para cinema. O documentarista, porém, parece estar agora mais cuidadoso e preocupado com o uso da linguagem. “À margem do lixo” é o seu filme mais explicitamente político e estéticamente marxista - “Eu queria fazer um filme planfetário”, disse ele no debate de hoje de manhã. Com extremo rigor de enquadramentos (um ótimo trabalho de fotografia de Gustavo Hadba e André Lavenère) ele acompanha o cotidiano de catadores de lixo e os faz comentar as imagens depois - como fazia Jean Rouch. Ao entrar com a câmera em usinas de reciclagem, a inspiração é Dziga Vertov, numa sinfonia de lixo e ruídos matematicamente editada. Depois da sessão ele, sempre ansioso, me perguntou o que tinha achado. Pois bem, eu só tiraria os depoimentos mais pessoais dos personagens e trataria apenas de política - é muita falação em cima das imagens.

Os dois curtas exibidos ontem têm o mesmo defeito de fabricação: os diretotes não souberam a hora de tascar o “fim” neles. Mas nada que justifique as vaias a “A minha maneira de estar sozinho”, de Gustavo Galvão, que começa brilhantemente e perde o rumo no final. Como Gustavo é de Brasília, ao que parece algum detrator levou uma claque pro Cine Brasília. “Na madrugada”, da carioca Duda Goter, é corajoso a mostrar cenas de lesbianismo maduro com as atrizes Ana Lúcia Torre (belos seios) e Denise Weinberg. Tecnicamente impecável (com uma fotografia de tirar o chapéu de Jacques Cheuiche), o filme só é um tanto longo, ficando, por vezes redundante, e tem uma incômoda trilha sonora cafoninha.
Daqui a pouco tem os curtas “Cães”, de Adler Paz e Moacyr Gramacho, e “Superbarroco”, de Renata Pinheiro, e o longa “Tudo isto me parece um sonho”, de Geraldo Sarno. A noite vai ser longa, já que o último tem duas horas e meia de duração.
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24 de novembro de 2008
O descobridor do cinema brasileiro é homenageado no 41º Festival de Brasília.
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23 de novembro de 2008
Jean Rouche ensinou a galera a tirar o filme etnográfico da academia, mas parece que nem todo mundo aprendeu a lição. Sou fascinado pela cultura indígena e apóio incondicionalmente as suas causas, mas senti falta de cinema ao assistir ontem, no Cine Brasília, a “Ñande Guarani (Nós Guarani)”, primeiro longa-metragem do cineasta brasiliense de André Luís da Cunha. O documentário trata da luta dos guaranis, espalhados pelos rincões do Brasil, Argentina, Paraguai e Bolívia, para serem reconhecidos como uma única nação. Mas o diretor (que apresenta o filme no vídeo acima) foi tão reverente ao tema que dificilmente o filme conseguirá sair do gueto. André Luís não explorou as contradições de seus personagens - os guaranis são contra as fronteiras, mas querem a demarcação de seus territórios, por exemplo - e engessou a estrutura de seu documentário; basicamente intercala depoimentos com canções guaranis. Parece um programa da TV Brasil.
No outro representante de Brasília, o curta “Ana Beatriz”, a diretora Clarissa Cardoso põe a narração em off para falar de um personagem, enquanto a câmera segue outro. Um recurso simples e eficaz. Só não entendi o porquê de usar fotografias, à moda Chris Marker, para narrar a historinha. “Minani em Close-up” é primo de “Que cavação é essa?”. O diretor Thiago Mendonça fala da Boca do Lixo brincando com a sua linguagem e desencava histórias e personagens sensacionais. O melhor da noite.

Na sessão de hoje, os curtas “A minha maneira de estar sozinho” (DF), de Gustavo Galvão, e “Na madrugada” (RJ), de Duda Gorter, e o longa “À margem do lixo”, de Evaldo Mocarzel.
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22 de novembro de 2008

A comissão de seleção do 41º Festival de Brasilia deixou o júri numa tremenda sinuca de bico. Não somente quatro dos seis filmes da competição são documentários como os dois restantes, “FilmeFobia” e “Siri-Ará”, têm seus elencos formados, em sua maioria, por não atores e dialogam com o documental. E, a rigor, só há um grande papel: o documentarista Jean-Claude, de “FilmeFobia”, vivido pelo crítico e roteirista Jean-Claude Bernadet (foto). Esse parece ser barbada - até porque Bernadet se sai muito bem -, mas vai ser muito complicado escolher uma melhor atriz e coadjuvantes, só fazendo homenagem.
