Aristocracia Carioca

26 de setembro de 2008

Júlio Miranda: Um olhar em off

ARISTOCRACIA CARIOCA

Texto: Laura Erber
Fotos: Gustavo Stephen

 

Que a experiência do espectador seja algo inventivo e ardente, muitos autores dos anos 70 não cessaram de nos fazer lembrar, desmistificando a idéia de consumo passivo que, infelizmente, continua a mover grande parte da produção comercial em literatura e cinema. Desde o seu surgimento o cinema chamou atenção pelo seu impacto sobre o público, produzindo e provocando sensações intensas de medo, vertigem, tensão e sofrimento. Junto a essa exacerbação afetiva e sensorial que a projeção na sala escura sempre promoveu, surgiu também uma insaciável e nova forma de fascínio ou amor vicioso a que alguns batizaram de cinefilia.

Embora recuse veementemente – e não sem motivos, como veremos – o epíteto “cinéfilo”, Júlio Miranda é um carioca que conduz com admirável tenacidade o seu interesse pelo cinema em suas diversas linguagens e épocas.

- Sinto como se estivesse há quarenta anos fazendo filmes, vivendo filmes, vivendo sob o efeito deles”, afirma Júlio durante uma conversa na atual sede da videoteca Polytheama no Largo de São Francisco, Centro do Rio. E desde já, devemos ter o cuidado de não tomar as falas de Júlio como uma compensação ou lamento platônico, pois elas transportam um sentido amoroso, a intimidade de quem se projeta no centro criativo daquilo que admira.

- Eu quero sentir por dentro do filme, viver o interior do filme.

E é para melhor sentir os filmes pelo seu interior que Júlio começou a compor, com o cineasta Joel Pizzini, algumas “seqüências poéticas do cinema”. Funciona da seguinte maneira: os dois selecionam cenas de filmes que, pela força poética e plástica, podem ser vistas fora do contexto dos filmes de onde foram descoladas. Não há uma norma fixa ou paradigma definindo o que é poético de antemão, o que faz com que o conjunto final seja dissonante e nada dogmático:

- Adoro captar cenas e seqüências, você descobre coisas fantásticas, por exemplo quando fiz isso com “Vidas Secas” fiquei impressionado com as composições dos quadros, é tudo muito bem armado para os olhos passearem naqueles lugares desolados que o filme mostra. Aliás, com “Vidas Secas” tem uma outra coisa incrível, se você pegar o texto original do Graciliano Ramos e ler olhando o filme você percebe que o ritmo e o tempo das frases do romance é igual ao ritmo do carro-de-bois no filme, isso mostra uma sensibilidade tremenda da parte do Nelson Pereira, que nesse caso é também um leitor muito sensível.

Não é por acaso que em dezembro de 2003 Júlio recebeu o prêmio UNESCO de Cinema Arne Suksdorff, destinado a pessoas que contribuíram para o desenvolvimento dessa arte. Além de possuir um acervo de mais de seis mil títulos em VHS e dois mil e quinhentos em DVD, Julio guarda em seu acervo particular, cerca de dois mil filmes em VHS e mil em DVD. Tudo isso escolhido com muito rigor, fazendo com que esse poderoso acervo se convertesse em uma importante referência junto a estudantes de cinema, professores, críticos, diretores, atores e atrizes que vivem no Rio de Janeiro. Mas o papel de difusão da Polytheama não pode ser entendido descolado da contínua e ininterrupta difusão que Julio faz por meio de conversas, telefonemas, e-mails aos amigos e claro, nas mostras que realizou nesses vários anos, dentre as quais se destacam Fassbinder: O Anarquista da Fantasia, De Caligari a Hitler (sobre o expressionismo alemão) no Centro Cultural Banco do Brasil. Os que o conhecem já experimentaram o seu modo singular de compartilhar os filmes vistos, discutindo minuciosamente personagens, fotografia, iluminação, cenografia, revelando detalhes quase imperceptíveis dentro de uma seqüência, cena ou plano.

E foi justamente pra manter a possibilidade de diálogo que surgiu a vontade de organizar cineclubes depois que a locadora deixou de ter uma loja. Durante seis anos Julio foi o responsável pela programação de vídeo do Centro Cultural Oduvaldo Viana Filho (Castelinho do Flamengo) e por dois anos organizou e apresentou o Cineclube Arte no SESC do Flamengo.

Embora tenha organizado cineclubes durante os anos 60 enquanto cursava engenharia na Escola Nacional, foi nos anos 80, com a chegada do VHS que o acervo decolou. A Polytheama começou nos moldes de uma videoteca comercial em 1989, como um projeto de parceria com os amigos Elmar de Mello, Bento Sergio Leitão Pamplona, e o crítico José Carlos Avellar. Inconformado com a oferta de filmes do mercado, Júlio decidiu orientar as compras quase exclusivamente para filmes de arte, clássicos e de vanguarda. Segundo ele, esse critério seletivo na aquisição não apenas diferenciou a locadora mas atraiu muitos profissionais de cinema, (diretores, fotógrafos, montadores, roteiristas e professores) que passaram a ter com a Polyhteama uma relação mais próxima.

– Com o tempo, programas de TV e produtoras, passaram a procurar a Polytheama, não só para locação mas também como consulta e pesquisa – afirma Júlio.

Em 1967, ainda estudante de engenharia, Júlio e alguns colegas de turma se lançaram na realização de um documentário sobre a mudança da Universidade Federal do Centro do Rio para o Campus do Fundão. “Fundão, ano 20”, como foi chamado, discutia a precariedade das instalações da Universidade, o Campus do fundão na época já completava 20 anos de funcionamento e já estava bastante deteriorado.

– Nós queríamos mostrar o isolamento que o lugar criava, questionar aquele projeto grandioso que queria deixar os estudantes ilhados e cercados por edifícios da marinha, da aeronáutica e do exército. O Hospital das Clínicas já naquela época era um tremendo elefante branco, e já se sabia que aquilo nunca iria funcionar direito. Mas a finalização do filme foi muito precária, gastamos todas as nossas economias na filmagem e nem moviola a gente tinha, montamos num projetor de 16mm, mas o filme acabou sumindo porque a narração era do Carlos Alberto Muniz da UNE que começou a ser muito perseguido pelos militares, então tivemos que esconder o material e as bobinas acabaram sumindo… – conta Júlio rindo do próprio infortúnio, e afirma que a perda não foi tão traumática pois se sente plenamente feliz como espectador.

Foi também nos tempos de mobilização política na faculdade que Júlio criou o seu primeiro cineclube:

– Foi a política que primeiro me levou ao cinema, quer dizer, não, na verdade primeiro foram as mulheres, eu ia ao cinema procurando coisas eróticas… até que um dia, entrei num filme que tinha um cartaz muito sedutor, que tinha um anúncio que mostrava uma garota sexy de cabelo bem curtinho beijando um cara, pelo cartaz eu achei que devia ter uma transa no filme… Mas foi aí que levei um susto, era cinema mesmo! Não precisava de cena de sexo era muito impactante, era o “Acossado” do Godard e eu saí da sala perturbado, intrigado mesmo, foi aí que me apaixonei pelo cinema no sentido que eu o entendo hoje.

Numa entrevista de 1977, o escritor Roland Barthes afirmava que todo enamoramento se faz em torno de uma imagem. “Nunca estamos apaixonados a não ser por uma imagem”, dizia. Sobre Júlio se poderia dizer que está sempre apaixonado por uma imagem e que gira em torno dela muitas vezes, e nessas voltas busca sempre intelocutores com os quais compartilhar suas descobertas. É o que testemunha o cineasta Eryk Rocha:

- Júlio me apresentou novas possibilidades de aproximar questões vitais ao cinema, criando outras possibilidades de leitura entre imagem e experiência, ele consegue mostrar de forma muito sincera de que maneira o cinema não se limita a ser só uma manifestação cultural. Além disso é um grande amigo que interferiu diretamente na minha formação cinematográfica, As conversas com ele não são sobre cinema, são o próprio cinema em movimento, aliás ele é um belíssimo e complexo personagem de um longa enigmático. Mas quem vai filmar? – provoca Eryk.

Outro interessante depoimento sobre essa convivência vem de Tatiana Carvalho, que começou a freqüentar a Polytheama aos 14 anos e atualmente vive em Rochester (EUA) onde conclui sua especialização em Preservação e Restauração de filmes:

- No início dos anos 90 eu cursava o segundo grau e comecei a me interessar muito por cinema, mas havia poucas locadoras interessantes no Rio. Eu procurava um lugar que oferecesse mais opções, com filmes antigos e raros, foi então li um artigo no jornal sobre a Polytheama, uma locadora em Copacabana que tinha coisas como “O gabinete do Dr. Caligari” do Robert Wiene e “A Paixão de Joana D’Arc” do Dreyer que ninguém mais tinha. Quando Júlio percebeu que meu interesse era por esses filmes me recebeu de maneira muito especial. E claro, também era um privilégio encontrar o José Carlos Avellar na locadora. Depois conheci a Lúcia, sua mulher e companheira, que de noite recebia os sócios com chazinho e chocolate quente.

Para Tatiana a Polytheama teve um papel fundamental na sua trajetória profissional, depois de formar-se em jornalismo ela decidiu cursar Cinema na UFF e logo se especializou em restauração:

- A influência do Júlio e da Polytheama nessa minha decisão foi determinante. Muitas coisas de cinema, que agora fazem parte de mim, eu só conheci, vi e revi por intermédio do Julio. Perco a conta de quantas vezes ele me ligou e disse: “Tatiana, consegui um filme maravilhoso, você vai ver que beleza!”, às vezes com descrições apaixonadas de cenas.

