13 de outubro de 2009
Canto inferior direito do último quadro
BLOG, FIQ 2009, Quadrinhos
A despedida dos 6o Festival Internacional de Quadrinhos teve José Aguiar, Will Conrad, o Projeto Kaplan, discussões sobre adaptações literárias e o estreante francês Olivier Tallec
Por Dandara Palankof
Fotos: Rose Lima
O Palácio das Artes ainda tinha um bom movimento no último dia de FIQ: o número de pessoas que resolveram aproveitar o feriado de ontem para circular pelas exposições do evento era, realmente, notável. Uma pena que ainda não se consiga reverter esta atenção em interesse pelas especificidades da produção quadrinística que são esmiuçadas durante os bate-papos. Mas já é um bom começo,
Os trabalhos da tarde de ontem começaram novamente às 14h, para um teatro com público razoável, com o quadrinista curitibano José Aguiar (que lançou o álbum Quadrinhofilia pela Editora HQM). Aguiar fez um apanhado geral de sua carreira enquanto mostrava páginas de seus trabalhos, como a história de ligeira influência noir “Ernie Adams”. Para Aguiar, uma das melhores coisas em se fazer este tipo de história está na possibilidade em se fazer pesquisas históricas para a ambientação (”Ernie Adams” se passa em meados dos anos 1950).
Além da obra de teor histórico “Canudos”, outro trabalho de destaque de Aguiar é o álbum “Folheteen”, que surgiu como uma tira de jornal. “A idéia era fazer uma série sobre adolescentes que tivesse uma viez mais crítico; então criei a Malu, uma adolescente que odeia adolescentes”, contou o quadrinista. Existem planos para um segundo livro da personagem, e ela também estrela uma história de uma página feita especialmente para a exposição do FIQ Isso é a França, na qual ele fala da importância do personagem Asterix. Seu mais novo trabalho, com o roteirista André Diniz, é o gibi independente “Ato 5″, e foi lançado durante o evento; conta a história de um grupo de teatro durante a época de nossa ditadura militar, quando é declarado o Ato Institucional no 5.
Aguiar também está presente na coletânea “MSP 50″ (na qual artistas reinterpretam a Turma da Mônica), onde assina a história da “Megali”: depois de tanto comer, a Magali acaba sendo a nova gorducha da turma. Atualmente conseguindo viver de seu trabalho como ilustrador e quadrinista, ele ainda declarou sua preferência por técnicas digitais apenas para colorização e que acredita nas novas tecnologias. “O download vai acabar sendo incorporado ao produto; e quanto à comunicação online, foi fundamental para divulgar meu trabalho, além de receber mais facilmente as repostas dos leitores”.
Seguindo a estrutura de bate-papos relâmpago, meia-hora depois os integrantes do Projeto Kaplan subiram à mesa sob o tema Quadrinhos Fora do Papel; mais especificamente, seu projeto de HQs para iPhone. Alex D’ates afirmou que o processo de produção da história é pensado não por página, mas por quadro. E coube a esta signatária perguntar se não seria isto uma descaracterização das histórias em quadrinhos, visto que este tipo de meio prescinde de elementos essenciais do gibi, como a sarjeta.
D’Ates respondeu que pode-se pensar no desenvolvimento da história como no de uma tira um pouco maior (os quadros são passados, um por um, lateralmente, na tela do aparelho), e citou outros aplicativos que adaptam HQs para a tela em que há perdas muito maiores no conjunto da narrativa. “No review que recebemos do UniversoHQ, por exemplo, disseram que o flerte com a linguagem cinematográfica funciona muito melhor em histórias como a nossa. E desistimos de qualquer dublagem, justamente porque a informação escrita é imprescindível em uma HQ; não queríamos cair no stop motion, como essa HQ online da Mulher-Aranha que a Marvel lançou”, concluiu.
O trabalho do Kaplan, que começou em 1997 como um projeto voltado para a web, consiste em “temporadas” de histórias, com cerca de 100 quadros. Sobre o público, Gio Vieira confirmou que o público estrangeiro é quem mais baixa as histórias. “A Apple Store acabou de abrir sua versão brasileira, mas é bom, é um modelo de negócios muito bem estruturado, e a tela do iPhone, em qualquer versão, é padronizada. Por isso a preferência pelo aparelho”. Sobre a história: Kaplan é um universo sem humanos, povoado por várias raças hominídeas, e os conflitos entre elas. Até agora, já foram “publicados” os capítulos “Legado” e “Aldeia”. Para conhecer mais, ww.projetokaplan.com.br.
