10 de março de 2010

Por Dandara Palankof
(Provavelmente esta introdução se faz desnecessária, mas minha prolixidade quase que patológica me obriga a dizer que sim, tenho consciência de que o fenômeno a ser descrito logo a seguir acontece em qualquer lugar, afinal de contas somos bichos; mas bichos plurais e, logo, de nichos plurais.)
Sempre mudam, mas sempre há aquelas localidades que fazem sua cidade parecer ridiculamente pequena. Um determinado espaço em que, seja lá que dia da semana for, sempre terá quorum e no qual sempre haverá reconhecimento, ainda que vago. Pode ser só um bar, mas geralmente é um coletivo deles que acolhe esta qualidade de agregação pseudo-universal com mais facilidade.
Pense na paulistana R. Augusta se a idéia ainda não ficou bem clara. Como brasiliense de criação, tive não uma rua, mas uma quadra. A 408 Norte, com a inegável vantagem de estar a meio caminho da UnB e do Iesb (uma dessas faculdades que dão certo), foi este meu local-ovo durante boa parte de minha juventude. leia mais…
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3 de março de 2010

Por Dandara Palankof
Dizer que o Recife é uma cidade violenta é tão lugar comum que não vale nem a pena se estender muito sobre números ou coisas do gênero. Uma busca rápida no Google e você já acha o PE Body Count, por exemplo; igualzinho ao que existe no Rio de Janeiro, que por sua vez é uma versão do que fizeram para contar os mortos na guerra do Iraque. Mais um pouco e você consegue encontrar uma série de notícias, seja sobre vítimas e ocorrências, seja sobre o que se pretende fazer quanto a isso (nada realmente efetivo, diga-se de passagem).
O que se pode comentar são as razões. Fora também do lugar comum de ser uma cidade com imensos bolsões de pobreza e cada vez mais tomada pelo crack, que está simplesmente transformando uma parte significativa da população em, bom, zumbis (e o pior que nem ao menos são os do Romero, lentos, que lhe dão mil oportunidades de esmagar a cabeça deles; são tipo aqueles de Extermínio, o filme do Danny Boyle, no qual eles são rápidos e ensandecidos; enfim). leia mais…
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24 de fevereiro de 2010

Por Dandara Palankof
O carnaval foi embora; podemos dizer que o ano finalmente começou. Pela primeira vez em dias me sinto de volta ao Recife em si, agora que o que se respira não é mais apenas festa. A atmosfera da rotina é palpavelmente díspare com relação à euforia que se vinha vivendo há semanas, praticamente desde janeiro. É até bom; a verdade é que por mais que recifenses amem muito tudo isso, a ressaca é logicamente tão grande quanto a festa, e faz com que todo mundo nem ache a quarta-feira tão ingrata assim, a despeito da canção. Não que alguém vá admitir isso.
Foi-se a baderna, ficou o bom e velho caos. As ruas sujas, as horas de rush, as calçadas intransitáveis e, claro, o trânsito. O grande flagelo das metrópoles modernas; e se em Brasília, com suas ruas largas e planejadas, a coisa já tá ficando feia, por aqui é que não ia ser diferente (ainda que algum espertinho possa, e com razão, questionar a classificação de Recife e Brasília como metrópoles, mas isso é outra história). Dia desses, me disseram que a “Veneza Brasileira” foi eleita uma das capitais mundiais a serem visitadas antes de ruírem sobre si próprias. Pode ter certeza que vai ter muito carro nessa ruína. leia mais…
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10 de fevereiro de 2010

Por Dandara Palankof
Esta casa aqui perto da linha do Equador nem anda parecendo tão tropical assim. Não tem necessariamente chovido, mas o sol anda ligeiramente escondido desde que voltei ao Recife, há alguns dias. O que não significa que o verão não está em todo lugar. Você sente que as pessoas estão até mais bem-dispostas. A expectativa do carnaval é tão intensa que chega a ser quase tangível.
Não, este não é um mea culpa relativo ao primeiro Bolo de Rolo servido por aqui. Continuo sustentando (pelo menos quase) todas as minhas opiniões acerca do comportamento recifense, seja com relação ao carnaval ou a todo o resto. Mas fui totalmente mal interpretada com relação a uma coisa:
Eu nunca disse que não gostava do carnaval de Recife.
Muito pelo contrário. Eu não gostava de carnaval quando morava em uma cidade na qual as possibilidades eram restritas a festas de axé, blocos que geralmente desfilavam sob uma chuva torrencial (é época de chuvas em Brasília ou, ao menos, deveria ser, porque a água caiu bem menos do que devia. Uns com tanto, outros com tão pouco…) ou ficar em casa assistindo ao desfile das escolas cariocas e paulistas, porque os botecos inacreditavelmente fecham cedo. leia mais…
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3 de fevereiro de 2010

