9 de janeiro de 2010
Carnívoros prevalecem
BLOG, ilícito
Por Fernando Barreiros
Vou até a cozinha pegar o abridor de garrafa. Abro a gaveta, facas para qualquer tipo de carne, talvez até humana. “Não, não está aqui.” Abro a gaveta de baixo e só encontro um ralador de queijo e um martelo de carne. O calor acabou e hoje, nesta noite, o frio tomou conta. O frio, o vento e a chuva. Abro a garrafa e levo para a sala. O vinho não é realmente bom, mas é decente comparado ao que eu bebia. Sento no sofá e dou a primeira tragada no cigarro e o primeiro gole.
A campainha toca educadamente. “Não estou esperando ninguém.” Dou mais um gole e vou atender. Olho pelo olho mágico e vejo a imagem distorcida de Dario, uma gorda e outra garota com uma cara meio de travesti tailandês. Espero que não seja um travesti tailandês. - Qual é a senha? - Pergunto. Ele levanta uma garrafa de vinho com um baseado entres os dedos. A senha está certa, tenho que deixá-lo entrar.
Sentamos no sofá. O suposto travesti tailandês se apresenta como “Melissa”. Não é um mau nome pra um traveco tailandês. Em seguida, a gorda se apresenta como Amanda. Dario fala no meu ouvido que apenas Melissa é puta e “é dele”, mas que Amanda é apenas uma amiga. Obviamente, ela sentou do meu lado.
- Me dá um cigarro. - Achava que Dario havia parado de fumar. Peguei um cigarro do maço e lhe dei. Ele derrama um pouco de coca na mesa enquanto lambe os dedos e passa no cigarro. Então passa o cigarro babado na coca e acende.
- Baby, eu to carente e preciso de companhia feminina, preciso de carinho. Posso deitar no seu colo e você fingir que gosta de mim? – Disse com a mão na coxa de Amanda.
- Me acende um cigarro que eu deixo. - Acendo o cigarro com gosto de cravo e um cheiro mais enjoativo ainda.
- Aqui, toma.
- Pode deitar.
Deitei no seu colo e me senti um pouco menos pior.
- Fuma esse cigarro aqui. - Dario me ofereceu seu “cigarro especial”. Não é tão bom assim, mas pelo menos não fode meu nariz. Andei até o computador e revivi Billie Holiday, The Voice, em nossos ouvidos.
Melissa não fala muito. Às vezes fala do tempo ou de amores amargos e assados. Levantava a saia de vez em quando para provocar Dario, que a dava um motivo para continuar provocando.
A primeira garrafa de vinho chega ao final ao mesmo tempo que meu maço. O único maço.
- Bom, mes amis, como vocês são visita, vocês compram cigarro. - Me refiro apenas à Dario e Melissa. Juntamos o suficiente para uns três maços e eles saíram para comprar.
- Você está bem, querido? - Amanda pergunta, ainda com minha cabeça em seu colo.
- Sim, sim.
- Você parece sozinho.
- Menos perguntas, baby. Está bom assim como está. - E ela continuou à fazer cafuné. Ela usa um macacão que realça suas curvas gordas.
- Isaac…
- Sim?
- Posso te beijar logo?
- Agora não, por favor. E me passa o vinho.
Alguém bate na porta novamente. Dario e o ser de sexo indefinido da Tailândia. Ele me mostra cinco maços de cigarro embaixo de seu sorriso cavalar.
- Melissa roubou quatro e eu paguei um.
- Adoro segurança de posto de gasolina. - Disse Melissa com uma voz forçadamente anasalada que chega a agredir meus ouvidos.
O vinho vai acabando, os cigarros vão queimando, os remédios vão sendo cheirados e nossa pressão vai abaixando, que nem nossas pálpebras. Dario murmura suas últimas palavras antes de dormir e Melissa deita do seu lado, encostados na parede.
- Você não vai me beijar?
- Baby, só fica aqui comigo, ok? Depois a gente combina essas coisas de beijo e sexo, ok?
- Seu metido… Tudo bem, fico aqui com você sim. Você não é tão feio.
Lembro apenas que dormi pouco antes de o dia clarear. Os outros dois ainda dormem, Melissa praticamente jogada em cima de Dario que simplesmente não acorda. Ainda há restos de pó na mesa. Resto de remédios quebrados que eu cheirei e resto de coca que Dario e sua acompanhante usaram. Posso sentir os braços de Amanda me envolvendo e presumo que ela ainda está dormindo. Que braços gordos, o que diabos estou fazendo?
