13 de fevereiro de 2009
Cabelos
BLOG, Chamando na chincha, Cinema, Música, O mundo lá fora, TEATRO
Por Luiz Bello
“Quando a lua estiver na sétima casa e Júpiter se alinhar com Marte, a paz guiará os planetas e o amor varrerá as estrelas”. Pra quem ainda reconhece esses versos, um aviso: neste sábado, 14 de fevereiro de 2009, durante 18 minutos, acontecerá o tão esperado alinhamento astronômico (lógico?) que daria início, enfim, a uma nova era com tudo aquilo e goiabada no meio. Tanta música, tantas surubinhas e tantos sonhos em função desse dia… Muitos neurônios para sempre perdidos e muitas imposturas reveladas pelo tempo.
A Wikipédia nos socorre e informa: a tal conjunção zodiacal foi eternizada pelo musical de James Rado, Gerome Ragni (texto e letras) e Galt MacDermot (música), que vem sendo encenado mundo afora desde 1967. “Hair” levou para a Broadway a efervecência do amor livre & drogas ao som de qualquer coisa. Dois anos antes de Woodstock, a peça falava de engajamento político (com e sem ternura), homossexualismo, masturbação, amor interracial e do Vietnã. Com todo mundo pelado. Em 2005, ainda era encenada em Londres, usando a Guerra do Golfo como pano de fundo. Remontada em 2007, no seu aniversário de 40 anos, continua sendo vista por aí…
No Brasil, “Hair” foi um dos primeiros degraus da fama para Armando Bogus, Laerte Morrone (o Garibaldo de “Vila Sésamo”), Aracy Balabanian, Bibi Vogel e, ainda, Antonio Fagundes, Nuno Leal Maia, Ney Latorraca, Denis Carvalho, Buza Ferraz e Wolf Maia, entre outros. Sem esquecer, é claro, Sônia Braga, então com 18 anos, a tigresa de unhas negras que trabalhou no “Dona Flor”, no “Beijo da Mulher-Aranha”, no “Gabriela”, no “Dancing Days”… e no “Sexy and the city”.
Quem nunca frequentou o circuito off-broadway e, muito menos, o Teatro Aquarius, no Bexiga, descobriu “Hair” em 1979. Milos Forman filmou cavalos bailando no Central Park, ao som de uma “Aquarius” funkeada , enquanto John Savage babava por Beverly D’Angelo, e a tribo de Treat Williams viajava de ácido. Mesmo sem a nudez subversiva dos anos 60 (restrita a um minuto nos palcos do Brasil, por exigência da censura) o filme encantou multidões, que acorriam às sessões no Veneza e no Comodoro como quem ia a uma manifestação na Cinelândia. Nos anos finais da ditadura, após assistir a “Laranja mecânica” com bolinhas pretas, aquilo parecia a versão cinematográfica para “O combate sexual da juventude”. Sem falar que foi muito legal ver uns milicos cantando “White black boys”. O final da “Hair” de Hollywood é diferente do da Broadway, e parece mais contundente, apesar de (ou por) ter chegado às telonas seis anos depois dos allstars terem sido varridos do sudeste asiático…
Os tabus enfrentados por aquela gente doida e nua de meia oito podem não parecer tão chocantes para quem convive com raves em transatlânticos, sexo livre e bizarro na web e biguibrôus dando umazinha embaixo do edredon. A geração que vaia a polícia em Ipanema - e é dizimada nas periferias - gosta de samba e funk, mas o psicodelismo também está por aí, extasiado, nas balas(das) e trances. Há um pequeno Vietnã em cada morro, mas a Internet já chegou às províncias. Outra revolução está rolando, filmada por celulares, editada em PCs e postada em blogs interplanetários.
But, let the sunshine in! O engajamento totalitário criticado na peça (como é fácil ser duro, diz uma das canções) provou-se um trágico atoleiro de utopias. Muitos dos que não acreditavam nas flores vencendo o canhão se profissionalizaram numa violência supostamente política, e passaram as últimas décadas semeando infernos a pretexto de nos levar pro céu. Seja ele um céu com mil virgens ou sem propriedade privada, há mais de 40 anos um bando de cabeludos já avisava que não vale a pena.
As gerações que sonharam ao som de “Hair” podem estar meio encabuladas para celebrar o tão esperado alinhamento. Ele veio, afinal, mas a utopia, de perto, parece cheia de rugas. Tudo bem. As tribos de hoje não ligam pra isso, pois têm mais o que fazer… no Central, São Dom Dom ou em Santa, na Alice, na Lapa ou no Jalapão. Animem-se, seus hippies velhos. Mesmo entre milícias, castelos e mensalões, há conquistas a celebrar. Porque viver, hoje, é mais divertido que sonhar. Se lembra quando não era? Então?…












13 de fevereiro de 2009 às 16:35
It’s easy to say no…
13 de fevereiro de 2009 às 18:10
Yes…