Por Dandara Palankof
Como nas últimas eleições eu ainda residia no Planalto Central, acho bem propício admitir publicamente que o bastardo também me enganou. Ora, há muito que eu já não compartilhava das idéias dos coleguinhas que votavam no PSTU e consideravam que se pode passar imaculado pelos joguinhos de poder. Pois bem, o cara teve acesso a uma lista sigilosa ― essas votações, a meu ver, nem deveriam sê-lo, mas isso é outra história; elas o são, foi antiético, mas se você precisasse se fortalecer no cenário político, ia contrariar o ACM? Assim, de graça? Pense bem antes de responder.
Era um delito menor. Ainda assim, um delito, que deveria ser punido. E o foi. Em termos, pelo menos. Pela retirada estratégica, que seja, mas foi, o Collor não fez praticamente a mesma coisa? Pois bem, então estamos em 2006, o velho coronel Joaquim Roriz tinha sido inocentado de mais algumas dezenas de acusações de uso da máquina pública porque haviam apenas “indícios, não provas”, e resolveu apoiar sua vice, Maria de Lurdes Abadia, para substituí-lo no GDF. Não me pergunte que briga de comadres levou o coronel a deixar seu pupilo Arruda seguir sozinho, mas ele foi lá e apresentou umas propostas de urbanização e segurança pública bem decentes; a deputada Arlete Sampaio, candidata do PT, não tinha a menor chance com o eleitorado das classes C e D, que sempre ganharam as eleições pro Roriz (vale-terra, vale-gás, vale-pão-e-leite, vale tudo no assistencialismo barato). leia mais…
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27 de janeiro de 2010

Por Dandara Palankof
Brasília é várias cidades. Mas não em uma só. Aquela máxima construída para retratar algumas capitais cosmopolitas, de que vários povos se unem decididamente não serve pra capital federal. Durante um certo tempo relutei em aceitar, por acreditar que era algo que estava prestes a mudar. Mas a verdade é que o Distrito Federal ainda é um lugar de segregação institucionalizada.
Me dei conta disso neste último domingo, quando me vi às 18h no centro de Taguatinga, cidade satélite a 19km do Plano Piloto. Precisava voltar pra casa, na Asa Norte, e lá fui eu para o ponto de ônibus. Foi simplesmente novo. Várias lojas abertas, um sem-número de pessoas nas ruas, entupindo as três paradas de ônibus paralelas. Falando em ônibus, nunca havia visto tantos de uma vez só por aqui. O curioso é que a maioria das linhas transitava entre os vários setores nos quais a enorme e independente Taguatinga se divide: para as Asas, as linhas rareavam (menos para a Rodoviária). leia mais…
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20 de janeiro de 2010

Por Dandara Palankof
O centro de Brasília, ali por perto da Rodoviária, possui dois setores que são curiosamente chamados de Setor de Diversões Sul e Norte (SDS e SDN, respectivamente, porque tudo aqui funciona com base em siglas). O curioso se dá no tipo de diversão que se pode encontrar no setor de diversões. Não há, digamos, muitas opções. Mas vá lá, toda cidade tem direito às suas contradições, não é mesmo?
Poderia-se dizer que o lado norte possui relativa vantagem por lá se localizar o Teatro Nacional, mas com os ingressos para qualquer coisa no lugar custando um braço (com raras exceções, como as apresentações gratuitas de sua Orquestra Sinfônica, sempre cheias), tal afirmação seria uma inverdade. De resto, temos o Conjunto Nacional, mais antigo dos incontáveis shopping centers que infestam a capital federal: o passatempo preferido da maioria dos brasilienses, por afirmarem que não há mais nada pra se fazer por aqui. Engraçado que nós possuímos, por exemplo, o maior parque em área urbana da América Latina, conhecido pela simples alcunha de Parque da Cidade, mas é muito mais cômodo levar a pirralhada pra comer um McLanche Feliz. leia mais…
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13 de janeiro de 2010

