27 de janeiro de 2009
Calabocracia
Por Arnaldo Branco
Já sugeri que o livro “Não somos racistas”, do Ali Kamel, tivesse o subtítulo “só mentimos um pouquinho”. Acho engraçado essa generalização forçada para nos defender de um crime de que não fomos acusados.
Sim, porque o mito associado ao Brasil não é o do racismo, e, sim, o da democracia racial. Vai dizer que aqueles shows de mulatas não vendem direitinho a idéia de que somos um paraíso de tolerância porque aqui a gente faz muito sexo interracial?
Mas, paradoxalmente, os adeptos da teoria do Kamel identificam focos do tal racismo - provenientes das pessoas que acham que ele existe. Aqui, quem diz que há discriminação racial é que é racista, lógica invertida que parece argumento de briga de criança: “é você!”.
Outro dia, um taxista me explicava como gosta de xingar os motoristas de ônibus de macaco e Fu Manchu (?) para deleite de seus passageiros. Claro que esse tipo de ocorrência é tratada como residual por aqueles que acham racismo assim tipo sarampo, que foi erradicado, mas ainda tem.
Portanto, a solução para o fim do problema seria todo mundo calar a boca. Bela democracia, hein?
14 comentários para “Calabocracia”
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27 de janeiro de 2009 às 9:34
[...] Coluna que atrasa também adianta. Arnaldo Branco manda lembranças pro Ali Kamel aqui. [...]
28 de janeiro de 2009 às 13:15
esse vídeo da tv pirata já circula na net tem tempo e é sempre engraçado. Mas esse livro do Ali Kamel não podia sair nada diferente, ex-Veja, Globo, blá, blá, blá. Parte daqueles que instituicionam o racismo no Brasil. Me lembro bem de, quando moleque, ler a Veja com algumas matérias interessantes sobre racismo e pretos (como eles adoravam dizer). Coisas do tipo “60% da população da França é racista”, ou seja, “nos países de Primeiro Mundo as pessoas são racistas vc não vai ser?”. O Brasil não é racista apartheid, mas é racista, porra, claro que é. Eu entendo a aversão dos vestibulandos brancos contra as cotas, mas e vc, Ali Kamel? Escrever um livro pra negar seu racismo não é racismo demais?
28 de janeiro de 2009 às 15:39
[...] Minha coluna da semana: Calabocracia. [...]
28 de janeiro de 2009 às 15:56
Daqui a pouco alguma mente brilhante vai criar o sistema de cotas para racistas.
28 de janeiro de 2009 às 18:11
Sou a favor das cotas não pelo motivo que todos pregam, que insere o negro na sociedade, etc., até pq eu concordo que a maneira mais “justa” seria realmente a de que todos os anti-cotas pregam, que é a melhoria geral e de tudo.
Sou a favor das cotas da mesma forma que torço pelo Mengão mesmo quando ele faz gol roubado: azar do adversário, o juiz é nosso, aha uhu. Jamais vou ficar do lado dos botafoguenses chorões só pq o gol foi injusto, da mesma forma
28 de janeiro de 2009 às 18:14
Sou a favor das cotas não pelo motivo que todos pregam, que insere o negro na sociedade, etc., até pq eu concordo que a maneira mais “justa” seria realmente a de que todos os anti-cotas pregam, que é a melhoria geral e de tudo.
Sou a favor das cotas da mesma forma que torço pelo Mengão mesmo quando ele faz gol roubado: azar do adversário, o juiz é nosso, aha uhu. Jamais vou ficar do lado dos botafoguenses chorões só pq o gol foi injusto, da mesma forma que jamais vou estar do mesmo lado em nenhum assunto dos brancos que são racistas convictos/assumidos. Não posso concordar em nada com gente que me odeia. Se os neonazistas virassem flamenguistas, eu mudava de time (ok, outra metáfora futebolistica), mas a idéia é essa.
Muitos reclamam que as cotas são injustas, mas ué, por acaso já era justo antes? Da mesma forma que os judeus correram atrás pra fazer seu país, alguém teve que se dar mal com isso….
29 de janeiro de 2009 às 11:22
essa esquete é clássica. o racismo tá camuflado na linguagem: dia de preto; negada; fazer coisa de preto; cresci ouvindo essas coisas. as cotas vão muito além da inclusão dos negros, é pra incluir pobres e índios tb. claro que um pai que paga 400 paus por mês num cursinho não vai gostar de ver seu filho concorrendo com gente que faz cursinho comunitário, sabendo que os últimos têm mais chances.