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22 de novembro de 2008
Por Eduardo Souza Lima
A última passagem do diretor cearense Rosemberg Cariry (de “Corisco e Dadá”) pelo Festival de Brasília, em 2002, foi pouco memorável. Lembro-me apenas da cara de desespero do Zanin, que mediava o debate sobre “Lua Cambará - Nas escadarias do palácio”, porque ninguém fazia nenhuma pergunta - o Rosemberg que me perdoe, mas a única que me ocorreu naquele dia foi “como é que você me faz uma coisa dessas?”. A má impressão foi desfeita ontem à noite com “Siri-Ará”, que foi bem recebido pelo público presente ao Cine Brasília. Houve quem dissesse era o melhor filme do diretor. À saída do cinema, o cineasta Manfredo Caldas o chamou de “obra de maturidade do artista”.
Rosemberg, filósofo de formação, queria fazer um épico sobre o mito fundador de seu estado, a sangrenta expedição de Dom Pedro Coelho à região em 1603, mas faltou grana. Optou, então, por contar esta hitória usando da poesia, da alegoria e da cultura popular, encenando-a com o Reisado do Mestre Aldenir e a Banda de Pífanos dos Irmãos Aniceto no rochoso sertão de Quixadá e Quixeramobim - assista no vídeo acima à apresentação do filme. O personagem Cioran - um mestiço brasileiro que, depois de se exilar na França, volta ao Brasil para reencontrar suas raízes - faz os olhos do espectador. Confesso que não entendi muito bem a ligação entre a sua história e a de Dom Pedro Coelho e achei que os personagens estavam andando em círculos. Porém, a poesia de Rosemberg enquadrada pela fotografia de Pedro Urano rende belos momentos.
A dupla de curtas da noite foi a mais fraca até agora. O mineiro Marcos Pimentel, autor da obra-prima “O maior espetáculo da Terra”, um cineasta de observação, pouco diz com “A arquitetura do corpo”, entreatos de balé cujas imagens me pareceram um tanto aleatórias e despropositadas. “Brasília (título provisório)” é mais um exercício engraçadinho de metalinguagem - um subgênero do curta brasileiro. E J. Procópio, diretor da casa, causou um momento de pânico na platéia quando ameaçou apresentar toda a sua equipe, com direito a uma historinha para cada - sintam o drama na foto abaixo.

Hoje tem cinema brasiliense em dose dupla no festival: o curta “Ana Beatriz”, de Clarissa Cardoso, e o longa “Ñande Guarani (Nós Guarani)”, de André Luís da Cunha. O penetra é o curta paulista “Minami em Close-up”, de Thiago Mendonça.
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21 de novembro de 2008
Por Eduardo Souza Lima
Confesso que cheguei a pensar que “FilmeFobia”, segundo longa-metragem da competição do Festival de Brasília, fosse um teste de elenco do Zé do Caixão, por causa do que andei lendo por aí. Mas o longa-metragem de Kiko Goifman (que o apresenta no vídeo acima e, num momento Gomez Addams, o dedica à sua mulher) é uma bem-vinda provocação sobre a banalização da imagem, da dor e da violência - que leva uma mãe que teve um filho assassinado a dar uma entrevista exclusiva a uma estrela do telejornalismo, por exemplo - e a verdade da imagem. O diretor levanta a bola a partir de uma idéia cinematográfica incômoda: “FilmeFobia” é estruturado como o making of do filme de um diretor (interpretado pelo crítico e roteirista Jean-Claude Bernadet) que acredita que a única imagem verdadeira é a de um fóbico diante de sua fobia. O cineasta louco - que tem o seu próprio Igor, aqui chamado Ravel - tortura voluntários, usando engenhocas hellraiser (criadas pela diretora de arte e artista plástica Cris Bierrenbach), e os filma em busca deste objetivo.