Durante uma de nossas conversas perguntei a Júlio se o seu modo de viver e conviver com o cinema fazia dele um cinéfilo:

- Quem me define como cinéfilo são os outros, eu nunca me defini assim. Também não gosto de listas de filmes prediletos – e acrescenta: – Esse meu interesse pelo cinema como arte surgiu nos tempos em que eu cursava a Escola Nacional de Engenharia, mas não era um interesse só de ficar olhando, eu queria descobrir o funcionamento da cabeça do cara que imaginou aquelas imagens – e acrescenta: – …o cinéfilo é um tarado, é um voyeurista que só gosta de olhar, detesto ser chamado de cinéfilo.

O que está sendo criticado aí é uma cinefilia alienante, dos que vêem muito mas mal, cegados pelo excesso de visão. Cinefilia, talvez de fato não seja o melhor termo para definir a relação transbordante que estabeleceu com o cinema esse carioca, nascido no Andaraí, que foi durante a infância e adolescência um assíduo freqüentador das salas que um dia existiram na Praça Saens Pena.

- Onde hoje vemos uma igreja, uma filial das Casas Bahia ou outra loja qualquer desse tipo, ali existia o Metro Tijuca, o Tijuquinha, o Carioca, Cinema Olinda, América.

Julio freqüentou todos eles e ainda é capaz de dizer sem piscar qual das salas tinha cadeira estofada, ou qual delas só exibia filme classe B. No Metro Tijuca ele assistiu “Quo vadis?”, “Sacaramouche”, “Pirata sangrento” e no Carioca “que tinha luzes animadas que mudavam de cor” ele se lembra de ter visto “Melodia imortal” e “Piquenique”.

Perguntado sobre suas predileções ele não titubeia mas faz questão de não criar hierarquias, entrega um time variado que, como ele próprio esclarece, não é feito necessariamente das últimas novidades, há o finlandês Aki Kaurismaki (“Ariel” e “A menina da caixa de fósforos”), o português Pedro Costa (“Ossos” e “Juventude em marcha”) e o húngaro Bélla Tar, conhecido pela densidade de seus longos planos-seqüência e cujo filme “Harmonias Werckmeister”, para Júlio “mostra de forma primorosa uma infinita procura noturna, um homem idealista mas velho, caminhando sozinho numa Hungria velha e decadente, mas que acaba revelando momentos de extrema poesia.” O interesse por Bélla Tar, um diretor muito pouco exibido nas salas de cinema daqui, é só um exemplo de como Júlio acompanha vorazmente os lançamentos em DVD. Essa voracidade revela que sua relação com o cinema não depende da sala escura ou de um ambiente apartado do real cotidiano:

– Vejo filmes em DVD e adoro poder pausar e rever, estudar as cenas. Fico louco com os lançamentos… Hoje, por exemplo, não consegui me controlar e comprei 12 filmes do Eric Rhommer uma chanchada do Franz Eichhorn que se chama “Treze cadeiras”. Há pouco tempo consegui uma preciosidade que é “A dama sem camélia”, do Antonioni, um filme sobre a história do cinema italiano através das ambições de uma atriz de terceira categoria. É belíssimo mas muito pouco conhecido.

Quando perguntei se algum filme continua reverberando nele de forma especial, respondeu:

– “Madre Joana dos Anjos”, do Kawalerowicz. Nem sei te explicar, mas nesse filme tem uma cena em que uma jovem canta uma música, e essa melodia nunca saiu de dentro de mim.

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26 de setembro de 2008

Marco Palito: “Excluída é a Zona Sul”

ARISTOCRACIA CARIOCA

Texto e fotos: Eduardo Souza Lima

Marcos Guimarães, o Marco Palito, ou simplesmente Marcão, pode ser ainda um ilustre desconhecido na Zona Sul, mas no subúrbio é o rei do humor. Seus leais súditos estão nas lonas culturais da prefeitura, em especial na Hermeto Pascoal (em Bangu), na Gilberto Gil (na Capelinha) e na Carlos Zéfiro (em Anchieta); no Ponto Cine, em Guadalupe; e no Shopping Madureira, onde atua como uma espécie de consultor artístico e se apresenta há dois anos no talk-show ao vivo “TV no Bar”, no restaurante Blumenau Grill. O Bonequinho Vil, sua mais famosa criação, e o “Conversa Fiada”, seu programa de auditório, têm sete comunidades no Orkut. Cada lona tem 350 lugares, mas em suas apresentações é comum ver até 800 pessoas se espremendo nas arquibancadas e sentadas no chão. Fora as duas mil que ficam do lado de fora tentando entrar.

— Tem um amigo meu, o Adil, que costuma dizer: “Não dá nem pra entrar lá fora” — brinca o humorista.

Certa vez, Marcão e sua trupe foram se apresentar na Praia de Copacabana, num evento patrocinado por uma fábrica de biscoitos. E ele aproveitou para dar o seu recado:

— Cheguei pra rapaziada e disse: “Excluída é a Zona Sul. Nós já somos 4,5 milhões, vocês, só 1,5 milhão. Vocês nem tem trem! Isso é um absurdo! E nem ônibus direto para Madureira! A cidade precisa se integrar e nós vamos ajudar vocês.” O Hans Donner viu e se amarrou. Disse que a gente conseguiu inverter a mão.

Nascido e criado em Pilares, há 41 anos, Marcão preferiu que esta entrevista fosse feita em Madureira e não em seu bairro natal: “É que lá é a capital do subúrbio”, argumentou. Quem é da região, bem o sabe. Mas este não foi o único motivo. Madureira também é o seu quartel-general e a sua musa maior. O humor de Marcão é genuinamente suburbano, e não apenas na certidão de nascimento. Ele anda para lá e para cá nas movimentadas ruas do bairro, conversando com todo mundo, buscando inspiração para novos tipos e esquetes.

— Quando você é do subúrbio, quer olhar para a Zona Sul. Quando olhei pro subúrbio, vi a bananada, o kichute, o sacolé de manga. Comecei a sortear bananada no “Conversa Fiada” e foi o maior sucesso. As pessoas gostam de se sentir retratadas, de ouvir quem fala a língua delas.

No Shopping Madureira, por exemplo, convenceu os donos de grifes locais a trocarem o cenário dos desfiles de moda que promovem no local: saiu a praia com palmeiras, típica da Zona Sul, e entrou um trem sobre trilhos, bem suburbano. As modelos do bairro ficaram orgulhosas com a nova passarela.

Adaílton Medeiros, criador do Ponto Cine, conheceu Marcão quando era diretor da Lona Cultural Carlos Zéfiro e foi um dos primeiros a apostar em seu talento e na originalidade de seu trabalho. Hoje, o comediante se apresenta nas manhãs de sábado no cinema de Guadalupe, antes da sessão “Diálogos com o cinema”, que exibe filmes brasileiros seguidos de debates com seus realizadores.

— O Marcão é o que há de mais novo no mercado do humor, tanto no Rio quanto no Brasil — diz Adaílton. — O seu humor é muito rico e é o da crônica diária. As pessoas se enxergam nos personagens do Marcão porque eles falam em uma linguagem simples e acessível. Esses personagens apresentam as características próprias da cultura do subúrbio, mas vão, além disso. É um humor que se torna universal justamente porque é local.

A carreira de humorista começou há 20 anos, com o “Respondeu Bebeu”, uma gincana de conhecimentos gerais que apresentava em bares das zonas Oeste e Norte. O “Conversa Fiada” foi criado em 1996 e até hoje é um sucesso absoluto no circuito das lonas culturais. Foi em um de seus quadros, “Diário de um magro” — no qual satirizava a obra do escritor Paulo Coelho com trocadilhos do gênero “Nas margens do Rio Piegas eu sentei e gostei” — nasceu o Bonequinho Vil. O boquirroto personagem, visualmente inspirado no Bonequinho das críticas de cinema do jornal “O Globo”, comenta, de modo singular, as principais notícias da semana. Curiosamente, Marcão é coadjuvante no quadro: como o personagem fala de forma incompreensível, ele interpreta o seu tradutor. Quem dá vida ao Bonequinho é Marcus Vinícius de Oliveira, o Marcus Saúva.

— O Saúva era percussionista de uma banda chamada Didi Subiu no Cristo — conta Marcão. — Mas eu rolava de rir vendo o cara tocar. Ele estranhou um pouco quando o convidei para fazer o personagem, mas já estamos juntos há 11 anos.

— Achei estranho até porque nunca havia feito teatro na vida, mas embarquei, e descobri que o Marco tem um olho bom para descobrir novos talentos — diz Saúva. — E descobri que havia encontrado uma razão na vida, adoro fazer as pessoas rirem.

O sucesso do Bonequinho Vil não é brinquedo não: seu esquete acabou virando a última atração do “Conversa Fiada”, porque muita gente ia embora depois que a dupla deixava o palco. Mas criar tipos é a especialidade de Marcão. Tem, por exemplo, a americana Ema Grace, líder da seita do Santo Diet — um chá alucinógeno que faz a pessoa acreditar que emagreceu -— e Dali de Salvador, pintor surrealista baiano que tem entre suas obras o quadro “Clodovil no harém”.

Marcão é o caçula de cinco irmãos, filho de um representante de vendas com uma dona de casa. É o único com pendor artístico na família. Mas foi em casa que começou a ter interesse por arte.

— Meu primeiro encontro com a arte foi uma pintura numa telha que minha irmã fez — conta. — Não sei por que aquilo me impressionou. Acho que por ver que era possível fazer.