Mais meia hora e volta ao teatro João Ceschistti o desenhista Will Conrad, para falar aos presentes sobre anatomia. Conrad começou dando um conselho aos iniciantes: “Não desenhem só o que vocês virem no gibi, ou não vão ter a percepção do real. Se não podem estudar aonde ofereçam exercícios com modelos vivos, vá até uma praça e desenhe as pessoas de lá; vai aprender planejamento, também. E não achem que livros de anatomia vão ser de grande ajuda. A percepção artística é diferente. Quando se desenha, há mais ali do que o tecido muscular. E há que se saber diferenciar as anatomias de difentes personagens”, disse o artista, que é mineiro, apesar do nome.
Conrad também declarou ser a favor do uso de qualquer ferramenta, como fotografias, desde que o artista não se torne escravo delas, e domine todas as técnicas básicas de desenho; e citou um artista em voga atualmente como um mau exemplo. “Acho o Greg Land um pouco deficiente, no sentido de que ele só desenha o que tiver referência fotográfica; não é como o Alex Ross, por exemplo, que primeiro cria o design para depois tirar as fotografias”.
Ainda assim, para Conrad, um certo distanciamento do real é essencial em qualquer história em quadrinhos. “Ou então todo gibi vira fotonovela”, disse. Perguntado sobre qual personagem gostaria de mudar a anatomia, Conrad afirmou que não concorda com as concepções mais exageradas do Homem-Aranha. E sobre a anatomia feminina, lembrou a tendência criada por Mike Deodato Jr. Quando passou a desenhar a Mulher-Maravilha. “Mas prefiro desenhar personagens femininas de forma que elas pareçam mais reais.”
Um pequeno intervalo para circular uma vez mais pelos estandes, ou conferir alguma exposição que tenha faltado e, uma hora depois, às 16h30, as tão faladas adaptações literárias em quadrihos, voltadas para o público escolar, foram discutidas por Luis Gê, (de “O Guarani”) André Toral e Wellingtn Srbek (de “Estórias gerais”). Pode-se dizer que a conversa foi bastante agitada e até com uma certa animosidade, mas mais entre os próprios debatedores do que por uma participação acalorada da platéia (não por desinteresse, mas por falta de espaço, mesmo), salvo uma ou outra exceção. E ainda por cima, no começo da conversa, o fornecimento de energia falha, deixando a sala à penumbra, com apenas as lâmpadas de emergência para dar conta do recado.
Para Gê, o melhor destas adaptações é suprir certas informações que à vezes escapam aos livros: certos modos, ou objetos utilizados; coisas que não são especificamente retratadas em um livro por, afinal de contas, fazerem parte do presente daquela obra. Já Toral começou a controvérsia ao dizer que nunca acreditou em adaptações literárias: nunca há liberdade total na criação do novo produto, já que a HQ ainda é exercida como arte de “retaguarda”, resguardando valores antigos. E que vê a atual valorização das histórias em quadrinhos apenas em subserviência à literatura.”Entre ler o livro ou a adaptação em quadrinhos? Ambos. O ideal é que se trate de uma versão, uma nova leitura.”
Esta visão foi corroborada por Srbek, que afirmou ainda ser este o primeiro passo para a formação de um verdadeiro mercado de histórias em quadrinhos nacionais. “É a partir do desenvolvimento deste mercado que faremos o caminho inverso: as histórias em quadrinhos irão para as escolas não por serem adaptações, mas porque são boas histórias em quadrinhos em si. Infelizmente, não vejo isso acontecendo em breve.” Perguntados também sobre a diferença entre as adaptações de hoje e as que se faziam na revista “Histórias maravilhosas”, publicada pela Ebal, foi consenso que as de hoje possuem uma percepção muito maior do que é a linguagem quadrinística.
E coube ao ilustrador francês Olivier Tallec encerrar as atividades do FIQ 2009, apresentando seu primeiro trabalho em quadrinhos: “Negrinha”, recém-lançada no Brasil e roteirizada pelo franco-brasileiro Jean-Christophe Camus (neto do escritor). Tallec contou de seu trabalho como ilustrador para diversas mídias, incluindo livros infanto-juvenis e revistas femininas, e sobre as vindas ao Brasil para fazer as pesquisas necessárias à história, cuja personagem principal é inspirada na mãe de Jean-Christophe.
