9 de novembro de 2009
(NOT) A LOVE SONG
(Alain Buffard, França)
Por Luiz Henriques
Muitos anos atrás, havia uma historinha contada no mundo do espetáculo quanto ao amor do brasileiro por musicais. Ele veria um cartaz no cinema anunciando “O maior musical do ano”, com “o maior astro de musicais” e com canções do “maior compositor de musicais”, entraria pra ver o filme e quando os atores começavam a cantar, se lamentaria, “ah, não, começou a cantoria”.
Mas isso foi antes de Charles Moeller e Cláudio Botelho. De cerca de quinze anos pra cá, o musical tornou-se um negócio lucrativo – talvez o mais lucrativo – nos palcos brasileiros. Tentando abocanhar uma fatia destes lucros, criou-se um mercado paralelo de produções com poucos atores dobrando em muitas cenas, uma seleção musical saudosista refletindo o gosto do criador e coreografias simples. Não, eu não estou dizendo que “(Not) A Love Song”, de Alain Buffard, seja assim. Falta acrescentar aquele clima pretensioso e desconexo de agressivos atores recém-formados que não estão dispostos a se vender ao sistema.
O espetáculo apresenta-se como o primeiro musical trágico (o que foi feito de “Cabaret”?), concentrando-se no sadismo nas relações com o outro, mas falta violência e pegada em toda a sua concepção, preferindo a saída fácil da ironia – qualquer sitcom da Sony está recheada de ironia quanto a relações amorosas. leia mais…
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30 de junho de 2009

Por Ângelo Fábio
A vida não passa de um esmeril polido e sensível. É como um jogo de cartas repleto de azares e às vezes sorte.
Como uma notícia ou certezas infames, na maioria das vezes elas, nos faz tão mal. É melhor que em muitos dos casos não sabermos de absolutamente nada.
Aos 68 anos, com um mar de contribuições não só para a dança, mas sim para toda a arte, parte para o descanso absoluto e desconhecido a coreografa e bailarina alemã Pina Bausch, que durante anos de sua vida se dedicou à dança e que desde 1973 dirigiu o Tanztheater Wuppertal.
A poucos dias de ter descoberto um câncer, morre na manhã do dia 30 de junho de 2009.
Que nossos olhos não se encharquem de lágrimas, mas sim que nossos corpos estejam repletos de movimentos para bailar a vida. Bailemos para esta notável mulher e que o orixás tenham guardado sua casa.
Evoé, Pina. Que descanse em paz.
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28 de junho de 2009

Por Luiz Bello
Quando penso em Michael Jackson, me lembro daquele filme do Woody Allen, estrelado por Sean Penn, (Poucas e boas,1999) sobre o “segundo maior violonista de jazz do mundo”, uma comédia que adquiriu tons um pouco trágicos por causa da (boa) atuação do ex-marido de Madonna. A principal mensagem que o filme me deixou foi: grandes artistas também podem ser grandes filhos da puta. É claro que o inverso não é necessariamente verdadeiro, como mostra a personagem da foto acima, mas isso é outra estória.
Não dá para perdoar abuso infantil. De vítima, Michael passou a algoz, subornando meia dúzia de famílias para ter crianças passando uns tempos com ele, na Terra do Nunca… Talvez por isso tenha se livrado tão facilmente dos consequentes problemas com a Justiça. Da mesma forma que, despejando mais um pouco de dólares, arrumou quem lhe aplicasse demerol em domicílio.
O garoto negro que esbanjava talento foi perdendo a cor e a beleza, através de muitas plásticas e tratamentos suspeitíssimos, só acessíveis a quem tem dinheiro e loucura de sobra. Com sua morte, envolta nessa neurótica medicina de ricos, sobram dívidas e grana em litígio. Seus três filhos vão precisar de muita sorte.
Mas quando penso na minha juventude, é impossível não lembrar de suas singelas melodias e espetaculares performances em vídeo, recordes de audiência mundo afora. Ele foi, talvez, o mais bem sucedido empreendimento da indústria pop e está presente na memória afetiva de milhões, nos quatro cantos do planeta. Das muitas homenagens flagradas por celulares e CNNs, a que mais me impressionou é tão bizarra quanto o homenageado, e vinda de um monte de gente que também não foi perdoada. Vai em paz, Michael. Acerte suas contas com o Menino Jesus.
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9 de novembro de 2008