Depois vieram o tio piadista — toda família do subúrbio tem pelo menos um — e os discos de humor do Agildo Ribeiro e do Costinha, cujas anedotas o menino decorava para deleite de uns e horror de outros. Quando estava na sétima série da Escola Municipal Souza da Silveira, em Piedade, participou da montagem da peça “Deus lhe pague”, de Joracy Camargo, feita por sua professora Regina Célia. E a partir daí não parou mais: cursou CAL, Martins Pena, fez oficina de palhaçaria com Marcio Libar.

— O universo do palhaço foi a minha última descoberta. Com ele, eu aprendi a perder. Tenho influência de tudo, mas o bar é minha universidade — diz Marcão.

O humorista também tentou cursar Jornalismo, mas teve que abandonar a faculdade ainda no primeiro período, por falta de dinheiro. Ainda assim, deu um jeito de entrar para o meio jornalístico: atualmente ele participa das transmissões de futebol da Rádio Transamérica FM (101,3 MHz) com o personagem Armando Furtado, ex-juiz ladrão e comentarista de arbitragem, além de apresentar a “Agenda do Marco Palito”, resenha esportiva na qual dá os resultados de partidas de esportes populares como sueca, queimado e porrinha. A família nunca entendeu direito esse negócio de viver de inventar histórias, mas sempre o apoiou.

— Quando você passa da metade do caminho, não tem mais volta. Hoje, eu sobrevivo de minha arte. Espero um dia poder viver dela.

Não deu no “RJTV”, mas em 2003 Marcão ganhou o Prêmio Governo do Estado, como empreendedor de cultura popular. Além do seu trabalho como humorista, ele coordena projetos sociais, à frente da ONG Alimento Cultural.

— Eu me considerava um desnutrido cultural. A primeira vez que fui ao cinema foi para ver um filme de Tarzan em sessão dupla com “A vida de Cristo”. No subúrbio você não tem muitas opções. A Barra tem 90 mil habitantes e só num shopping tem 18 cinemas. Bangu tem 500 mil e só uma sala.

Em seus talk-shows e gincanas de humor, Marcão sempre faz questão de falar de cultura e de política — “porque o povo não pode esquecer do Juiz Nicolalau e dos Anõezinhos do Orçamento”, diz. Ultimamente, tem pensando numa nova forma de cobrança de entrada para seus espetáculos.

— O ingresso seria uma frase. Mas não qualquer frase, tem que ser uma frase boa. Sei que isso geraria discussão e acabaria levando as pessoas aos livros. Mas criaríamos também um banco de frases para não deixar ninguém constrangido. Aí é só o cara pegar uma emprestada.

Por meio de projetos como o Cesta Básica Cultural (no site www.marcopalito.com.br tem todos), ele distribui livros para pessoas carentes.

— Estamos criando um conselho de nutrição, formado por professores, jornalistas, sociólogos e artistas, para fazer o cardápio. Não dá para dar um Guimarães Rosa logo de cara. Tem que acostumar o estômago aos poucos. Às vezes você dá uma feijoada para um cara que está cheio de fome e ele morre de indigestão. O sujeito nunca foi ao teatro e pode nunca mais ir dependendo do que ele for ver.

Marcão tem três filhas, Thainá, de 19 anos, Thuanni, de 18, e Anna Luiza, de 11, e duas ex-mulheres — “eu sempre fui bem casado, elas, não”, brinca. E hoje, diz com orgulho que sua carteira de trabalho só tem duas assinaturas:

— A minha e a do funcionário do Ministério que a emitiu.

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26 de setembro de 2008

Tia Doca da Portela: “Não sabia que existia americano preto”

ARISTOCRACIA CARIOCA

Texto: Anna Azevedo
Fotos: Michael Ende

O Rio de Janeiro dos anos 40 vivia a época de ouro das estrelas do cinema e do rádio. Deles saíam os ícones que recheavam revistas como “O Cruzeiro” e o imaginário dos rapazes e moças. Frank Sinatra era um desses astros. A conjunção de uma bela voz com o par de olhos azuis que flertava com as fãs virou um dos símbolos de uma era marcada pelos musicais.

Para a menina Doca, que morava com a mãe e os cinco irmãos na Favela do Pau Fincado, atual rabicho do cais do porto, no Caju, Frank Sinatra — cujo retrato adornava o barraco da vizinha e a voz se espalhava a partir do rádio da casa ao lado — era a síntese do gringo: todos falavam o mesmo idioma “embolado” e eram americanos de olhos azuis. Já as mulheres seriam a imagem e semelhança das bonecas que Doca via nas vitrines das lojas e com as quais sonhava. Sobretudo naqueles dias de dezembro, mês de seu oitavo aniversário e de mais um Natal.

Apesar de pequena, Doca sabia que teria de dar muito duro se quisesse ter uma vida mais confortável que aquela, na favela. Miudinha, já ajudava a mãe, Albertina, a vender sopa de entulho para os estivadores do Porto, na troca do turno, de madrugada. Ao cais também voltava de dia. Era costume dos moradores do Pau Fincado aguardar o fim do horário do rancho à espera da sobra da comida dos navios, normalmente jogada ao mar.

Certa tarde daquele dezembro de 1940, Doca esperava os taifeiros quando um marinheiro alto e negro surge ao seu lado e inicia um papo em português desajeitado. A menina não entendeu nada daquela “língua enrolada”. Tampouco compreendeu como um negro igual a ela poderia falar o idioma do ídolo da vizinha, Frank Sinatra.

— Eu nem sabia que tinha americano preto — relembra, 67 anos depois.

Surpresa maior só quando o gringo se fez entender: havia uma boneca esperando por Doca, caso ela aceitasse subir com ele até o navio.

— Fiquei louca quando ouvi falar na boneca. Eu era muito bobinha, então subi com o homem até o camarote. E não é que tinha uma boneca lá? Linda, parecia um sonho. Só percebi que o navio havia partido quando ouvi o apito. O cais estava longe. O camarada tava me roubando.

Doca nasceu Jilçária Cruz Costa, mas a mãe, como fez com os demais filhos, tratou logo de lhe arrumar um apelido — artimanha para defender a prole de algum homônimo mal-intencionado. Cresceu e ficou conhecida como Tia Doca, pastora da Velha Guarda da Portela. A mulher cuja vida renderia um samba de enredo épico, daqueles de outrora. O primeiro verso poderia ser a frase que encerra cada uma das dezenas de histórias que Doca conta: “É, já passei por tudo nessa vida”. No refrão, o bordão que sintetiza o jeito de verdadeira dona de terreiro da tia: “Comigo, não, o que é que há?”.

Era no quintal de Tia Doca, em Oswaldo Cruz, que a fina flor do samba de Madureira esquentava os tamborins e viu brotar sucessores. Despejados do quintal de Dona Neném pela própria, após reclamar ao marido, o compositor Manacéia, que não agüentava mais cozinhar para tanta boca, toda semana, a Velha Guarda passou a se reunir no quintal de terra batida de Doca e do marido Altair. Durante cinco anos, até 1980, a turma da Velha Guarda ensaiou debaixo da mangueira do casal. Lá nasciam os mais belos sambas, versos temperados pelas iguarias que a dona da casa trazia fumegando do fogão à lenha.

Certa domingueira, porém, a Velha Guarda não apareceu. Nem Altair, que abandonara Doca com seis filhos. Os pensamentos da pastora se voltaram para o cais do porto, para as dificuldades que ela, os irmãos e a mãe passaram na vida:

— Ele me largou com as crianças, me deixou a pão e laranja, arranjou outra mulher, limpou o dinheiro do banco, que era pra pagar o aluguel, e foi embora. A mesma história da minha mãe. Estou há 30 anos separada, depois de 29 anos casada. Não sou desse tipo de mulher que se separa e fica bêbada, largada. Comigo, não, o que é que há? Meus filhos não iam passar o que eu passei na infância.

Sem Altair no comando da casa, a Velha Guarda enfiou a viola no saco e partiu para outro quintal. Nessa época, Doca já fazia parte do seleto grupo de guardiões das tradições musicais da Azul e Branco. A pastora ficou magoada, conta que se sentiu abandonada no momento em que mais precisava de companheiros. Mas, com a ajuda de um casal amigo, transformou o que era diversão em trabalho. Logo a notícia do pagode da Tia Doca se espalhou pelo subúrbio. A receita era infalível: uma árvore frondosa, chão de terra, cerveja gelada, comida boa e músicos idem. Beth Carvalho, Marquinhos de Oswaldo Cruz, Dudu Nobre, Arlindo Cruz e os músicos portelenses batiam ponto no terreirão. Tia Doca molhava o chão para não levantar poeira. E o coro comia, conta Zeca Pagodinho, uma das crias deste quintal.

— Ali o bicho pegava. A turma do juvenil esperava o intervalo da Velha Guarda para dar seu recado. Aprendi a compor nesses quintais. A gente se afastava da roda, ia pro cantinho, o samba saía. E a comida rolando… Tia Doca é esperta! — relembra o músico.

— O Zeca era um menininho de boné da Kibon quando apareceu aqui pela primeira vez. Perguntei: “Sua mãe sabe que você está aqui? Tem dinheiro da passagem pra voltar?”. Era arisco que só vendo, mas muito educado. Uma vez chamei o Milton Manhães para ver ele e o Deni versando, dois molequinhos, né?, jogando lera um pro outro. Pronto, estourou! A falecida Jovelina Pérola Negra também surgiu daqui. Era um terror isso aqui. Um terror!

