26 de setembro de 2008
CapÃtulo 3: 33
Por Flávio Izhaki
- Ô Zé, não cumprimenta mais a ex-namorada? Vai cuspir no prato que comeu?
A naturalidade de Cláudia. A opressora naturalidade de Cláudia, o falar alto, gesticular, o sorriso de 78 dentes, jeito espalhafatoso de se vestir, de puxar conversa com todos, qualquer um, até com o ex-namorado.
- Senta aà e toma um chope! – no pedido, uma ordem.
Zé Pereira sentou, sujeito-homem. E esse anel no dedo, aliança na mão esquerda, casamento: quem seria o Zé Pereira depois do Zé Pereira?
- Está vindo de onde tá indo pra onde? – Cláudia de novo, a mulher-citação.
As palavras presas, a lÃngua que se recusa a abrir espaço entre os dentes. O que falar, como se portar? Zé Pereira ainda calado. Quantos segundos já teriam se passado desde que sentara e não abrira a boca? O pensamento impedindo a ação, bloqueando a espontaneidade, e ele começou a contar: 28, 29, 30, 31, 32. Em voz alta o 33, sem perceber.
- Trinta e três? Está me achando com cara de médica, Zé? – Cláudia dona da situação, 156 dentes de um duplo sorriso, deboche.
- Não, é… 33 eu disse, não foi? Trinta e três anos está fazendo o Marcelinho hoje – conseguira remendar a tempo – estou indo lá no aniversário dele daqui a pouco. Vamos lá?
Convidara Cláudia para um programa, foi isso? Ato impensado, imprensado contra os azulejos do Nova Capela. E agora a vida era apenas a espera pela resposta, uma espera que se estendia em minutos, meses, quatro, o tempo de separação entre os dois, e o olhar de Cláudia oscilando entre o rosto dele e a porta, será que ela está esperando alguém?, e novamente no rosto dele, no chope, último gole, 12, 13, 14, 15, 16… – Zé Pereira de novo contando.
- Mas o aniversário do Marcelinho não é hoje!
- Não é hoje? É sim, não é? – Cláudia me domina, ele pensa, Cláudia ainda me hipnotiza, e agora era o olhar dele que vacilava entre o rosto dela e a porta, o dedo anular e parede azulejada, os avisos colados na parede, peça de teatro, aulas de violão, show de samba.
- Mas de que Marcelinho você está falando?
- Mais dois chopes?
- Santo CÃcero, providencial mestre de lentes embaçadas, solta dois chopes, ó mestre-prático. O meu sem colarinho que sou sujeito-homem, não gosto dessas frescuras de creme.
- Eu, hein, Zé, que história é essa de sujeito-homem?
A mudez de Zé Pereira novamente, os lábios secos que não se desgrudavam, falta de saliva, memória de cerveja.
Sujeito-homem. Isso mesmo, pensou, mas não falou, sujeito-homem, sim, mais sujeito-homem que esse aà do anel. Pensou, mas não falou.
- Você está estranho, Zé! – uma afirmação, Cláudia só falava no imperativo. Se Cláudia falasse por escrito colocaria três exclamações ao final de cada frase.
- Mas que Marcelinho é esse, Zé? Não é o meu Marcelinho, é? – mesmo as interrogações de Cláudia eram exclamações.
A porta do Nova Capela se abriu e um sorriso veio andando em direção a mesa onde os dois estavam. Um homem, um homem no diminutivo enlaçou o pescoço de Cláudia e estalou um beijo no cantinho do lábio.











