26 de setembro de 2008
Capítulo 5: Plano C
AVENTURAS DE UM ZÉ PEREIRA
Por João Ximenes Braga
“Sujeito-homem de cu é rola, eu sou sujeito-burro, isso sim”. Foi a primeira coisa que passou pela cabeça de Zé Pereira quando reconheceu o anel de Cláudia. Em sua defesa, Zé havia consumido quantidades industriais de tequila quando o comprara, anos atrás, de um cabeludo raquítico que vinha perturbá-los no mexicano da Cobal do Humaitá.
Uma vez que lembrou do anel, lembrou também que o presente não tivera qualquer intuito romântico. Comprou-o do riponga da mesma forma que teria comprado um chiclete dum moleque, uma rosa dum velhinho, uma rifa duma surda-muda. Ele nunca dizia não a ambulantes ou pedintes que o abordassem em mesas de bar por achar que, se o fizesse, estaria se nivelando ao povinho Zona Sul que torce o nariz para o nariz melecado dos pivetes que se achegam. Em Cascadura não tem dessas viadagens, porra.
Mas a intenção ao comprar o anel não fazia a menor diferença agora, nesta mesa do Nova Capela em que Cláudia espalmava a mão exibindo o anel com ar vitorioso. Quando lhe disse que percebera “a aliança no dedo”, Zé abriu um flanco enorme. Explicitou a Cláudia o quão longe ainda estava de se sentir indiferente.
Ao mesmo tempo, Cláudia também abriu um flanco enorme ao demonstrar que, anos depois da separação, ainda usava um presente dele.
E agora, José? Pelo menos meio segundo já se fora, ele tinha pouco mais de um segundo para falar alguma coisa antes de passar tempo suficiente para caracterizar a situação da mesa como silêncio constrangedor. Era muito pouco para decidir sua estratégia. Defesa ou ataque?
Plano A. Zé arma as sobrancelhas com um esgar condescendente.
- Foi mal, esqueci. Você sabe que minha memória não é lá essas coisas, meu conhecimento de bijuterias, então… Pensei que era uma aliança porque tinha esperança que a esta altura você já tivesse acertado a sua vida, que estivesse casada. Ia ser bom pra você, sinal de que talvez você tivesse conseguido superar aqueles seus problemas de ninfomania, não que eu seja moralista, sacumé, longe de mim querer insinuar que você seja uma rameira, mas do jeito que você ia, transando com salva-vidas em carro, podia acabar com alguma doença, ou pior, emprenhada dum jogador de futebol de time de várzea.
Plano B. Zé abre o sorriso sincero.
- Você… ainda usa o anel que eu te dei? Imaginei que a essa altura… Cláudia, você… Ainda não me esqueceu, esqueceu? Será que a gente ainda podia…
Zé sabia que só tinha meio segundo para definir sua expressão facial e abrir a boca antes que se caracterizasse o silêncio constrangedor e a falta de ação, e sabia que um sujeito-homem sempre parte para o ataque, nunca recua para a defesa, jamais. Eram suas duas únicas certezas. Daí em diante, só dúvidas: o que ali seria ataque? Plano A ou B? Abrir o flanco, expor suas fraquezas na mesa como uma travessa de fígado acebolado aperitivo? Ou se impor, chamar a vaca na xinxa e jogar na cara o que ela realmente é? Pouco tempo, muito pouco tempo para decidir qual desses planos tinha menos cara de recuo.
Se ele pudesse fazer um gráfico, pegar uma caneta e desenhar sobre o papel da mesa, que apesar de molhado pelo suor dos copos de chope ainda tinha espaço suficiente para uma lista de prós e contras, se pudesse antecipar a reação de Cláudia, se ao menos tivesse como confirmar se Marcelinho era seu namorado, foda do dia, melhor amigo gay, primo recém-chegado de Minas …
O tempo já se esgotara e Zé Pereira se via diante do Plano C, talvez o que, dentre todos, mais o caracterizasse como sujeito-homem: retroagir aos seus 12 anos, enfiar as mãos e as emoções no bolso e sair dali correndo. A salvação veio de quem menos esperava. Um pentelhésimo de segundo antes de Zé se conformar em fugir, Marcelinho voltou à mesa e se sentou.