Mulheres como Doca fazem parte de uma geração de “tias” conhecidas e respeitadas no mundo do samba pelo apego à tradição e o respeito que impõem aos mais novos; pelo dom de saber cozinhar em quantidade mantendo a qualidade e por comandar tradicionais rodas de fundo de quintal. Encontros que remontam ao século XIX, quando baianas da Praça Onze, como Tia Ciata, Tia Bebiana e Tia Perciliana — mãe de João da Baiana — abriam seus quintais para batucadas, umbigadas, capoeira e samba — ritmos que, tocados em via pública, rendiam uma prisão por vadiagem. “Pelo telefone”, aquele que é considerado o primeiro samba, foi composto por Donga no quintal de Ciata — ali, nos domínios dessa baiana arretada, freqüentado não só por músicos humildes, como também por políticos e pessoas de classe média, a polícia não se metia.

Enquanto essas rodas revelam a nova geração de sambistas, não vislumbramos uma nova geração de tias. Os quintais são cada vez mais raros e as mulheres procuram seu lugar no mercado de trabalho. Tias como as portelenses Doca, Surica e Eunice são uma peça de resistência cultural. Para não deixar morrer os quintais e continuar tendo como comprar o feijão e os miúdos para as tradicionais farras gastronômicas desses encontros, o jeito foi fazer das rodas e da famosa voz de lavadeira um ganha-pão que paga as contas de casa e preserva a tradição.

Com o pagode e as participações especiais em discos, Doca criou a família. Foi o produtor Rildo Hora quem sugeriu a Beth Carvalho o nome da pastora para compor o coro de um novo disco. Depois os convites vieram de Clara Nunes, Paulinho da Viola, João Nogueira, Elza Soares, Luiz Ayrão e Grupo Fundo de Quintal.

— Ainda esperei por três meses para ver se o meu marido voltava com uma compra, se a consciência doía, mas nada. O pagode da Tia Doca foi uma forma de sobrevivência para mim. Eu só sabia cantar, sambar e cozinhar.

Em 2000, a Paradoxx Music lançou o CD “Pagode de Tia Doca”. A pastora, no entanto, pouco sabe sobre o que aconteceu com o disco. Ela mesma não tem mais nenhuma cópia em casa, tampouco contato com a gravadora. Com uma fraca distribuição, o CD é, hoje, artigo de colecionador, mas — para surpresa geral — ainda restam unidades no site Submarino, a R$ 17,90.

— Não ganhei dinheiro. Recebi uma graninha do produtor, paguei os músicos e sobraram R$ 20,00. Enfiei no bolso e fiquei feliz. O disco deve ter vendido bem, tanto que não se acha mais. Nós da Velha Guarda só conseguimos gravar depois de velhos. Lembra até aquela gente lá de Cuba (do Buena Vista Social Clube). Que gente bacana, né?

O Pagode de Tia Doca mudou de Oswaldo Cruz para um terreno maior, próximo à estação de trem de Madureira, e agora se chama Centro Cultural Tia Doca. Todo domingo, Doca acorda cedo para preparar o caldo de ervilha com azeite e bacon que é servido à noitinha, enquanto o samba, comandado pelo filho Nem, segue a regra das rodas de terreiro. Durante muito tempo, microfone não tinha. Mas o público aumentou e o grupo teve que ceder à novidade.

— Paulinho da Viola me aconselhou a nunca colocar microfone porque pagode assim não existe mais em lugar nenhum. Aqui era sempre na bo-ca! Mas agora fica muito cheio, não tem jeito. Mas é samba de raiz, mesmo!

Doca nasceu no Morro da Serrinha, em Madureira. A mãe foi a primeira porta-bandeira da Escola de Samba Prazer da Serrinha, gênese da Império Serrano, fundada em 1947. Passou os primeiros anos da vida ali, na quadra da escola. Tia Iaiá tomava conta da meninada da vizinhança enquanto os pais trabalhavam. E a ela cabia ensinar o bê-á-bá da batucada.

— A gente comia em cuia de lata de queijo do reino, sentadinhos na quadra. De tarde, tia Iaiá organizava um bloquinho. As latas de goiabada, cobertas com papelão de cimento, eram os pandeiros. Ficava um som bom. Ela ensinou a gente a sambar no pé. Hoje em dia tenho até medo de ir ao lugar onde nasci. Vou lá e vejo os meninos com revólver na cintura.

Com uma criação destas, não deu outra: aos 14 anos, Doca já era a porta-bandeira da Escola de Samba Unidos da Congonha, de Vaz Lobo.

— As porta-bandeiras de hoje em dia não tão com nada, não sabem o que é ser uma porta-bandeira. Ficam com aquela mania de mão, mão pra lá, pra cá. O negócio não é na mão. É no pé. Mas agora tudo é válido, o que se pode fazer?

Doca só foi apresentada à Portela em 1953, após o casamento com Altair, filho do compositor Alvarenga, irmão de Jair do Cavaco, da Velha Guarda, e afilhado de Paulo Benjamin de Oliveira, o Paulo da Portela. Para nunca mais sair. Mesmo após o incidente no Carnaval de 2005, quando a ala da Velha Guarda foi impedida de entrar na Sapucaí para não estourar o tempo limite do desfile. Uma das cenas mais lamentáveis da história do carnaval carioca.

— Foi horrível, muita gente passou mal. Eu fui parar no hospital, só voltei para a casa no dia seguinte. O meu coração não agüenta mais essas tristezas. Esse negócio de escola de samba acabou. Eu só desfilo porque somos um grupo e temos que manter a tradição, dar o exemplo.

Tradição: eis a cartilha pela qual reza essa pastora cheia de lemas e ensinamentos, alguns indecifráveis. Quando moça, adorava ir aos bailes. Mas mulher direita, previne, tem que deixar o salão depois da antepenúltima música. E, na hora de cozinhar, nada de bater com a colher de pau na borda da panela. Queima a comida!

No caso do jongo, é ainda mais radical e misteriosa. Ao ponto de brigar com o primo, Seu Darcy, mestre jongueiro falecido em 2001 e divulgador da dança além das fronteiras do Morro da Serrinha. Certa vez Doca expulsou Darcy do pagode após ele insistir em armar o jongo no terreiro da pastora.

— Jongo não é para se cantar e dançar à toa, não! Só no dia de Nossa Senhora de Santana, 26 de julho, e tem que saber como se abre e se fecha. Minha madrinha era jongueira e me ensinou tudo. Minha cunhada foi atrás do Darcy e se deu mal. Cantava jongo ao meio-dia na Praça da Portela. Morreu assim, da noite para o dia. Um sobrinho meu morreu, o outro sumiu e ninguém sabe onde está. Esse negócio de que jongo é cultura… Jongo é uma seita muito da perigosa! Eu não sou boba, comigo não, o que é que há?

Tia Doca é esperta, já disse Zeca Pagodinho. Ainda abaixo da idade legal para trabalhar em fábricas, insistiu com o dono de uma tecelagem para lhe dar um emprego. Passou dos 14 aos 16 anos tendo que, vez por outra, mergulhar debaixo de pilhas de pano para não ser descoberta pelos fiscais do Ministério do Trabalho. Com o salário, construiu as paredes de alvenaria do barraco onde morava com a mãe e os irmãos, até então protegido por pano e madeira. Hoje, um dos maiores orgulhos dessa pastora é ter sua casa própria, em Madureira, adquirida pela Caixa Econômica. Orgulho que só não é maior que o de pertencer à Velha Guarda da Portela.

Com o grupo, Tia Doca fez turnês pela França e Itália. Amou. Já o seu lado cozinheira desaprovou as proporções da nouvelle cuisine. Mas a massa italiana passou pelo julgamento da pastora que não se faz de rogada e diz que, depois de Tia Vicentina, a melhor feijoada de Madureira é a dela. Surica diz o mesmo em relação ao feijão que rola, de forma bissexta, em seu quintal. Seja lá como for, a especialidade dessas tias é, mesmo, a chamada comida de subúrbio. Ou, como define Zeca Pagodinho, comida de malandro. Lista Tia Doca: feijoada, tripa lombeira, rabada, sopa de ervilha, carne-seca, mocotó… E foi em busca de uma comida de subúrbio que certa vez uma moradora do Leblon contratou Tia Doca para cozinhar.

— A madame queria uma comida de subúrbio. Eu aceitei e fui fazer um angu à baiana, mas não quis dinheiro na mão para comprar os ingredientes, não, levei a madame comigo para o Mercadão de Madureira. Ela ficou louca com o Mercadão! No prédio, o cheiro da comida tava subindo e deixando os vizinhos com água na boca. Sabe o que a madame fez? Convidou o pessoal para comer, mas todo mundo teve que pagar na porta. Depois dizem que gente do Leblon é chique! Mas achei interessante aquele sistema. Ganhei muita gorjeta.

Aos 75 anos, a tia que traz as tradições do samba na voz, nos dotes culinários e na atitude, diz que está cansada. Uma artrite anda aos poucos afastando Doca da cozinha. Mas a sua presença no Pagode é sagrada, além de garantia de um ambiente onde imperam os bons costumes herdados da época do “Seu Paulo” (da Portela).

O médico proibiu a cervejinha, pecado dos pecados para a portelense! É que o músculo cardíaco cresceu. Resultado, segundo ela, de muito aborrecimento ao longo da vida. Doca tem cinco bisnetos e seis netos. Dos seis filhos, dois homens morreram, ambos assassinados por desconhecidos. Um deles, por um bate-bolas, num sábado de carnaval. No mesmo carnaval, faleceu o ex-marido, Altair.

— Minha fantasia já estava prontinha. Estragou o meu carnaval!