Olho pela janela e vejo que o dia, apesar de já ser de manhã, está escuro como a noite. As nuvens negras e cheias censuram o céu e o sol. O vento forte que bate em minha janela assovia quando nela descobre uma brecha. Pego uma garrafa de vinho que está no final e dou uns goles para acordar. Para combinar, acendo outro baseado e decido dar uma volta enquanto eles dormem. Espero que ninguém esteja morto.
Assim que passo pelo portão, uma velha me impede de andar, pois a coleira de seu poodle está na minha frente. É um desses cachorros em miniatura, que late o tempo todo que nem eixo mal lubrificado. Sem contar que parece um rato gigante.
- Tira o rato da minha frente senão eu posso pisar em cima sem querer. – Eu não sou o tipo de cara que mete medo em alguém voluntariamente, eu não consigo. Mas mesmo assim, eu guardo o fogo do inferno em meus olhos e a pretensão de um artista plástico francês medíocre.
A velha puxa seu cachorro para perto, fazendo-o soltar seu latido esganiçado. Quase um rato, eu disse. Continuo meu caminho até o posto de gasolina para tomar um café. Há um carro de polícia estacionado bem no posto, ótimo. Olho para o chão, para não verem meus olhos e entro.
- Bom dia. No que posso ajudar? – O atendente é um negão enorme com cara de mau. Sempre que entro no posto, ele está ouvindo música disco, mas toda vez que alguém entra, muda para o noticiário.
- Me vê um café. – Lhe dei seus cinqüenta centavos pelo café.
Quando saio do posto, vejo o policial encostado no carro fumando um cigarro de filtro branco. Acendo meu filtro vermelho e me sinto o fodão. Ele resolve puxar assunto comigo.
- Tempo louco, não é?
- Sim.
- Haha, parece até que o aquecimento global é de verdade. – Decidi deixá-lo a sós com sua imbecilidade e fui embora.
Sento no meio fio para tomar meu café e fumar meu cigarro. Quase não passam carros nessa rua há esta hora, mas um quase me atropelou. Tenho um problema sério com carros, eles sempre querem me atropelar. Não tenho empatia com latas de metais com rodas.
Quando chego em casa, descubro que Melissa não é um travesti, ela é apenas tailandesa e muito feia. Estava dando para Dario dentro do meu banheiro.
- Não quer fazer o mesmo não? – Perguntou Amanda.
- Nada contra, baby. – Pelo menos é sexo.
Demos o primeiro beijo e depois a encostei na parede. Parecíamos dois coelhos no cio. Principalmente eu. Agarro sua bunda gorda, seus peitos enormes e mordo seu lábio. Ela é feia, mas não o suficiente para me afastar. Ela desce sua mão até minha braguilha e abre. Penso em Rebecca.
- Ai, caralho! – A voz grossa de Dario ecoou pela casa.
- Seu lerdo! – Gritou Melissa.
- Acho que ele gozou dentro, haha. – Disse à Amanda
- Gozou dentro, Dario? – Gritou Amanda em direção ao banheiro.
- Quase! – Disse Dario enquanto abria a porta do banheiro. – Me dá um cigarro.
- Bom, a bebida acabou, você quase engravidou a infeliz e nossa maconha também acabou.
- Bah. Vamos comprar mais. Eu espero com elas duas na calçada e você vai na praia, já que conhece todo mundo por lá.
Desço da calçada para a areia. Parece um deserto gelado. O vento me empurra para trás e meus pés afundam na areia suja de guimbas de cigarro e latas vazias. Olho para frente e vejo um sujeito de bermuda e casaco se aproximando.
- Tem alguém vendendo por aí? – perguntei.
- Tô indo buscar agora, mas a galera ta aí.
Atrás dele há uma rodinha de maconheiros sem a menor perspectiva de vida. Sento com eles, como sempre. O que eu mais vejo é conhecido como Júnior. Ele não é má pessoa, é legal, até, mas sempre me pede fumo, cigarro e seda.
- Aí, assaltei dois caras hoje. Não tinham muito dinheiro, mas comprei duas cervejas. Claro que sobrou. – Pelo menos eu não sou mais assaltado por eles.
- Que bom, cara, que bom. Fico feliz por você. – Respondi.
- Haha, foi mal, eu sei que você não gosta quando falo dessas coisas.
- Relaxa. É que corta minha onda.
