22 de janeiro de 2010
Capitão Nazi
Por Eduardo Souza Lima
Super-herói clássico de quadrinhos não mata. Ou pelo menos não mata quando o autor da história sabe escrever; vamos esquecer a barafunda que se tornaram Marvel e DC nos últimos tempos. Não é saudosimo, nem coisa de gente políticamente correta: é como se houvesse um acordo velado entre os bons roteiristas, um guia de condutas para deixar bem claro quem é mocinho e quem é bandido, para lembrar o leitor que, sob qualquer circunstância, matar é errado - não vamos esquecer que o super-herói de quadrinhos é um personagem essencialmente americano, e nos Estados Unidos existe pena de morte; seria uma posição política, mesmo, tomada em plena luta pelos direitos civis nos anos 60. E uma forma de criar conflitos interessantes para os personagens; afinal vigilantes mascarados agem tão à margem da lei quanto seus antagonistas – o que os diferencia? Além do que, não é fácil criar um bom vilão – quantos Duendes Verdes, Coringas, Lex Luthors e Doutores Destino existem por aí?
O herói clássico de HQ é um campeão da vida, esta é a sua razão de ser. Esta regra, porém, raramente é seguida em adaptações de quadrinhos para o cinema ou para séries de TV. Questões morais são simplificadas de tal forma que os roteiros parecem ter sido escritos por crianças. O Batman do Tim Burton (”Batman”, 1989, escrito por Sam Hamm e Warren Skaaren) matou o Coringa; o de Christopher Nolan (”Batman begins”, 2005, escrito pelo diretor e por David S. Goyer), Ra’s al Ghul – e, em nenhum dos dois casos, em legítima defesa ou acidentalmente, mas porque os personagens se julgaram acima da Lei. Nos quadrinhos, isso seria impensável. Pior ainda é o caso do Demolidor. Criado por Stan Lee, um sujeito humanista, Matt Murdock é um advogado cego que acredita piamente na Lei. Apesar disso, age em suas sombras como um vigilante mascarado. Ela carrega este conflito – e isto é o que o torna um bom personagem -, mas, como tem capacidades sobre-humanas, acha que deve usá-las para tirar criminosos de circulação. Mas tirá-los de circulação para entregá-los à Lei. No filme estrelado por Ben Afleck (”Daredevil”, 2003, escrito e dirigido por Mark Steven Johnson) ele é um assassino, um executor, uma espécie de Justiceiro. Densidade psicológica, ideológica e moral zero.
Mas nenhum filme é tão, digamos, confuso ideologicamente quanto o desenho animado “Os Incríveis” (”The Incredibles, 2004″). É curioso que não se tenha falado disso – ainda mais em se tratando de uma produção dirigida, em primeiro lugar, para o público infanto-juvenil. Embora não seja uma adaptação direta de nenhuma HQ, usa de sua linguagem, além de tomar emprestado o argumento de “Watchmen” - heróis impedidos de agir pele Lei – e a atmosfera família e os poderes do Quarteto Fantástico e do Flash. Nem vou falar da excelência da animação digital 3D, nem do roteiro enquanto filme de aventura para toda a família, que funciona. Só que a mensagem que ele passa é, no mínimo, estranha. O mocinho é o Sr. Incrível, um super-herói que age clandestinamente e é um típico paizão americano, com adoráveis esposa e filhos, todos com poderes especiais. O vilão, Síndrome, quando criança, queria ser seu parceiro na luta contra o crime, mas foi rechaçado – e ridicularizado – por não ter superpoderes. Ele é um louco, mas o seu desejo é que todos os seres humanos tenham superpoderes, que não precisem de ninguém mais forte do que eles para os protegerem – ou seja, que todos sejam iguais. O Sr. Incrível o mata num acesso de fúria, mas não demonstra nenhum arrependimento – com o agravante de, não custa lembrar, ele ser aquele garotinho que o idolatrava. É como se dissesse ao espectador: nós não somos e não devemos ser iguais. Eu, hein?, se ainda fosse nos tempos da Guerra Fria…
Sem contar que no filme, até os filhos do Sr. Incrível, duas crianças, mesmo que em legítima defesa, matam. O diretor e roteirista Brad Bird tinha dirigido antes “O Gigante de Ferro” (”The Iron Giant”, 1999), desenho animado em 2D que pregava a aceitação das diferenças. O filme foi um fracasso de bilheteria, ele foi chutado da Warner e sua carreira foi dada como sepultada. Vai ver o cara ficou com trauma.












22 de janeiro de 2010 às 15:49
[...] grana - que, por sinal, não era muita. A última nem chegou a sair, por isso estou publicando ela aqui. É sobre um desenho animado que muita gente enche a bola, mas que me causa horror, “Os [...]
29 de janeiro de 2010 às 10:52
Nossa! Não vi, não me interessou, mas concordo. Não sabia que o personagem principal e até seus filhos matavam. Lógico q tá errado.
1 de fevereiro de 2010 às 13:22
Legal o texto.
Voltei a ler quadrinhos de super-heróis da Marvel após um tempão, e o que mais me atraiu é justamente essa questão ética levantada pelo seu texto.
Todas as sagas desde “Avengers Disassembled” (Vingadores: a queda, por aqui) todo o universo ’super heroístico’ da editora vem colocando o heroísmo em questão.
22 de fevereiro de 2010 às 19:13
Nunca tinha visto por esse prisma “os incríveis”, (mas que é tudo branquela metido a herói, duma maneira cómica e inteligente também, a produção é excelente-MUITA GRANA, é verdade)acho que tens razão porque o subliminar da mensagem é que apesar de sermos todos americanos brancos, superiores a todas as outras “raças”, também podemos ser divertidos e humanos como o resto da escumalha das sub-espécies miscegenizadas.
O Star Ship Troppers também é uma merda bastante Nazi, porque embora apareçam brancos e pretos, (O Inimigo são os Insectos!)a malta nunca consegue transar uns com os outros…
Parece que há um aparthaid rácico que impede os norte americanos de transar uns com os outros e criarem a espécie humana, coisa que o Brasil há mais de 400 anos pratica e o torna o país mais evoluído do planeta terra em termos de espécie dominante…
Graças a Deus que Portugal está no caminho certo apesar de termos um governo de sacanas que pensam que são brancos e pior que isso europeus e ainda pior que tudo, ibéricos, quando os espanhóis sempre foram o nosso principal inimigo e a única razão de acharmos o Brasil e Angola e tudo e tudo…a verdadeira razão para nos pôr a navegar foi só porque não conseguíamos de maneira nenhuma dormir com o inimigo !
AV2
24 de fevereiro de 2010 às 17:23
herói pra mim é o capitão bacalhau!
26 de fevereiro de 2010 às 17:57