Dor da mãe durona. Disfarçada em dor de pierrô que perde a sua colombina. Dor imensa que inunda e afoga o coração, que, inchado, cansa a pastora. E que ela, como filha, sentiu o quão devastadora esta dor poderia ser quando Albertina era só desespero no cais, angustiada com a possibilidade de ter perdido a filha caçula para sempre, no navio que ia longe.

Ao escutar o apito do vapor, Doca gritou. Logo o comandante apareceu e quis saber o que aquela criança fazia a bordo. O marinheiro, na verdade um cabo-verdiano, explicou que queria levar a menina consigo, pois ela lembrava muito a filha que morrera. O navio retornou. Doca seguiu pra casa com a mãe e com a sua primeira boneca debaixo do braço.

Nunca mais voltou ao cais.

Receitas da Tia Doca: Tripa lombeira

Ingredientes

2 kg de tripas de boi
2 kg de bucho de boi
1 kg de costelinha salgada
1 kg de lombo
4 kg de feijão branco
1 kg de batata-inglesa
1 kg de cenoura
1 cabeça e dois dentes de alho
4 folhas de louro
1 molho de salsinha
1 molho de coentro
1 molho de cheiro-verde
1 molho de cebolinha
1 pimentão verde
1 tomate
1 cebola
500g de toucinho
100g de gordura de porco
6 limões
Cominho a gosto
Sal e pimenta-do-reino

Modo de fazer

Ponha o feijão branco para cozinhar em uma panela grande.
Raspe e lave bem o bucho e as tripas. Coloque-os em molho só no sumo do limão e deixe descansar por pelo menos uma hora.
Tire as cascas e corte as cenouras e as batatas em pedaços grandes.
Jogue fora o sumo de limão e, em outra vasilha, tempere o bucho e as tripas com dois dentes de alho socados, louro, limão, sal e pimenta-do-reino.
Fervente a costelinha salgada e o lombo para retirar o excesso de sal e gordura.
Corte todas as carnes em pequenos pedaços. Coloque-as pra cozinhar em uma panela com água.
Cozinhe em separado as batatas e a cenoura. Reserve.
Num caldeirão, coloque para dourar uma cabeça de alho socado com gordura de porco e o toucinho cortado em pequenos pedaços. Acrescnte a cebola e o pimentão picados e deixe dourar.
Acrescente o tomate, o louro e os demais temperos. Deixe cozinhar bem, até se formar um caldo com as carnes refogadas.
Acrescente na mistura as cenouras e as batatas e deixem que absorvam o gosto do caldo por alguns minutos, em fogo brando.
Por fim, despeje no caldeirão o feijão branco já cozido, acerte o sal e mexa bem, deixando cozinhar no caldeirão por mais alguns minutos.
Sirva a tripa lombeira com arroz branco.

Dicas

*“Eu gosto de usar, em vez de óleo, banha de porco ou toucinho. Hoje, todo mundo só quer saber de óleo enlatado de mamona, por isso tanta gente morre de infarto ou tem colesterol alto. Eu guardo as coisas que os mais velhos dizem. Meu padrasto trabalhou na lavoura e não gostava que botassem óleo na comida. ‘Isso é mamona, faz mal’, ele dizia.”

*“As carnes eu corto bem fininhas. A tripa quando bota no fogo enrola todinha, fica muito bonita. É um prato vistoso e forte. Você come hoje e só vai pensar em comida amanhã.”

25 de setembro de 2008

Severino Dadá: “Não existe cinema sem um botequim”

ARISTOCRACIA CARIOCA

Texto: Rodrigo de Oliveira
Fotos: Michael Ende

Como boa parte dos que vivem no Rio, Severino Dadá é um carioca nascido na rodoviária. Foi no começo de 1969 que Dadá aportou por estas bandas, na condição de “elemento de alta periculosidade”. Vinha fugido da perseguição política em sua terra natal, Arcoverde, no interior de Pernambuco, onde era radialista e militava nos movimentos de resistência à ditadura. Este segundo parto, depois da longa viagem de ônibus, não marcou apenas o início da relação com a cidade pela qual Dadá se apaixonou imediatamente. O desembarque na rodoviária define também o começo da carreira de um dos mais importantes montadores do cinema brasileiro.
Dos primeiros tempos na cidade, vivendo de favor na casa de conterrâneos e empregado num terminal de petróleo da Ilha do Governador, Dadá se lembra com uma alegria pouco comum nos relatos daqueles que chegam sozinhos e sem dinheiro numa cidade estranha.

- Meus amigos me disseram: “Venha pra cá, aqui você não vai passar fome não…”. Pô, eles comandavam uma churrascaria lá na Ilha, eu ia passar fome de que jeito? – brinca.

A chance de subir na empresa petrolífera, no entanto, foi logo sustada. Sua jornada carioca tinha outro objetivo.

- Eu descobri que o pessoal de cinema fazia ponto no Beco da Fome, na Cinelândia, ali na Rua Álvaro Alvim e suas transversais. Trabalhava muito na quinta pra ser liberado na sexta, às duas da tarde. Aí, com grana e solteiro, eu me mandava pro Beco, pra ver as pessoas. “Porra, ali é o Wilson Grey!”.

Numa das bebedeiras de sexta, Dadá esbarrou com o cineasta Fernando Coni Campos, que se preparava para rodar um documentário sobre o Campo de Santana, com filmagem já no dia seguinte. Dadá não pensou duas vezes antes de aceitar o convite para participar da tal filmagem. Saíram da cervejada direto para o set.

- Voltei pra Ilha na segunda, numa ressaca fodida, pra pedir demissão. “Me cortaram da rádio, mas agora meu nome vai aparecer é na tela do cinema de Arcoverde!”. Era uma coisa infantil, mas era um amor.

A memória cinematográfica de Dadá chega até sua primeira infância. No pequeno povoado de Pedra, onde vivia com a família, o menino se encantou com a invenção trazida por um grupo de ciganos. Instalados no armazém de um tio seu, o espetáculo noturno incluía um grande lençol branco estendido no fundo do salão, um projetorzinho barulhento e as cadeiras que cada espectador trazia de casa. O cardápio? Buster Keaton, Charles Chaplin, O Gordo e o Magro, além de uma das inúmeras versões de Tarzan.

Mais tarde, com a mudança para Arcoverde, veio o deslumbre do 35mm e dos 1.100 lugares do Cinema Bandeirante, “o gigante da Praça da Bandeira”. A cinefilia explode na juventude, quando passa a trabalhar no serviço de alto-falante do cinema concorrente, o Rio Branco. Dadá era o locutor destas transmissões, e quem trabalhasse num cinema podia entrar de graça no outro. Esse foi seu equivalente a um curso universitário:

- Passei uns quatro anos vendo um filme por dia, às vezes até mais que isso, sem pagar nada.

Nas mesas de bar da cidade, Dadá era tido como o cinéfilo-mor. E o status de “especialista” se amplia quando cai em suas mãos uma edição de “O Cinema: sua arte, sua técnica, sua economia”, livro clássico do historiador francês George Sadoul.

- Aí vem a minha grande transação de descobrir o cinema mesmo, o enquadramento, a geometria, a decupagem, a linguagem.

Ainda em Pernambuco, fez parte da equipe que rodou a primeira versão cinematográfica de “O auto da Compadecida” (”A Compadecida”, 1969). Foi este conhecimento que lhe garantiu os primeiros empregos no começo da carreira. Numa temporada de dois anos em São Paulo, foi assistente de direção de Ozualdo Candeias e de José Mojica Marins. Impressionado com sua habilidade para decupar os roteiros (transformar uma frase escrita numa imagem produzível), Victor di Mello o convoca a participar da continuação das filmagens de seu “Quando as mulheres paqueram”, agora no Rio. E assim, de 1971 em diante, Dadá se estabelece definitivamente em terras cariocas.

O salto decisivo para a carreira que o consagrou vem com o convite para trabalhar com o lendário Nelo Melli, argentino radicado no Brasil, responsável pela montagem de obras-primas como “Porto das Caixas” e “Vidas secas”. As lições do velho Sadoul e o cinema consumido avidamente nas telas pernambucanas reverberavam até este momento, e chegam aos ouvidos de Melli:

- “Tengo la información de que usted domina a linguagem, e tiene una intuición cinematográfica muy forte”. Porra, além de dominar a linguagem eu também sou intuitivo, é? – diverte-se Dadá, imitando o sotaque de seu primeiro mestre.

É Melli também que o apresenta a Nelson Pereira dos Santos, com quem formaria uma parceria definidora de sua vida. De 1974, de “O Amuleto de Ogum”, primeiro longa-metragem que montou, para cá, foram mais de 300 filmes realizados, entre as funções de montador e editor de som, num espectro de realizadores que vai de Neville D’Almeida a Paulo Thiago, do cearense Rosemberg Cariry ao boliviano Jorge Sanjinés, do cinema marginal à pornochanchada. E todos estes trabalhos podem ser resumidos numa experiência inusitada à frente das câmeras.