O trabalho incluiu o uso de fotos de família e a busca por revistas da década de 1950, quando a história de Negrinha se passa. “O processo durou três anos”, contou Tallec. “Apesar disso, nosso maior interesse não era fazer um trabalho histórico, ou cronológico. O que mais nos interessava era retratar a relação entre mãe e filha que se dá entre as personagens principais.” Segundo ele, neste sentido, muita coisa acabou sendo romanceada ou simplesmente omitida, tornando a ligação orgãnica entre os fatos a característica a qual dedicaram maior atenção durante o trabalho. “E obviamente a mãe do Camus não queria que todos os detalhes da vida dela fossem contados na história”, completou o artista, dizendo ainda que o fio condutor da trama, a paixão por um rapaz morador do Morro do Cantagalo, é puramente ficcional.
Sendo este seu primeiro trabalho, era natural a pergunta sobre a satisfação de Tallec com o resultado, ao que o artista respondeu ser meio difícil ser realmente crítico com o próprio trabalho; mas que estava, sim, contente com o que conseguiu alcançar. Respondeu ainda sobre a técnica de composição das suas páginas, afirmando fazer primeiramente o trabalho com cores e, só então, fazer os traços “com cuidado, para não carregar demais o desenho”; e falou de seu próximo trabalho, uma gibi sobre um fato histórico da Prússia de 1715. “É engraçado, isso, de um fato relativamente simples render 200 páginas de história. Essa é a diferença básica entre um trabalho e outro: um é mais intimista, o outro terá ares de epopéia.”
E dito isto, o 6o Festival Internacional de Quadrinhos cerrou as portas do teatro João Ceschiatti pela última vez este ano; os estandes eram desmontados, as pessoas se despediam; uma última conferida no que ficou por ver. Hora de colocar o FIM no canto direito inferior do último quadro de mais esta edição da saga pelo reconhecimento das histórias em quadrinhos no Brasil. E pode-se dizer com quase certeza que, se depender da reação e presença dos leitores e também dos artistas, esta série não será cancelada tão cedo. Provável até que ganhe mais páginas. Até 2011.
Exposições – Parte IV
Não era bem uma exposição, mas era considerada como tal, ao menos pela organização do evento, que assim a considerou no programa do FIQ: o Beco dos Artistas era um estande na tenda Eugênio Colonese, no qual os artistas convidados podiam chegar, sentar-se em uma das pranchetas disponíveis e começar a desenhar; mostrar aos fãs como a mágica era feita, ao vivo. Durante todo o evento, havia sempre alguém sentado, e sempre alguém acompanhando o trabalho.
Já a exposição de Quadrinhos Alemães não é tão abrangente como seu nome dá a entender; trata-se de uma mostra de originais e edições dos dois quadrinistas germânicos convidados do evento: Reinhard Kleist e Jens Harder. Não que o trabalho de ambos não seja suficiente para encher os olhos de qualquer um. Destaque para as páginas apresentadas de Alpha (Harder) e Havana (Kleist).
Sim, mais Ano da França no Brasil. Mas a exposição Isso é a França não deixa ninguém se sentir empanturrado. Consiste em ilustrações ou histórias de uma página feitas por 15 artistas brasileiros, como Laerte, Luiz Gê e Rodrigo Rosa, e 15 artistas franceses, Jano, Florence Cestac e Béatrice Tillier entre eles; ao contar sua visão do país europeu, a diversidade é a grande característica da exposição, iluminando vários aspectos do que faz da França o que ela é, de sua história ao comportamento cotidiano de seus habitantes.
Deixe um comentário
- Ota mostra como se faz
- Granadilha cai na rede
- Hoje morreram os X-Men
- O segredo do abismo
- Um estranho numa terra estranha
- Plano 9 do espaço sideral
- Viver a vida
- Vidão
- Só com receita médica
- Canto inferior direito do último quadro
- Para os que têm fôlego
- FIQ extravaganza!
- A noite do Morcego
- Para o alto e avante!
- Entre o cult e o popstar nas HQs brasileiras
- O vasto mundo das histórias em quadrinhos
- Viajando entre sarjetas
- Allan Sieber é mainstream
- Solidão e álcool
- Princesinha do noir
- Guerreiro do azulejo
- Tainhas e saúnas
- Quis custodiet ipsos custodes?*
- O sonho de Menezes
- Livros de arte
- Bzão em Niterói
- Desenhando pelo mundo
- Onipresença
- Mutarelli dá as caras
- O eterno retorno