TIERRA DE MANDELBROT e PLANO DIFUSO
(Edgardo Mercado, Argentina)
Por Luiz Henriques
Os efeitos de projeção que Edgardo Mercado consegue em seus espetáculos são sensacionais. Em “Tierra de Mandelbrot”, principalmente, ele desconstrói a figura humana num efeito similar ao cubismo. E o uso de perspectivas forçadas, sobreposições inesperadas e repetições dos gestos no fundo consegue uma desorientação do espectador quanto ao corpo e ao movimento.
O corte e recorte das bailarinas (que aparecem nuas e sem pêlos púbicos apenas muito rapidamente) através de linhas retas que parecem escaneá-las, a precisa projeção de pixels que desmontam suas formas e as despersonalizam numa grande de pontos, seus rostos inexpressivos, a economia dos gestos, sempre acabando por levá-las ao chão, transmitem uma gélida sensação de desumanização, como se Mercado quisesse transmitir um quieto desespero pela ascensão da máquina e da tecnologia sobre o espírito humano.
Essa leitura, entretanto é contradita pela própria estética do espetáculo, inegavelmente celebrando a beleza do corpo humano desconstruído digitalmente. É este tipo de paradoxo que costuma aborrecer o blogueiro, que realmente apreciou os efeitos conseguidos com o barateamento dos projetores DLP e do poder de processamento. Particularmente interessante foi a sobreposição de figuras filmadas dos bailarinos sobre os próprios, recriando ao vivo o “rastro” que Norman McLaren celebrizou em seu curta experimental “Adágio” (e depois foi imitado à exaustão por programas de tevê). Num desses momentos, a imagem do dançarino gira sobre o próprio parado em cena, inegavelmente impressionando a platéia. Também há coreografias com as bailarinas passando sobre e sob suas doppelgangers digitais que chegam quase à perfeição de hologramas.
Em suma, com um pouco menos de elegância impassível e um pouco mais de genuína alegria, o blogueiro comungaria mais com os artistas que criaram um belo espetáculo, mas que acabam celebrando apenas o corpo humano e a máquina, deixando em segundo plano o espírito, justamente o que impressionou mais no quase adolescente (no bom sentido) “A glimpse of hope”.
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1 de novembro de 2008
http://www.vimeo.com/1980989
A GLIMPSE OF HOPE
(Deja Donne, Itália)
Por Luiz Henriques
Umas postagens abaixo tem um texto da Leandra Leal reclamando que não querem saber o que os jovens da geração dela têm pra falar. Não é bem assim. Ninguém nunca se interessou no que os jovens de qualquer geração tinham a falar.
Pra ser ouvida, a garotada dos sempre citados anos 60 teve que tomar de assalto o subproduto jovem mais rasteiro da cultura de massa – o rock – e subvertê-lo. Sempre que a juventude resolve se apoderar do (normalmente) lixo que a indústria cultural reserva para o seu segmento de mercado, é obrigada a ouvir que aquilo é uma porcaria, um barulho, uma bobagem, uma pieguice. Foi assim com o rock, com o punk rock, com o rap, com a música eletrônica, até mesmo a própria Internet, a coisa potencialmente mais iluminista e engajadora que já apareceu, já foi acusada de alienante. Alienante são as sugestões de “Veja” quase toda semana na capa do tipo “o curso que seu filho deve começar a fazer aos 7 anos para ter emprego no mundo de amanhã”. Como se o povo que ficasse estudando milhões de cursos e fazendo pós-graduações e MBAs fosse quem se desse bem na vida. Pensar realmente se aprende na escola, mas não num seminário “liderança e relações humanas no ambiente de trabalho” ou similares.
É por isso que foi ótimo ter ido ver a apresentação de “A glimpse of hope”. O blogueiro confessa que quando viu que não era recomendado para menores de 18 anos, ia ter mulher pelada e, como Pedro Cardoso condenou a nudez apenas na tevê e no cinema, liberando portanto teatro e dança (segundo o valente editor Zé José, seria porque ele acha que apenas pobre não tem direito de ver mulher pelada), não haveria problema ético algum. Não rola nem peitinho, mas ainda assim o espetáculo roda rápido e o tempo passa voando. Como sói acontecer quando se é jovem.
E “A glimpse of hope” é uma celebração da juventude. Enérgico, dinâmico, com uma sensualidade agressiva e inexperiente. O cenário, os figurinos e parte da coreografia remetem mesmo a “West Side Story”, que tinha as mesmas preocupações de estetizar a adolescência, mas seus autores cometiam o erro de muito artista brasileiro - em vez de mostrar uma gangue de rua da época do filme, mostravam uma gangue de rua saída diretamente de “Beco sem saída”, filme dos anos 30 com uns pivetinhos edulcorados que fizeram tanto sucesso que foram reaproveitados em outro filme com Humphrey Bogart e viraram depois trupe de comédia. (continua aqui)
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