Foi em “Tenda dos milagres”, adaptação de Nelson Pereira para o romance de Jorge Amado. O diretor chega um dia para Dadá e diz que tem um personagem para ele interpretar: “É você mesmo, ora!”. Criando a estrutura do filme-dentro-do-filme, Nelson fizera com que o jornalista do romance decidisse filmar a história do sociólogo baiano Pedro Archanjo. Hugo Carvana faz o jornalista e, em diversas inserções ao longo de “Tenda”, o vemos discutir com Dadá, diante de uma moviola (a pesada máquina onde se editavam os filmes antigamente), que rumos dar ao trabalho que estão montando.

http://www.revistazepereira.com.br/wp-content/uploads/SeverinoDada.flv

Nelson criou ali a imagem-símbolo do montador brasileiro. Não à toa, o Archanjo da ficção é chamado de Ojuobá, que significa “os olhos de Xangô”. Dadá, nordestinamente paciente, ouve as confusões do jornalista/cineasta, recebe aquele monte de imagens filmadas sem muito sentido, e faz o trabalho de organização desse olhar. É o condutor destes olhos de Xangô. E também dos olhos de Nelson Pereira e de tantos outros com quem trabalhou. Nascido Severino de Oliveira Souza, Dadá assinava no início de carreira Severino de Oliveira. O nome artístico definitivo também lhe foi dado por Nelson:

- Dadá é um apelido de infância. Quem me deu foi minha avó. Um belo dia ao assistir “O Amuleto de Ogum” eu vejo Severino Dadá nos créditos. Fui perguntar o motivo para o Nelson e ele me disse: “Pô, mas todo mundo te chama assim!”.

Já o apelido de “cangaceiro da moviola” parece bastante justo ao vermos a imagem de Dadá diante dos batoques e manivelas. Sua dimensão sertaneja é inegável. Costuma dizer que foi apadrinhado pelo piauiense José Medeiros, grande fotógrafo com fama de antipático, por conta de uma certa “máfia nordestina” que opera entre os que de lá vieram. Talvez seja por essa mesma relação que, circulando pela Glória, onde vive hoje, Dadá reconheça cada um dos nordestinos que passam por ele. O atendente do bar não precisa falar mais de uma frase para que Dadá reconheça imediatamente seu estado de origem, e talvez até a cidade.

E a figura expansiva, em todo seu encolhimento e pouca altura, segue risonha pelas ruas do bairro que biografou em “Memórias da Glória”, média-metragem de 2005. Dadá, casado há 32 anos com dona Socorro, fala do Rio de Janeiro com uma propriedade invejável. Conhece, com precisão de “Guia Rex”, suas ruas e bares – sobretudo os bares.

- Não existe cinema sem um botequim.

No histórico Botequim da Líder, na esquina da Álvaro Ramos com a Rua da Passagem, em Botafogo, que ficava em frente ao maior laboratório de cinema da cidade, era obrigatório o trajeto entre a sala onde se projetavam os copiões dos filmes e a mesa em que seriam avidamente discutidos – e bebidos. Quando a Líder se muda para a Vila Isabel, onde Dadá vivia desde 1974, a coisa fica ainda mais intensa.

Na Vila, Dadá passou quase 20 anos, e esteve próximo do melhor do samba carioca. Conta que o amigo Rogério Sganzerla tinha duas grandes obsessões: Orson Welles e Noel Rosa. Da primeira, Dadá deu conta ao montar “Nem tudo é verdade” e “A linguagem de Orson Welles”, filmes do diretor que comentam a passagem do cineasta americano pelo Brasil, nos anos 40. Da segunda, bastou apresentar a Vila Isabel ao amigo. A formação musical dos dois os aproximou ainda mais. Dadá e Sganzerla dividiam um passado no rádio, escolados na música popular brasileira. Noel era figura obrigatória nas conversas, e se o grande musical imaginado por Sganzerla, que narraria a história deste e de outros baluartes do samba, nunca se realizou, temos pelo menos o belo “Isto é Noel Rosa”, média-metragem de 1990. Este Dadá não montou, mas certamente as “visitas guiadas” à Vila influenciaram bastante sua realização. Estas visitas renderam, no mínimo, ótimas histórias:

- O Rogério levava umas pessoas diferentes lá pra Vila. Uma vez apareceu lá no Boteco do Souza com o Waly Salomão, completamente louco. O Waly com aquela boca enorme, gesticulando, recitando e interpretando os sambas todos. O Martinho da Vila teve uma crise de riso, e riu tanto que se mijou todo.

Ouvir Dadá contando estes casos de sua vida deixa a impressão que ele sempre esteve nos lugares certos, na hora exata em que alguma coisa entrava para a História. Mas a onda da “retomada”, este bonde Dadá não pegou. É uma politicagem que não lhe interessa, que vai contra os seus princípios.

- Eu não vou fazer nunca um filme comportado – sentencia.

Os tempos mudaram, de fato, e Dadá soube se adaptar a eles sem perder a ternura, jamais. De um lado, não consegue entender como a tecnologia transformou em montadores aquilo que chama de “apertadores de botão de computador que pensam que ritmo cinematográfico é baticum de axé-music no liquidificador da linguagem televisiva”. Do outro, juntou-se à uma turma jovem que sabe apertar o botão sem esquecer de pensar naquilo que faz. Com a ajuda de seu filho André Sampaio, premiado curta-metragista e um dos diretores de “Conceição – Autor bom é autor morto”, vira-se bem na condição de cangaceiro da moviola que precisa se transformar, de uma hora para outra, em cangaceiro do mouse.

- A dinâmica de trabalho com meu pai é bastante natural, e a minha presença ali do lado dele garante essa passagem do analógico para o digital – diz André. – Mas não existe essa coisa de “papai” e “filhinho” quando estamos na ilha de edição, não. Ele me esculhamba, vive dizendo “joga essa merda fora, isso aí não diz nada!”, e aí corta fora uma seqüência.

O trabalho com Dadá parece ser mesmo assim, movido a paixões e arrebatamentos. O jornalista Luís Alberto Rocha Melo foi seu parceiro na realização dos dois únicos filmes que o montador dirigiu até aqui, além de “Memórias da Glória”, também o documentário “Geraldo José – O som sem barreira”, sobre o mais requisitado sonoplasta do audiovisual brasileiro.

- Ele, filmando, ficava numa alegria danada. – recorda Luís Alberto, que prepara neste momento uma cinebiografia de Severino Dadá. –Às vezes ele se emocionava mais com uma história do que o próprio depoente que a contava. Isso sem falar que nos trechos ficcionais do “Geraldo José”, onde Dadá prova que tem um talento extraordinário pra dirigir comédia.

Um talento que esperamos ver materializado em breve. O projeto de cabeceira de Dadá, sua primeira incursão pela ficção, é uma comédia musical chamada “Oxente, my love”. O roteiro, escrito em parceria com André e Luís Alberto, conta a história de um pequeno cortiço localizado na sua querida Glória, que em determinado dia é tomado por dois pivetes fugindo da polícia.

- Ali dentro vive um ex-policial que tortura um boneco só para não perder a prática, uma vedete aposentada, a Dona Rosinha Fuqui-Fuqui, um negão intelectual militante do antigo Partidão, os filhos do policial, um viado e uma travesti que faz ponto na Augusto Severo. É o escracho total.

25 de setembro de 2008

Gerson King Combo: O Mercadão do Rei Black

ARISTOCRACIA CARIOCA

Texto: Dimmi Amora
Fotos: André Vieira
Vídeos: Eduardo Souza Lima

O chapéu com penacho e a capa preta ficam no armário do apartamento simples, no térreo, Rua Carvalho de Souza, área central de Madureira. Para ir às compras, todos os sábados de manhã no Mercadão de Madureira, Gerson Rodrigues Cortes — 63 anos, carioca, flamenguista, viúvo duas vezes, um filho, uma neta — leva do traje que o tornou Gerson King Combo, o rei da black music no Brasil, um único ornamento: o cordão grosso com pingentes de dente de tigre e microfone de bronze.

Diante de um Mercadão repleto de quinquilharias brilhantes made in China, Gerson não teria vida fácil se quisesse brilhar como brilhou nos subúrbios do Rio na década de 70. Anônimo, e tranqüilo com esta condição, ele vagueia por entre as mais de 600 lojas do mercado inaugurado em 1959, em busca dos produtos indispensáveis, de novas paixões de consumo e do trivial.

Um galho de arruda, óculos escuros e outras mercadorias provocam lembranças no homem que está presente na música popular desde a era do rádio. Apesar de todos os revezes nestas quatro décadas, Gerson e o Mercadão mantêm-se vivos e ativos. Neste passeio pelo maior shopping popular do país, o rei do black conta à Zé Pereira as histórias do início do rock e da black music por aqui, de racismo, das alegrias, das decepções, do subúrbio.

Capa preta americana

Ao lado do presépio de Natal montado pela administração do Mercadão, fica a Orixás em Festa, loja de artigos religiosos. Velas de sete dias estão em promoção, a R$ 1,45. Máscaras de madeira, ornadas com pedras e marfim, importadas da Nigéria, podem valer de R$ 200,00 a R$ 3.000,00. Na frente da loja e ao lado do presépio, um exu Tranca Rua das Almas, de 1,80 m, veste uma capa preta que custa R$ 350,00.

Desde que o dono da loja, Pedro Silva, coloco-a na porta, a imagem, que não está mais à venda, virou objeto de culto. Mulheres beijam-na. Semanalmente, garrafas de cachaça colocadas como oferenda são recolhidas pelos funcionários. Semanas atrás, Latifa, neta de Gerson, foi passear com o avô e, vendo a imagem do homem negro, imponente e risonho vestido com a capa preta, não hesitou:

— Vovô!

Gerson é católico, vai à missa todos os domingos na Paróquia do Santo Sepulcro, respeita as religiões afro, mas não gosta da semelhança. Sua capa preta tem outra origem, e nem é originalmente black. Foi idéia do instrumentista Cesar Camargo Mariano, branco o suficiente para ser barrado numa boate do Harlen, em Nova Iorque, no início da década de 70.