Esperava-se uma debandada daquelas do Cine Brasília, mas o público permaneceu até o fim na sala. Talvez porque as imagens na tela não tenham causado o incômodo esperado - pelo menos por mim. No debate sobre o filme hoje de manhã, Kiko e o diretor de fotografia Aloysio Raulino disseram que quiseram justamente fugir dos clichês dos filmes de terror e de imagens chocantes óbvias. Mas pode ter também ter sido efeito da própria tese defendida pelo longa-metragem - imagens violentas não chocam mais ninguém. “FilmeFobia” é uma experiência instigante, mas no fim das contas, mais contundente do que as cenas criadas pelo diretor foi a participação do citado José Mojica Marins, que diz, com perturbadora naturalidade, ao analisar o material filmado pelo cineasta vivido por Bernardet, que foi convidado para assistir a um estupro. Palavras que dizem mais do que mil imagens.

No fim da exibição, a platéia se dividiu no fim entre aplausos e vaias, assim como o fez com os dois bons curtas apresentados antes. De “Nº 27″ eu esperava uma reação mais furiosa: o filme do pernambucano Marcelo Lordello trabalha num nível de tensão semelhante ao de “Décimo segundo”, do seu conterrâneo Leonardo Lacca, que mereceu uma vaia consagradora no festival passado, sabe-se lá o porquê. O filme encantou um membro do júri, mas precisava de um montador mais severo. “Cidade vazia” (foto), do brasiliense Cássio Pereira dos Santos, deve ter incomodado parte do público por não ter um desfecho pega-espectador como “Laços”, curta brasileiro que ganhou o prêmio Project Direct, do YouTube.
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20 de novembro de 2008
Por Eduardo Souza Lima
A seleção brasileira pode não causar mais a comoção de outrora – se bem que depois de ontem, sei não – mas a sua passagem pelo Distrito Federal certamente desfalcou o público do Festival de Brasília. Porém, se a casa não estava cheia, Armando Praça, Luís Alberto Melo e Sergio Roizenblit, diretores, respectivamente, dos curtas “A mulher biônica” e “Que cavação é essa?” e do longa “O milagre da Santa Luzia”, não tiveram do que reclamar, já que a platéia estava bastante receptiva. E quem perdeu o jogo também não, já que são três filmes bem brasileiros. O primeiro foi o menos bem recebido, talvez porque exigisse do público um tipo de conhecimento prévio. Quem conhece o Ceará ou é de lá com certeza o apreciou melhor. O diretor retrata muito bem uma certa Fortaleza e um tipo de mulher de lá, que abdica da própria vida para cuidar o alheio - uma espécie de versão feminina do escroto cearense -, embora adapte um conto do gaúcho Caio Fernando Abreu (1948-1996). E ele acerta porque leva muito de sua vivência à tela. Uma historinha que ele contou no debate de hoje de manhã ilustra bem como: “Eu tenho um teclado de brinquedo que ganhei quando era criança que vinha com uma musiquinha gravada. Eu adoro essa música e sempre quis usá-la num filme. Consegui fazer isso neste curta”.

O filme dentro de “Que cavação é essa?”
O segundo curta da noite, “Que cavação é essa?”, ganhou a platéia logo de cara, até porque o seu tema é caro a quem gosta de cinema: a preservação e a restauração de filmes. O curta trata do tema com irreverência reverente, fazendo uso da metalinguagem, bem a cara do cinema carioca formado na UFF e na Cinemateca do MAM, de filmes como “Acossada”, das Karen Akerman e Black e “Tira os óculos e recolhe o homem”, de André Sampaio. Cinema de cavação (em gíria do início do século passado, “de picaretagem”) seria o cinema institucional de hoje - dos institucionais de empresas a filmagem de casamento. O filme reconstitiu ficcionalmente um documentário dos anos 1910 e um cinejornal do anos 70, usando como atores figuras legendárias do underground do cinema carioca. Às vezes é difícil saber se o que está na tela é ficção ou documental. A participação do diretor de conservação da cinemateca do MAM Hernani Heffner, a quem o filme é dedicado, foi a que causou maior confusão: “O Armando Praça achou que era uma cena de arquivo, o que é um erro histórico, porque nos anos 70 o Hernani tinha um cabelão de metaleiro até a cintura. Mas tudo o que a gente fez foi pedir para ele deixar crescer o bigode e o vestimos com roupas de época. E o texto de sua fala saiu da transcrição literal de uma entrevista que fiz com ele em 1999″, contou depois o diretor Luís Alberto Melo que, no vídeo acima, apresenta o seu “Que cavação é essa?” no palco do Cine Brasília, com a atriz do filme Anna Karinne Ballalai.