Por Dandara Palankof
Há alguns dias, um pouco depois das 23h. Lá estava eu, na 503 Norte; avenida W3. A parada de ônibus era escura e estava completamente deserta. O trajeto que eu precisava percorrer não era assim tão longo: chegar ao final da avenida, fazer o contorno no final da Asa, e assim chegar à sua contraparte, a L2 Norte, vencer mais algumas quadras e descer no ponto da 409 Norte; cerca de 8km. A verdade é que se eu o fizesse a pé ele seria encurtado em pelo menos 2km; coisa que já fiz muito na vida, mas o cansaço e as circunstâncias (alcoólicas) não me impeliam a fazê-lo. O resultado? Esperar 40 minutos por um ônibus que me deixaria perto de casa em, no máximo, 15. Respirei fundo e me senti brasiliense novamente.
A velha dificuldade do transporte público da capital federal… talvez a única reclamação unânime entre moradores e visitantes. Um sistema completamente deficiente, dominado por (mais uma) máfia, formada por gente como Nenê Constantino (dono de várias empresas rodoviárias que aqui operam, um dos donos da GOL e recentemente indiciado como mandante de um homicídio, alguém se lembra?); que não atende às necessidades de sua população e acaba por causar a incrível média atual de dois carros por habitante em Brasília; temos atualmente um Distrito Federal inchado por quase 3 milhões de pessoas; quando a cidade foi construída, previa-se para esta década metade disto. Faça as contas. leia mais…
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6 de janeiro de 2010

Por Dandara Palankof
Para os detratores, Brasília simplesmente não parece orgânica. Toda a ordem com a qual foi construída parece lhe tirar uma espécie de magia que possuem as outras cidades em meio ao seu crescimento regido pela pura e simples desordem. Ainda que eu não concorde totalmente com tal assertiva, também não lhe desmereço por completo. Vejo que cada cidade tem o encanto que lhe cabe, tão somente.
De qualquer forma, para aqueles que sentem falta de um pouco de caos em Brasília, convém visitar a Rodoviária do Plano Piloto; hão de se sentir em casa. O maior terminal de ônibus urbano do DF é uma dessas cornucópias hipnotizantes de gente, cheiros, sabores (sim, sim!) e sons que podem encantar ou enlouquecer você, dependendo de seu humor. As minhas reações, ao menos, sempre transitaram entre estes extremos. E sim, já voltei a experimentar ambas nestes meus poucos dias de regresso. leia mais…
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30 de dezembro de 2009

Por Dandara Palankof
“E só tende a piorar”. O comentário não me foi feito por uma pessoa apenas. Várias o fizeram, quando de minhas reclamações sobre o estado de conservação de nosso querido avião modernista. Porque quando voltei pra esta casa de mãe que Brasília é pra mim, semana passada, esta foi a sensação que tive: estão acabando com a cidade. O lugar no qual tive uma infância quase idílica, que eu esperava proporcionar aos meus próprios rebentos, quando viessem, pode acabar não tendo muito do que eu prezava nos próximos anos.
Décadas de desgoverno. Não dava bem pra esperar outra coisa, no fim das contas. A triste verdade é que o que tem acontecido em Brasília nos últimos tempos não é novidade. O governo do Distrito Federal é uma máfia desde os tempos em que nosso representante máximo era “biônico”, escolhidos pelo governo federal. Tudo, tudo o que há de errado nessa cidade começou quando o Sr. Joaquim Roriz assumiu pela primeira vez o seu comando. leia mais…
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16 de dezembro de 2009

Por Dandara Palankof
É um dos meus clichês favoritos, a velocidade desapercebida com a qual o tempo passa. “Os dias tão devagar, os anos tão depressa”, como naquela história de O Quiosque da Utopia (do José Carlos Fernandes; Portugal também faz quadrinhos fabulosos). E assim, sem mais nem menos, foi-se embora mais um ano de vivência recifense. Na próxima semana, este espaço será preenchido por palavras escritas diretamente do Planalto Central: férias com a(s) família(s) que deixei por lá. Voltar ao horizonte e sujar os tênis de barro, um pouquinho; ainda é época de chuva em Brasília.
(Talvez seja por isso que ainda recuso este espírito libertino que os recifenses deixam fluir, principalmente quando o verão se aproxima e, como disse uma amiga, o calor reflete do chão subindo diretamente pelas pernas. Meus verões, depois que as férias que passava aqui deixaram de com eles coincidir, passaram a não ser tão ensolarados justamente quando me era necessário este calor. “Vocês são muito tropicais”, eu digo. Ainda não desaprendi a ser só árida ou chuvosa)… leia mais…
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9 de dezembro de 2009