— Eu estava no Harlem, excursionando com o Simonal e o Cesar Camargo. Eu era tímido e o Cesar dizia para eu adotar as roupas que os negros usavam lá: “Vai para Madureira com isso que você vai arrebentar. Bota capa, luva, bota esta porra toda”. Eu não queria usar, porque os caras eram cafetões. Ele insistia que aqui no Brasil era outra coisa. “Porra Gersão, tá perdendo tempo”, dizia o Cesar. Cheguei aqui e adotei. Minha segunda esposa, a Angélica, costurou a primeira capa. Foi aquele sucesso — conta Gerson.

Além dos cafetões nova-iorquinos, inspiraram o visual de Gerson, o King Curtis Combo, de quem ele copiou o nome, e James Brown, ambos adeptos da capa na época.

Tropa de elite

A fantasia de Papai Noel está logo na entrada da Loja Fantasias, Galeria H do Mercadão. Lá dentro, um manequim de colete preto, acolchoado. Da cintura para baixo, apenas uma lingerie. A boina com a caveira do Bope, completa o visual Capitão Nascimento, o sucesso do momento. R$ 59,90. A versão infantil (R$ 39,90) não tem cinta-liga, é claro.

Gerson é filho de um policial militar, seu Jovelino Cortes, um dos responsáveis pelo fato de um negro nascido na subida do Morro São José ter passado a infância e a adolescência longe do samba.

— O sambista era visto como marginal. Meu irmão, Getúlio Cortes, era muito americanizado, e foi um dos primeiros DJs. Comprava discos e levava pra gente dançar. Mas não tinha samba.

Gerson conta que, com a chegada do rock, a cisão foi total. Os sambistas viam os roqueiros como homossexuais. Só mais velho Gerson se reconciliou com a turma do samba. Hoje, é vizinho de Tia Doca da Portela e presença em seus pagodes. Com a polícia, ele mantém um respeito formal. Seu problema agora é com um dos movimentos que ele ajudou a criar: o funk carioca. Gerson tem pavor de uma parte do movimento que usa a música para fazer apologia do crime ou fala (e faz) sexo explicitamente:

— Juntar o black e este funk dá choque. Temos um problema social, com esta periferia carente. Não precisa dessa coisa de chamar mulher de prostituta, cantar que vai comer a mãe. Nós, que fizemos letras com cunho social, não temos nada com isso. Não temos nada que bandido é melhor. Nem polícia é melhor nem bandido é melhor. Este funk é um modismo que não vai vencer. A não ser que queiramos que vire uma Sodoma e Gomorra. A idéia é até policiar isso. Já fui a baile que tinha sexo explícito.
Madureira Tênis Club

A Madureira que Gerson nasceu era muito diferente. Mesmo sendo morador do asfalto, ele e o irmão e as duas irmãs traziam latas de água da bica que ficava no fim da Rua Andrade Figueira. Poucas ruas eram urbanizadas e o transporte coletivo eram os bondes. Hoje, o bairro é o principal pólo comercial do subúrbio do Rio. Pelo menos 17 linhas de ônibus passam em frente ao Mercadão, além das centenas de vans e kombis que a ajudam a tornar o tráfego ali um inferno.

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A Madureira de antigamente lembra um pouco a Mercearia Rosa da Conceição. Encravada na Galeria G do Mercadão, ela se diferencia por ainda oferecer grãos em sacos de dez quilos. É possível encontrar o acaçá, uma farinha de milho branco ou vermelho, usada na culinária baiana (R$ 2,60 o quilo), e a ervilha extra-macia a R$ 3,20. Sinal dos tempos, atrás do balcão estão os enlatados como milho e azeite. 

— A vida não era mole não. Eu tive uma infância muito triste. Nós não podíamos nada. Onde hoje está este Mercadão, havia o Madureira Tênis Club, onde crioulo não entrava — conta Gerson.

A Madureira de hoje tem um pouco da transformação que Gerson ajudou a construir na sociedade brasileira. O clube que não aceitava negros se mudou e deu lugar a um entreposto de hortigranjeiros, que ficou pronto em 1959. Anos depois, no remanescente Madureira Esporte Club, Gerson entrou pela porta da frente, com o grupo Renato e Seus Blue Caps, onde aprendeu a cantar. Agora, a porta dos fundos no Mercadão — que a patir a inauguração da Ceasa de Irajá, em 1976, foi se transformando num centro comercial — é apenas uma opção.

— Eu nunca quis sair de Madureira, do subúrbio. Gosto daqui, me sinto em casa, com os amigos. Tinha até vontade de ir morar no Recreio, eu faria amigos lá também, mas eu acho que não saio daqui mais não ­—profetiza Gerson.

Especiarias

Gerson é procurado quase diariamente por jornalistas de todo o mundo. Simpático, carismático e educado, tendo acompanhado o surgimento do rock no Brasil, ele é, hoje, um ícone da música negra no país, e cult até na Zona Sul. Na década de 70, era raro ele aparecer na imprensa. Um dos poucos momentos, foi quando a jornalista Lena Frias, pelo “Jornal do Brasil”, fez a primeira reportagem sobre o movimento black no Rio.

— Fomos para alguns bailes e ela fez uma grande reportagem. O título era “O novo ritmo da Zona Norte”. A partir dali, o black estourou. O black deve muito a esta moça — agradece Gerson.  — Na Zona Sul, nunca tivemos muita entrada. Só tinha um baile, no Olímpico, em Copacabana. Mas enchia.Vinha todo o pessoal dos morros.

Depois da reportagem e de muitos bailes suburbanos que consolidaram o ritmo no Rio, Gerson Gravou dois discos: “Gerson King Combo”, em 1977, e “Gerson King Combo volume II”, em 1978. Depois de anos sem reedições, eles saíram em CD. Apesar de os discos em vinil terem virado peça de colecionador, Gerson não ganha praticamente nada em direitos autorais. Vive do salário de funcionário público e dos poucos shows que, na linguagem dele, pingam.

Na galeria K, num cantinho meio escondido do labiríntico Mercadão, a Rio Flora Especiarias guarda raridades dos temperos. Entre um cesto de sal grosso (R$ 1 o quilo) e uma lata com erva de bugre (R$ 10 o quilo), estão ervas raras que temperam os pratos de grandes chefs do Rio. O quilo do estragão, adocicado e picante, custa R$ 140. Já o cardamano,  importado do oriente, não sai por menos de R$ 160. Mas nem os mais raros temperos da Rio Flora, alcançam o preço já pago por colecionadores por um disco em vinil de Gerson: R$ 250.

— Eu preferia um pouco menos de fama e um pouco mais de dinheiro — confessa.

Amores

Na cozinha, Gerson também é rei. Adora receitas italianas e não fica sem macarrão em casa. A maior parte dos alimentos são comprados por ele nos sábados no supermercado Rede Economia, ou no Shopping da Carnes, que oferecem melhores preços. No Mercadão, Gerson ainda compra peixe fresco, na Peixaria Domenico Baroni, que pertence a Carlos Barone, filho de Domenico. Ali, em novembro, o camarão rosa, de bom tamanho, podia ser comprado a R$ 12,99 o quilo. O peixe preferido de Gerson é o namorado (R$ 11,99 o quilo).

— Faço o namorado a escabeche, com molho de camarão. Quando vou para a cozinha, deixo a turma doida — revela, sem modéstia, o rei.

Gerson aprendeu muito na cozinha com Angélica. Os dois eram dançarinos nos show promovidos pelo radialista Jair Taumaturgo, que em seu programa “Hoje é dia de rock”, na Rádio Mayrink Veiga, criou uma espécie de semente do rock no Brasil. Mas eram amigos, já que ele era casado com a cantora Elizabete Marques. Em 1962, Gerson perdeu Elizabete e sua primeira filha durante o parto. A depressão foi grande, só curada com a ajuda de Angélica.

— Ela foi me consolando, me consolando e acabou me consolando quase 30 anos. Foi uma vida com ela — conta Gerson que perdeu a segunda mulher em 1990.

Depois da morte de Angélica, só namoros eventuais. Nos relacionamentos, diz que nunca viveu preconceito. Ao contrário. Era e continua sendo mais paquerado por mulheres de pele mais clara. Com as mulheres de pele mais escura, ele se sente mais rejeitado. A agitada vida romântica de Gerson não aparece nos primeiros discos. Ele preferiu caminhar por uma área mais difícil, com letras  que tinham como objetivo a afirmação do negro. Seu clássico, “Mandamentos Black”, diz: “Falar como fala um black/ Andar como anda um black/ Usar sempre o cumprimento black”.

— Isso me traz reconhecimento até hoje, mas me criou problemas. Tinha pouco espaço na mídia. Hoje, acho o negro já não precisa de tanta afirmação. Já tem ministro negão, presidente de CPI negão. Há 30 anos não tinha isso. Agora, minhas letras ficaram mais românticas — conta ele, que tem 12 músicas inéditas para gravar e continua produzindo e ouvindo soul music. — O DVD dos The Temptations não sai do aparelho.

Arruda e Escadinha

Nas manhãs de sábado, Gerson entra no Mercadão pela Rua Conselheiro Galvão e vai direto ao segundo andar. No box 23, Arthur Costa está a espera do cliente fiel com uma ramo de arruda. Todos os sábados, Gerson leva para casa a planta, e não faz com ela nenhuma iguaria:

— Coloco com um copo d’água atrás da porta. Ali, se vier qualquer coisa ruim, para o mal, bate e vai embora na hora. Isso me foi ensinado pela minha avó, que era rezadeira.