Dominguinhos com Borguettinho
“O milagre de Santa Luzia” se refere à data de nascimento de Luiz Gonzaga e o filme de Sergio Roizenblit propõe ao espectador uma viagem ao Brasil que toca sanfona. O público do Cine Brasília embarcou numa boa: não foram poucos os aplausos em cena aberta. É um documentário convencional, mas com toque autoral - Roizenblit assina também a direção de fotografia, o roteiro e a montagem. O filme abre com uma seqüência magistral de Dominguinhos, seu guia, tocando numa estrada. ”O milagre de Santa Luzia” é afetuoso e tem belas imagens - que, até pelo cenário, remetem ao “Aboio” de Marília Rocha, em seu uso de texturas e grafismos -, só que às vezes elas parecem ter encantado por demais o diretor. Há umas ótimas sacações de montagem, mas o ritmo vacila - muita gente achou cansativa a seqüência no Rio Grande do Sul. Em certas passagens dá a impressão também de que faltaram imagens de cobertura, embora o diretor tenha contado que em algumas cenas foram registradas por até três câmeras diferentes. O próprio Dominguinhos não aparece em alguns momentos. Esta ausência, o diretor explicou mais tarde: “O Dominguinhos é a pessoa mais desprendida e sem vaidade que já conheci. Para ele, estar num filme, ser homenageado, não significa nada. Ele vive para a família e o trabalho e só viaja pelo Brasil de carro, pois tem medo de avião. Ele deixou que a gente filmasse desde que nos aproveitássemos de sua agenda. A gente filmava onde ele ia dar show”. No vídeo abaixo, Roizenblit apresenta seu filme no Cine Brasília.
Hoje tem os curtas “Nº 27″ (PE), de Marcello Lordello, e “Cidade vazia” (DF), de Cássio Pereira dos Santos, e o longa “Filmefobia” (SP), de Kiko Goifman. Não deixem de ler também as coberturas do festival do Blog do Zanin e a do André Miranda, no Blog do Bonequinho.
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19 de novembro de 2008
Por Eduardo Souza Lima
Hoje de manhã teve debate sobre “S. Bernardo” e quem apareceu ficou conhecendo um pouco mais sobre o método de trabalho de Leon Hirszman e como ele fez o filme, cuja versão restaurada está sendo lançada em DVD pela Videofilmes. Como observou na hora o Gustavo Acioli, se faz fazendo. Tudo parece simples quando é feito por alguém que conhece o seu ofício. O diretor de fotografia Lauro Escorel falou da opção de Leon por planos-seqüência em quadros fixos: “Tudo tinha que ser rodado praticamente num único take, não havia filme virgem suficiente para repetir tomadas, por isso todas as cenas eram muito ensaiadas antes que começássemos a rodar. Havia também o problema da câmera, que era pesada, pois usamos som direto e tínhamos que isolar o seu barulho. Eu também tinha poucos refletores para trabalhar a luz, por isso estudamos sempre e melhor forma de usar a luz natural. O filme foi todo pensado em cima dessas carências”, disse.
Othon Bastos, que faz o protagonista, Paulo Honório, contou que uma única cena foi ensaiada seis horas seguidas: “A cena do jantar só podia durar exatamente quatro minutos, pois só havia mais um rolo de filme. No começo, fazíamos a cena em quatro minutos e meio. Depois de seis horas, chegamos a quatro. O Leon pediu pelo amor de Deus que a gente não errasse. Fizemos em três minutos e 55 segundos. Ele ficou tão feliz que beijou toda a equipe”. Vladimir Carvalho lembrou dos velhos tempos de Partido Comunista de ambos e disse que os roteiros do diretor pareciam esquemas matemáticos: “Ele era engenheiro de formação, assim como o seu grande mestre, Eisenstein. Era a mente do engenheiro trabalhando ali, mas com alma de artista”. E Othon lembrou que eles trabalhavam o tempo todo com o livro de Graciliano Ramos nas mãos, como guia: “Era como se a gente estivesse em sala de aula”. No vídeo acima, o ator (ao lado do colega de elenco Nildo Parente) conta, emocionado, como o diretor o convenceu a interpretar Paulo Honório; abaixo, com desconcertante sinceridade, Lauro Escorel fala sobre a criação da mais bela cena do dilme, a última e fugaz aparição de Madalena (Isabel Ribeiro) viva. No fim do debate, os presentes fizeram uma oração pelo fim do capitalismo.