Olho para trás para ver se o carrinho de golfe da polícia está passando ou se Melissa, Dario e Amanda ainda estavam distraindo-se com suas bocas e mãos. É, eles estão. O sujeito de bermuda e casaco volta e todo mundo se amontoa em volta dele. Ele sempre foi um bom empresário de exportação/importação. Nunca deixou um cliente sem qualquer tipo de droga. Cocaína, lança-perfume, maconha, crack, LSD, ecstasy. Porém, não faz idéia do que seja ópio. Entreguei-lhe o dinheiro e me vendeu o produto pela metade do preço.
- Você é um santo. – Disse ao empresário
- É só continuar pagando o dízimo que eu continuo fazendo milagre.
Ao voltar pra calçada, a areia parece mais funda e o vento mais forte, mas dessa vez está ao meu favor. Fico olhando para o chão para não cair, o que torna a areia da praia supostamente infinita.
Dario, babaca como sempre, levanta do banco, abre os braços e grita para mim:
- Traga-nos a felicidade! – Melissa bota seus braços ao redor de Dario e beija sua bochecha.
- Vamos sair logo daqui antes que vocês levantem uma grande bandeira com “DROGAS” escrita em letras garrafais. – Amanda está certa, eu me conheço e conheço Dario, nós faríamos isso.
Voltando para casa, cada um agarrado com sua respectiva garota, três caras mais ou menos do nosso tamanho quiseram arrumar briga. Quando passaram por nós, um me encarou e os outros dois gritaram “viadinhos!” quando já estavam de costas. Dario sempre foi um cara meio estourado. Pegou sua navalha do bolso e abriu.
- Ei – gritou Dario para os três sujeitos.
Todos se viraram, mas apenas um andou até Dario. Pegou o sujeito pelo pescoço, o bateu contra a parede e ameaçou cortar sua garganta com a navalha. Eu podia ver o ódio nos olhos de Dario.
- Calma, cara. A gente só tava brincando. – Disse o sujeito encostado na parede quase chorando. – A expressão de Dario mudou pra uma expressão mais serena, mas ainda assim com ódio e desprezo.
Deu uma cabeçada no infeliz e disse “Não se mete com gente doida, porque é isso que eu sou. E de vez em quando, eu posso não conseguir me controlar.” Seu nariz sangrava, me lembrou um porco no abatedouro. Eu continuei abraçado com Amanda só me divertindo com o espetáculo.
Claro que se eles quisessem briga eu teria de ir com Dario, mas até lá, me divirto. Dario deu outra cabeçada no nariz do sujeito e o segurou pelo cabelo. Nunca fui de entrar em briga, sempre preferi telequete.
- E ninguém vai ajudar seu amigo? Um dia ele acaba morrendo assim. – E jogou-o de cara na calçada. Os outros dois pediram desculpas, também quase chorando e ajudaram o amigo a levantar.
Dario acende um cigarro e volta para perto de mim e das garotas.
- Acha que eles vão querer arrumar merda depois? – Perguntei a Dario.
- Você viu a cara dos outros dois? Você viu o estado do que eu bati? Se eles quiserem, como diria nosso amigo Vito, vendetta, só se forem muito burros.
- Porque você não foi lá também, Isaac? – Perguntou Melissa.
- Eu to chapado ainda. Não quero socar a parede achando que to socando um nariz.
- Faz sentido.
Chegamos em casa, finalmente. Sentamos nos mesmos lugares. Dario me pediu metade de um antidepressivo. Quebrei a outra metade e misturei com outro antidepressivo que ele havia trazido. Cheirei aquilo e deitei no colo de Amanda novamente. Fico mal por todas que me deixaram e todas que eu deixei. Penso especialmente em Sonia, a psicopata. Abraço Amanda como se realmente gostasse dela.
- Então, querido, não vai fazer nada? – Amanda pede com os olhos e eu a beijo. – Só isso?
- Bom, eles dois ainda estão aqui. Quer que eu te coma na frente deles? – Foi uma pergunta retórica.
- Nada contra. – E Amanda continua achando que sabe provocar. – Alguma objeção? – Perguntou aos outros dois.
- Como se a gente não fosse fazer o mesmo. – Respondeu Dario.
4 comentários para “Carnívoros prevalecem”
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9 de janeiro de 2010 às 15:12
o mais foda é que não consigo de jeito algum parar de ler algo seu que já comecei. haha, do caralho, baby
10 de janeiro de 2010 às 2:25
Bacana, é até bem comportado, ficou bonito e seco.
22 de janeiro de 2010 às 15:04
bom… seco
21 de fevereiro de 2010 às 21:20
texto muito interessante,
de leitura fácil e direta.
Senti uma certa influência
de Bukowski,
tô certa?
xoxo