A tradição nunca foi esquecida, nem nas épocas de maior fama. Gerson conta que o assédio era tanto que passou a andar menos pelas ruas do bairro. Nesta época, foi morar com Angélica e seu único filho, Gerson Júnior, na Vila da Penha. Num fim de semana, ele notou que estava sendo perseguido e parou o carro em Madureira, próximo a casa de sua mãe. Foi interpelado por dois homens que queriam que ele entrasse em outro veículo. Gerson não estava disposto a entrar, mas os homens disseram que o músico Roberto Ribeiro estava esperando por ele. A arruda deve ter ajudado: quem esperava era José Carlos dos Reis Ensina, o Escadinha, um dos maiores traficantes da época.

— Foram subindo o morro. Quando cheguei lá em cima, tava o Roberto Ribeiro, o Beto Sem Braço, o Bezerra da Silva, todo mundo num pagode, promovido pelo Escadinha. Ele queria todos os artistas famosos de Madureira lá. Tomei um susto danado e a Angélica quase morreu do coração — lembra.

Escadinha era conhecido de Gerson desde a infância. Estudaram na mesma escola, a Cristo Rei, em Vaz Lobo. O traficante que deu trabalho à polícia do Rio na década de 80 e acabou assassinado em 2004, após cumprir sua pena de prisão, tinha uma outra imagem para Gerson:

— Ele era um bom aluno e um bom menino na escola. Todo mundo gostava dele. Eu chamava ele de Zeca e, naquele dia, nos falamos e fiquei contente.

Terrorista

As lojas que vendem pipas e assessórios continuam resistindo no Mercadão. São três, no segundo andar, com modelos de cores e preços semelhantes. Em destaque, as pipas com escudos de times de futebol e as com personagens folclóricos ou polêmicos, como Osama Bin Laden. Numa loja, o vendedor diz que a pipa não está à venda. Em outra, que acabou. Ninguém quer ficar com fama de terrorista.
Gerson também não quis levar esta fama na década de 70, durante a ditadura. Quando seu disco foi lançado, ele teve que ir prestar depoimento no Departamento de Ordem Pública e Social (DOPS) da Polícia Federal.

— Queriam saber minha ideologia. Eu disse que era dançar e namorar. Cheguei a dizer que não entendia o que acontecia com os brasileiros que não podiam protestar se no mundo todo protestavam. Ele achou que eu era meio inocente. Nós éramos inocentes mesmo. Não tínhamos esta raiva. Só procurávamos um espaço para o black.

Ao carisma de Gerson, nem a ditadura resistiu.

— O delegado ficou meu amigo. Disse para eu não levantar bandeira negra, nem branca. A verdade é que não podia ser tão radical. Era o que conversávamos porque senão iríamos presos. Não tínhamos uma guarida que tinha um Gil, um Gabeira, um cara da Zona Sul. Se a gente fosse preso, a gente ia entrar na porrada, como eu vi muita gente tomar porrada quando eu era pára-quedista. Tive que sair do Exército em 1965, por causa da música — relata Gerson que, ainda militar, viu Gilberto Gil e Caetano Veloso presos em sua unidade.

Papel de arroz, do Roberto e do Tim

Não tem para ninguém. A loja mais cheia do Mercadão é a Casa do Papel de Arroz. Um aglomerado de gente com máquinas digitais na mão, ocupando metade do corredor da Galeria G indica onde funciona a loja que produz papéis comestíveis. Por módicos R$ 5, é possível comprar um A4 com a cara do filhinho, da filhinha, do netinho ou da netinha e colocar no bolo de aniversário. Por R$ 9, você leva um tamanho A3. A vendedora também oferece foto na camisa e em imã de geladeira.
O sucesso da loja mostra o quanto a imagem é importante hoje em dia. Gerson é do tempo em que a imagem estava engatinhando. Quando começou, era no rádio que se consagravam os astros e para onde ele e seu colega atual colega de majestade, Roberto Carlos, foram.

— O Roberto foi no programa do Jair com o Snakes. Ele, o Tim Maia, o Erasmo Carlos e o Alírio, já falecido. Fizeram um teste e nem foram bem. Eles eram esquisitos. O Roberto era manco, o Tim era gorducho, o Erasmo era grandão e o Alírio baixinho ­— diverte-se o Rei Black.

Gerson conta que Tim já implicava com Roberto, a quem acusava de não saber cantar, e fez com que ele saísse do grupo. Mas, dos quatro, foi Roberto quem acabou levando a coroa. Na TV, o plano era americano e ninguém percebia a falta da perna do cantor ou sua voz pouco potente. Só seu sorriso simpático e contagiante.

— O Roberto sempre foi carismático. E aprendeu muito com a gente. Ele e a Wanderleia andavam no trem da Central, onde o pessoal do subúrbio voltava para casa cantando e dançando rock. Eles até passavam da estação pra ficar com a gente — relembra.

O mago e o maluco beleza

Nos sábados, a entrada principal do Mercadão, pela Avenida Edgar Romero, está lotada de camelôs. A maioria vende CDs piratas e o ritmo preferido são os funks e hip hops de cantores americanos. Legal ali, somente a banca de jornal que também vai sucumbindo. Revistas e jornais são poucos. Livros, nem mesmo do ex-colega de trabalho de Gerson na Polygram (atual Universal), o agora mago Paulo Coelho.

— Eu o chamava de cabeção. A gente dizia que ele era diretor da VEC. Era a diretoria do Vai Enganar Caralho. Ficava lá, fazendo criação. Depois que se juntou com o Raul, eles ficaram doidos de vez — conta.

Como bom criador, Paulo também copiava. Gerson conta que, ao chegar ao Brasil da excursão com Simonal, no início da década de 70, vestiu suas novas roupas e foi divulgar suas músicas na Avenida Rio Branco, Centro do Rio. Lá, foi xingado de tudo quanto é nome por quem passava no ônibus.

— Mas eu respondia: tudo bem, eu tô com dinheiro e carro com motorista. Você ta duro ai dentro do ônibus. Foi um perregue. Contei isso pro Raul e pro Paulo e ele disse: “Tu fez isso, mesmo?”. Depois, os dois foram para a Rio Branco fazer passeata para divulgar o disco deles.

Violada no auditório

Quebrar violão também já não era novidade para Gerson em 1967, quando Sérgio Ricardo quebrou o dele ao ser vaiado no Festival da Record. Um ano antes, em 1966, Gerson já tinha destruído um, mas na cabeça de um espectador durante um show da banda de Renato:

— Foi um show em Cataguazes. Eu estava estreando como cantor. E também o Leno e a Lílian. Estávamos todos muito nervosos e quando eu desci do palco, o Leno e ela iam entrar. Vi um cara passando a mão na bunda da Lílian. Não conversei. Peguei o violão do Leno e quebrei na cabeça do cara. Depois fiquei só com o braço, me defendendo de uns 15.

Pomba da paz

Durante muitos anos, o movimento black teve uma cisão. Seus dois principais ícones musicais, Gerson King Combo e Tony Tornado, não podiam ser chamados para dividir o microfone. Talvez nem o palco. Os dois ex-pára-quedistas ficaram inimigos no Festival da Canção de 1969. O motivo: a briga para ver quem cantaria “BR-3”, música de Tibério Gaspar e Antonio Adolfo, símbolo daquele concurso.

— O Tibério estava me procurando para ensaiar a música e o Tony disse que eu não viria porque eu morava em Cosmos, que era muito longe. Quando eu cheguei, eles já estavam ensaiando. Eu acabei cantando “Ave Gloria Day” com a banda do Dom Salvador, e ficamos em quinto lugar. Eles ficaram em terceiro. Quando me contaram esta história, fiquei para morrer. Ali criou um iceberg entre a gente.
A paz entre os dois é recente e nem precisou que os amigos comuns comprassem uma das pombas brancas (R$ 15 a unidade) vendidas nas lojas de animais vivos, no segundo andar do Mercadão. Também não houve um almoço com as galinhas, coelhos, patos, marrecos, faisão ou cabrito (R$ 80 cada filhote) para comemorar. Gerson também não comprou um espumante na Brumore, galeria H, sua loja de bebidas preferida no Mercadão. Mas, garante, agora está tudo bem:

— Eu perdoei ele. Acho que cada um tem sua hora. Era a hora dele, ele foi feliz. E quando chegou a minha hora, eu também fui feliz.

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Coreógrafo do Chacrinha

Depois das quinquilharias chinesas, os produtos mais vendidos no Mercadão são as bijuterias, vendidas por todo o primeiro andar. Na Letícia Bijoux, a vendedora conta que a moda agora são os braceletes (que podem custar até R$ 15). Mas não saem de moda os apliques de cabelos. Pretos, ruivos, coloridos, louros, podem custar entre R$ 5 e R$ 45.

O aplique dá ao visual feminino um jeito meio As Panteras (originais). Ou, abrasileirando, meio Chacretes. O Velho Guerreiro deve a Gerson a criação destas personagens:

— Eu era um exímio dançarino. Mas na época quem dominava a dança na TV eram umas bichas bailarinas argentinas que ficavam com negócio de “uno, dos, tre” e não dava nada certo. Eu trabalhava na TV Rio e o Chacrinha estava lá. Com ele, só tinham duas mulatas grandonas que não sabiam dançar. Fizemos um teste para escolher mais garotas e fazer um grupo, que eu ensaiava. As primeiras chacretes fui eu que ensinei a dançar. Rita Cadillac, Índia Apache e tantas outras. Quem popularizou a dança na TV fui eu — orgulha-se Gerson.

Ser dançarino antes de ser cantor (Gerson só foi aprender a cantar no meio da década de 60) fez dele um showman com uma presença de palco invejada por muitos músicos, entre eles Tim Maia:

— Ele ia aos meus shows para aprender. Ele dizia para mim: negão, tu não cantas porra nenhuma. Mas eu queria ter nascido no teu corpo com a minha cabeça e a minha voz.

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