29 de janeiro de 2009 às 13:12
Engraçado é que todos os atores estão “pintados de negros” porque na TV Pirata não tinha nenhum. Nos Trapalhões, com todo o humor racial politicamente incorreto tava lá o Mussum para representar a raça - claro, com vários estereótipos pejorativos, mas humor politicamente correto não tem graça.
29 de janeiro de 2009 às 16:07
Só mesmo uma besta prá dizer que não tem racista no Brasil! Tinha que ser turco!
1 de fevereiro de 2009 às 8:45
http://www.oesquema.com.br/mauhumor/2006/05/02/entrevista-em-quadrinhos/
3 de fevereiro de 2009 às 11:55
Vivemos por aqui num preconceito rídiculamente mascarado.
Por exemplo, recentemente publiquei uma tradução de um vídeo sobre o racismo em crianças e as respostas ao vídeo falam por si só.
Link: http://www.arrobazona.com/teste-de-racismo-em-criancas/
3 de fevereiro de 2009 às 15:13
É… essa elite brasileira é mesmo muito tosca. Vê a realidade através do insulfilm, com ar condicionado. Lembro do Alckmin dizendo que o brasileiro é mesmo muito “cordial”, citando o Sérgio Buarque de Holanda… certamente ele nunca leu o autor, se tivesse lido saberia da ironia no termo “cordial”. Aliás, o mesmo autor resolve a questão de forma brilhante com seu “racismo cordial” em “Raízes do Brasil”. E parabéns por usar o vídeo da TV Pirata. Nessa época ainda havia humor inteligente na Globo e no Brasil…
21 de outubro de 2009 às 11:38
Bem, esse texto me trouxe uma idéia que volta e meia me intriga (principalmente o vídeo), mas que é apenas indiretamente ligada a ele:
A estupefação das pessoas com a mudança de cor de Michael Jackson e suas críticas quanto a sua aceitação da negritude e, ao mesmo tempo, a quase completa normalidade hoje (pelo menos nos grandes centros) da mudança de sexo, não apenas no sentido operatório.
A pessoa pode com muita naturalidade mudar sua orientação sexual, mas é mal vista se quiser mudar sua “orientação racial”.
É complicado. ao meu ver é uma espécie de contradição, poder mudar uma determinação biológica, como a sexual, mas não poder mudar uma outra, como a cor. Se alguém disser que se sente uma mulher no corpo de um homem e gostaria de mudar, não há maiores constrangimentos sociais, o sujeito pode ter uma carreira bem sucedida quase em qualquer área e não mais apenas como estilista, cabeleireiro ou apresentador de programa de fofoca, mas se o sujeito disser que não se sente bem sendo negro (ou asiático, ou o que for), e deseja mudar os traços raciais como cabelo, nariz ou lábios praticamente não haverá ambiente nos nossos dias que não considere isso uma aberração.
O racismo tem faces inusitadas…
21 de outubro de 2009 às 11:39
Bem, esse texto me trouxe uma idéia que volta e meia me intriga (principalmente o vídeo), mas que é apenas indiretamente ligada a ele:
A estupefação das pessoas com a mudança de cor de Michael Jackson e suas críticas quanto a sua aceitação da negritude e, ao mesmo tempo, a quase completa normalidade hoje (pelo menos nos grandes centros) da mudança de sexo, não apenas no sentido operatório.
A pessoa pode com muita naturalidade mudar sua orientação sexual, mas é mal vista se quiser mudar sua “orientação racial”.
É complicado. ao meu ver é uma espécie de contradição, poder mudar uma determinação biológica, como a sexual, mas não poder mudar uma outra, como a cor. Se alguém disser que se sente uma mulher no corpo de um homem e gostaria de mudar, não há maiores constrangimentos sociais, o sujeito pode ter uma carreira bem sucedida quase em qualquer área e não mais apenas como estilista, cabeleireiro ou apresentador de programa de fofoca, mas se o sujeito disser que não se sente bem sendo negro (ou asiático, ou o que for), e deseja mudar os traços raciais como cabelo, nariz ou lábios praticamente não haverá ambiente nos nossos dias que não considere isso uma aberração.
O racismo tem faces inusitadas…