Por Dandara Palankof
Veja você, me fizeram ter muito medo de Recife. Sim, os dados estão aí pra comprovar que esta é uma das capitais mais violentas do país — apesar de este ter sido um bom ano, com redução em todo o ano no número de assassinatos; até desligaram o infame body counter patrocinado por uma faculdade particular da cidade. Mas enfim: com fatores como a iluminação precária na maior parte da cidade e muitos alertas preocupados dos amigos que já achavam a estrangeira aqui insana o suficiente por carregar um iPod no bolso mesmo que em plena luz do dia, acabei ficando bem receosa de circular pela cidade depois das 22h. leia mais…
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2 de dezembro de 2009

Por Dandara Palankof
Eu sempre disse a mim mesma, desde que cheguei em Recife, que tiraria alguns dias pra realmente conhecer a cidade. Isso significa basicamente sair de sua margem de segurança: ir a lugares que você só ouviu falar, por exemplo. Tomar um ônibus que você não saiba nem pra que direção vai. E sozinha (a não ser que a outra pessoa não seja um “nativo”). Se você vai acompanhada por alguém, acaba ficando suscetível aos caminhos desta pessoa. Conhece uma rota, não o lugar.
E mesmo realmente querendo tomar esse tempo pra entrar no primeiro ônibus desconhecido que passasse, é muito difícil sair da zona de conforto depois que se estabelece uma rotina. Você estuda em determinado lugar e sabe como chegar porque assim lhe foi orientado. Você trabalha em tal bairro e sabe quais ônibus tomar, tendo tudo sendo explicado no primeiro dia. Vai encontrar seus amigos em determinados lugares, que conheceu ao ser levado por eles até lá. Tudo sem reparar nos arredores, no caminho em si e nas alternativas. Quando você precisa descobrir por si mesmo como se achar é que as coisas ficam realmente divertidas.
Dia desses fiz quase isso. Percebi que o Recife é muito mais bonito nos lugares dos quais ninguém fala. leia mais…
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25 de novembro de 2009

Por Dandara Palankof
Eu não sei se algum leitor já notou, mas eu sou o que pode ser considerada uma nerd. Numa mistura das acepções clássica e moderna do termo, o que quer dizer que me restam algumas habilidades sociais e um gosto notório por farra. Mas, ainda assim, eu sou uma nerd e tenho várias camisetas que provam isso.
Adoro filmes de ficção científica, curto bastante fantasia medieval, sou fã de música pop (principalmente o rock pós-punk, dos anos 80 até hoje), acho desenho animado, seja japonês ou ocidental, uma coisa linda de Deus, assisto a uma infinidade de seriados, se pudesse gastava metade de meu orçamento com memorabília e, o principal: sou leitora assídua e defensora entusiasmada da expressão artística que mais se desenvolveu nos últimos 30 anos: as histórias em quadrinhos. leia mais…
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18 de novembro de 2009

Por Dandara Palankof
Perdi minha última chance, em tese, de ir ao estádio ver o Flamengo jogar, pelo menos até 2011. O rubro-negro carioca, para o qual fui ensinada a torcer por meu segundo pai (eu já falei de futebol numa coluna anterior) veio a Recife enfrentar o Clube Náutico Capibaribe e, por uma série de razões desencontradas, não pude conhecer o estádio dos Aflitos e ver meu time derrotar a “Barbie”.
Porque é assim que os torcedores do Sport, o maior rival do alvi-rubro, chamam o Náutico. É como se ele fosse o equivalente ao São Paulo aqui em Pernambuco; e se você continuou sem entender, o fato é que quando um time é considerado de elite, logo já querem fazer inferências à sexualidade de toda uma torcida. Convenhamos que é o cúmulo da tribalização da coisa, e é esse tipo de comportamento que acaba afastando as pessoas de um esporte tão bonito como o futebol. leia mais…
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