A competição de 35mm do Festival de Brasília começa logo mais, às 20:30h, com a exibição dos curtas “A mulher biônica” (CE), de Armando Praça, e “Que cavação é essa?” (RJ), de Estevão Garcia e Luís Rocha Melo, e o longa “O milagre da Santa Luzia” (SP), documentário de Sergio Roizenblit, no Cine Brasília. A primeira sessão de curtas em 16mm e vídeo terminou há pouco, na Sala Martins Pena do Teatro Nacional Claudio Santoro, com os velhos problemas de projeção - os jurados terão que ver de novo os vídeos em outro local. Um probleminha de classificação indicativa também: boa parte da platéia era de crianças, e elas tiveram que sair da sala quando começou “Depois de tudo” (RJ), de Rafael Saar, no qual Ney Matogrosso e Nildo Parente interpretam um casal homossexual. Antes de ir embora, porém, a criançada assistiu a “Medo do escuro”, de Cauê Brndão, que tem como temas pedofilia e incesto.
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19 de novembro de 2008
Por Eduardo Souza Lima
O título deste post deveria ser “Cinema para todos”, por causa do belo exemplo dado pelos organizadores do 41º Festival de Brasília ontem à noite, na noite de abertura do evento, ao botar uma intérprete de Libras (Língua Brasileira de Sinais) para traduzir para os surdos presentes - sim, surdos, eles preferem o popular ao politicamente correto “deficiente auditivo”, como aprendi com a editora de imagens Rebeca Fernandes - o que era dito na cerimônia. O lema da edição deste ano é “Cinema com inclusão social” e a moça do vídeo acima entrou novamente em cena durante a projeção de “S. Bernardo” - em cópia restaurada, tinindo de nova - quando as legendas closed caption falharam. Mas quem ouvia, e por isso não podia contar com sua ajuda, virou um excluído.
Para começar, o som da Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional Claudio Santoro é péssimo - curioso como um teatro pode ter uma acústica tão ruim. Mas o pior foi a falta de educação da platéia. As pessoas já tagarelavam durante a apresentação da Orquestra Sinfônica do teatro, que tocou antes da sessão. Quando esta começou, piorou, e muito. Teve um cretino na minha frente que não só não desligou seu celular, que tinha uma campanhia bem estridente, como o atendeu e entabulou um papo como se estivesse num boteco: “Pode falar, eu só estou vendo um filme”, ainda disse. Diante dos protestos, ele simplesmente levantou, atrapalhando a visão de quem estava nas fileiras de trás, e continuou a conversa enquanto se retirava. Esta espécie de patife devia ser proibida de entrar numa sala de cinema - agora eu falei igual ao Paulo Honório.

Sobre a econômica obra-prima de Leon Hirszman (1937-1987), baseado no romance de Graciliano Ramos, dizer o quê? Ela já foi julgada pela História e aprovada com louvor - fico imaginando que avaliação mereceria do ”Globo”, por exemplo, com sua profusão de Bonequinhos aplaudindo de pé filmes medíocres com seus muitos planos e conversa jogados fora. Difícil, como eu já havia dito, vai ser não tomá-lo como parâmetro daqui para diante no festival. Seu único defeito é que pode levar os incautos a acreditarem que para se fazer um grande filme bastam Othon Bastos e texto de Graciliano.
