3 de outubro de 2009
Cachorros gordos
BLOG, ilícito
Por Fernando Barreiros
Decidi ir beber sozinho. Era uma quinta-feira, nada para fazer. Beber. O bar ficava numa praça com cachorros gordos e pulguentos e criancinhas magras e deprimentes. Não é o lugar mais agradável do mundo ou coisa do tipo, mas fazer o quê?
O bar era uma merda. Um desses botecos vagabundos com uma grande sala ao lado com uma cama. Dá pra comer alguém lá, até o dia que você chega lá e tem um maluco de 40 anos comendo um sujeito de 17. Você perde a vontade de levar a nega que você arrumou em outro pé sujo pra essa cama, o banheiro vira uma alternativa menos asquerosa depois de alguns “drinks”.
Pedi minha cerveja e tirei um cigarro do chapéu. Um sambinha começou à tocar lá fora e botei meus fones de ouvido. Chega um sujeitinho com cara de rato e me cutuca no ombro. Me cutuca de novo e eu viro. Odeio cutucões. “Não é permitido fumar no estabelecimento.” Foda-se. Fui embora dali e fiquei na entrada esperando a vida me cobrir de dinheiro e felicidade. Aconteceu parecido.
Olho ao longe e vejo uma mulher. Por um milésimo, achei que era uma velha de cabelos brancos, mas não. Conforme foi chegando mais perto, percebi que não era uma velha e sim uma garota com cabelo descolorido, quase branco. Usava uma maquiagem meio bizarra, uma faixa verde nos olhos. Uma meia calça roxa com um shortinho que realmente deixava a imaginação de qualquer um fluir loucamente. Não sei o que foi, mas sem hesitar disse para ela “Eu odeio todo mundo menos você”. O que eu queria dizer com aquilo? Por que eu disse aquilo? Ela vai me achar um doente mental. Ela quis puxar assunto, mas eu não queria conversar com ela. Eu não queria conhecê-la. Só queria vê-la como uma idéia, um ser divino qualquer que resolveu aparecer para mim do nada. Conversamos sobre coisas banais, nossos nomes, nossas vidas, a porra toda. Inventei uma desculpa para ir embora mais cedo.
Eu não queria humanizar aquela garota, eu não queria descobrir que na verdade ela é só mais uma. Prefiro assim, que ela seja para mim um ser sem sentimentos que só ande por aí e faça o dia de quem ela atravessar o caminho. Ela talvez seja uma assombração, um fantasma talvez, foda-se.
9 comentários para “Cachorros gordos”
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3 de outubro de 2009 às 15:43
adorei. vou pensar duas vezes antes de usar shortinhos que deixem a imaginação de qualquer um fluir loucamente. hahahha
3 de outubro de 2009 às 15:44
Simplesmente, é a melhor cronica que eu já li *o*
3 de outubro de 2009 às 15:57
As vezes é melhor não humanizar as pessoas.
4 de outubro de 2009 às 9:54
Se me pegou pelo olhar e me puxou a ler até o final, só pode ser pq é bom.
7 de outubro de 2009 às 1:10
Pleno entendimento da necessidade do sonho… Por isso, amo loucamente Astbury e foda-se! hahahaha
Adorei, Fernando! Tem um Q dos malditos hehehe..
13 de outubro de 2009 às 21:32
Bah, tá tri essa crônica nandico!
Não sei pq, mas me lembrou bastante o tio Bukowski kid.
curti..
31 de outubro de 2009 às 23:18
Hehehehehehhe ! Muito massa =)
7 de dezembro de 2009 às 14:27
muito sugestivo :9
28 de dezembro de 2009 às 2:10
realmente é o texto mais do caralho que eu já li.