13 de janeiro de 2010
Calcanhar de Aquiles ou Do andar de ônibus – Parte III
BLOG, bolo de rolo
Por Dandara Palankof
Há alguns dias, um pouco depois das 23h. Lá estava eu, na 503 Norte; avenida W3. A parada de ônibus era escura e estava completamente deserta. O trajeto que eu precisava percorrer não era assim tão longo: chegar ao final da avenida, fazer o contorno no final da Asa, e assim chegar à sua contraparte, a L2 Norte, vencer mais algumas quadras e descer no ponto da 409 Norte; cerca de 8km. A verdade é que se eu o fizesse a pé ele seria encurtado em pelo menos 2km; coisa que já fiz muito na vida, mas o cansaço e as circunstâncias (alcoólicas) não me impeliam a fazê-lo. O resultado? Esperar 40 minutos por um ônibus que me deixaria perto de casa em, no máximo, 15. Respirei fundo e me senti brasiliense novamente.
A velha dificuldade do transporte público da capital federal… talvez a única reclamação unânime entre moradores e visitantes. Um sistema completamente deficiente, dominado por (mais uma) máfia, formada por gente como Nenê Constantino (dono de várias empresas rodoviárias que aqui operam, um dos donos da GOL e recentemente indiciado como mandante de um homicídio, alguém se lembra?); que não atende às necessidades de sua população e acaba por causar a incrível média atual de dois carros por habitante em Brasília; temos atualmente um Distrito Federal inchado por quase 3 milhões de pessoas; quando a cidade foi construída, previa-se para esta década metade disto. Faça as contas.
Os problemas são muitos, e podemos começar com o vivido por esta (eventual) usuária algumas noites atrás. Os ônibus circulam em quantidade relativamente satisfatória durante o dia; as linhas que ligam as Asas diretamente às satélites (a maioria parte da Rodoviária, no centro da cidade) são mais escassas do que aqueles que circulam somente dentro do Plano Piloto, mas possuem horários fixos que são cumpridos com certa pontualidade.
O problema é quando chega a noite: ali pelas 22h todos já começam a rarear, principalmente os circulares do Plano Piloto. É uma espécie de círculo vicioso: os moradores se sentem reféns dos poucos ônibus e compram carros; as empresas, por acharem que os passageiros são raros, também rareiam os ônibus; e assim por diante. E não se engane pelo começo desta coluna, caro leitor, quando eu disse que esperava sozinha pelo ônibus: era eu quem estava numa quadra na qual realmente não existia nada para se fazer depois das 22h. Mas quando a linha 116 finalmente passou, o ônibus estava completamente lotado, pessoas em pé e tudo o mais; e continuou a encher-se ao longo do trajeto. A cidade cresceu e as pessoas não mais param de viver depois das 20h, quando o costume provinciano que parecia dominar a cidade até alguns anos atrás ditava que, a esta hora, era pra todo mundo estar jantando com a família e vendo o Jornal Nacional.
De madrugada, então? Recife tem os famosos Bacurais, em referência a um pássaro noturno, salvo engano. Em Brasília, você tem que se dispor a dar um jeito de chegar na Rodoviária (porque os circulares das Asas Sul e Norte param à meia-noite, quando muito), e esperar pacientemente que saia algum ônibus, pois os horários são irregulares, as linhas também… e no sentido inverso, então, das satélites para o Plano Piloto, nem pensar. Quem diabos quer saber desse povo da periferia descendo pra Ilha da Fantasia pra aproveitar o que quer que esteja acontecendo por lá? Segregacionismo estrutural.
Certa vez eu disse que Brasília era uma cidade feita não para carros, como muitos afirmam, mas para andarilhos. E sustento. Mas isso porque a maioria das pessoas pega seus carros para andar duas quadras, como se fosse uma distância enorme; por isso somos obesos e cardíacos. Já as retas de 6km em cada avenida de cada Asa… disposição e juventude ajudam. Mas e os que não tem tempo para fazer o trajeto a pé? E os que não se sentem (com razão) seguros de fazê-lo quando a hora já se adianta? E aqueles que simplesmente não podem se locomover (e só agora começamos a ver alguns poucos carros adaptados)?
E tudo isso por uma das tarifas mais caras do país: R$ 2 para as linhas de curta distância, R$ 3 para as linhas mais longas. Mais um dos fatores a tornar o custo de vida em Brasília um dos mais altos do país (experimente entrar num sie de imóveis e ver quanto custa o aluguel de um apartamento de 2 quartos na Asa Sul…). A questão é que o poder aquisitivo da população simplesmente não acompanhou todos os custos inflacionados, até porque esta não é mais uma cidade basicamente de funcionários públicos. Isso acabou. Hoje em dia, quem faz dinheiro em Brasília é empresário (de empresas de ônibus, então…). Ou professor de cursinho pra concurso. E não são essas as pessoas que precisam pegar ônibus.
Como era de se esperar, máfia nenhuma que se preze vai dar mole pra estudante. O sistema de passe estudantil em Brasília sempre foi deprimente: o cadastro era demorado e de uma burocracia estúpida. Cada empresa possuía a sua central de vendas. O passe era válido unicamente de segunda a sexta, e emitido exclusivamente para a linha que fizesse o trajeto entre a residência e a casa do estudante. Digno de vilão de desenho animado. O governo, claro, nunca fez nada; os capos se ajudam, ora essa! Os estudantes, visto que o movimento estudantil nasceu e morreu nos anos 1970, muito menos. Agora que foi implantado o sistema de cartões eletrônicos, a única coisa que mudou é o fato de que os créditos para todas as linhas são vendidos no mesmo lugar. Mas se você experimentar passar o cartão em uma linha que não seja aquela de seu cadastro, a tarifa será cobrada integralmente. E ainda têm a pachorra de chamar o sistema de Fácil.
O metrô? Tudo o que precisava ser dito sobre a obra mais inútil e descaradamente feita para lavar dinheiro em 50 anos de Brasília, foi dito na coluna passada. A tarifa? R$ 3. E não se deixe enganar pela logomarca que os ônibus carregam dizendo “Brasília integrada”; as pífias linhas que formam um sistema de integração com o metrô simplesmente são as que tem menor demanda para tal. Afinal de contas, se isso acontecesse, a tarifa teria que ser diminuída, e ninguém quer isso, não é mesmo?
E enquanto isso, a classe-média e os abonados brasilienses se afundam em seu individualismo tacanho, fecham os olhos para o fato de que tal precariedade é uma das bombas-relógio que vão acabar explodindo esse lugar e vão comprar mais um carro zero, porque o presidente é bacana e abaixou o IPI. Viva.
Dandara Palankof nasceu em Recife, mas cresceu em Brasília, e já experimentou o absurdo isolamento de se morar numa satélite; voltou a morar em Recife, onde pode voltar de ônibus pra casa as 3h da manhã, se lhe der na telha; de férias na capital federal, desacostumou-se a esperar longamente pelo mítico Grande Circular (L2 Norte/L2 Sul/W3 Sul/W3 Norte).
2 comentários para “Calcanhar de Aquiles ou Do andar de ônibus – Parte III”
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13 de janeiro de 2010 às 8:52
Voltar capital pro Rio URG
18 de janeiro de 2010 às 11:04
foda mesmo.
fizemos um calendário sobre os pontos de ônibus de brasília, se quiser conhecer: http://pindura2010.blogspot.com