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17 de novembro de 2008

Por Eduardo Souza Lima
Escalar um filme como “S. Bernardo” (foto, 1972), de Leon Hirszman para abrir um festival é sempre um risco - ele pode simplesmente ofuscar os da competição - mas Brasília começamuito bem. O longa-metragem baseado no romance homônimo de Graciliano Ramos faz sua reestréia amanhã, às 20:30h, em cópia restaurada, na Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional Claudio Santoro, em sessão para convidados. O festival começa mesmo pra valer na quarta-feira, às 20:30h, no Cine Brasília, com a competição de filmes de 35mm, com os curtas “A mulher biônica”, de Armando Praça, e “Que cavação é essa?”, dos grandes Estevão Garcia e Luís Rocha Melo, e do longa “O milagre de Santa Luzia”, de Sergio Roizenblit, um documentário sobre a sanfona Brasil adentro. O júri é bastante heterogêneo: o jornalista Artur Xexéo, os cineastas Carlos Reichenbach, Vladimir Carvalho, Sérgio Machado e Murilo Salles, e as atrizes Maria Flor e Sandra Corveloni. Eu mando notícias de lá. Leia aqui a programação completa, incluindo os vídeos e curtas de 16mm.
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2 de novembro de 2008

Por Eduardo Souza Lima
Tião, jovem diretor pernambucano, levou o seu “Muro” (foto) ao Festival de Cannes, mas não conseguiu levá-lo a Brasília. Pior ainda, como Brasília só aceita filmes inéditos, ele não o inscreveu no Festival do Rio e ficou a ver navios duplamente. Menos mal que vai dar para ver o filme aqui, no Curta Cinema 2008 - no domingo que vem, às 17:30h, no Odeon. Mas Tião perdeu no Rio a que talvez hoje seja a maior vitrine do cinema brasileiro.
Não são poucos os cineastas que já manifestaram o seu descontentamento com a exigência de ineditismo. Alguns já começam a protestar: Eduardo Valente, outro curta-metragista brasileiro que já passou por Cannes, não inscreveu o seu primeiro longa-metragem - chamar-se-ia “Vórtice”, mas parece que mudou - no festival, preferindo fazer a sua estréia em Tiradentes. Os organizadores do evento poderia ao menos abrir um diálogo com os realizadores.
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15 de outubro de 2008
Por Eduardo Souza Lima
A comissão organizadora do Festival de Brasília divulgou hoje os filmes selecionados para a sua 41º edição, que acontece de 18 a 25 de novembro de 2008. São seis filmes de longa-metragem, 12 de curta-metragem em 35mm e 34 em 16mm. Os de longa são “À margem do lixo”, de Evaldo Mocarzel (SP), “FilmeFobia”, de Kiko Goifman (SP), “Ñande Guarani (Nós Guarani)”, de André Luís da Cunha, (DF) “O milagre de Santa Luzia”, de Sergio Roizenblit (SP), “Siri-Ará”, de Rosemberg Cariry (CE), “Tudo isso me parece um sonho”, de Geraldo Sarno (RJ). A comissão de seleção, coordenada por Fernando Adolfo, diretor do Festival, foi formada pelos jornalistas Ana Paula Sousa, Daniel Schenker Wajnberg, João Carlos Sampaio e o documentarista e professor de cinema Marcos de Souza Mendes. Os seis filmes podem ser geniais, mas é uma lista radical (ainda mais do que a do Cine PE): são dois estreantes (André Luís da Cunha e Sergio Roizenblit) e quatro diretores que não chegam ao circuito ou chegam só de raspão. Foram 28 inscritos, mas ainda não deu pra saber ainda se esta foi uma decisão consciente ou se Brasília foi esvaziado pelo Festival do Rio - o que se sabe é que o maior ganhador de Candangos da História, Julio Bressane, preferiu o Palácio 1 ao Cine Brasília porque sua vitória lá no ano passado foi, digamos, muito contestada, e que “FilmeFobia” estava na primeira lista da Première Brasil. O Festival de Brasília ainda é o mais importante do cinema brasileiro, só que não é de hoje que muito cineasta quer competir lá apenas por causa do prêmio em dinheiro. O problema é que só aceita filme inédito e tem gente que prefere não arriscar ficar fora dele e do Rio.
Leia abaixo a lista de curtas em 35mm e 16mm selecionados. A última traz os nomes de curta-metragistas bem conhecidos, como Fellipe Gamarano Barbosa (de “Beijo de sal”), Allan Ribeiro (”O brilho dos meus olhos”), André Ristum (”De Glauber para Jirges”), Helvécio Marins Jr. (”Trecho”) e Miguel Przewodowski (”O Bispo do Rosário”), o que mostra que a bitola agoniza, mas não morre.
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