17 de novembro de 2008
Blogue Sem Lei V
BLOG, Blogue Sem Lei, Cinema
JAKE GRANDÃO
(”Big Jake”, EUA, 1971)
Por Luiz Henriques
Em 1909 uma quadrilha invade um rancho e mata um monte de gente e sequestra o neto da matriarca, exigindo resgate. Para trazer o menino de volta em segurança, a avó do garoto, ainda em excelente forma, resolve convocar seu marido, a quem não vê há dez anos, um homem duro para uma missão dura.
O título é “Jake grandão”, mas bem poderia ser “John Wayne contra a Gangue Selvagem”. O Duque já fizera “Rio Bravo” como uma resposta ao (que ele pensava ser) esquerdismo antiamericano de “Matar ou morrer” e sem dúvida a glorificação daqueles bastardos filhos da mãe de “Meu ódio será sua herança” o incomodou a ponto de levá-lo a planejar uma réplica. E mostrar quem ainda era o rei do oeste selvagem.
Assim o filme se passa em 1909, mais ou menos a mesma época que o clássico de Peckinpah. A abertura é similar - um grupo de sujeitos, com armamento variando entre o topo de linha disponível no começo do século XX e os revólveres e rifles que conquistaram o oeste, invade uma pacífica comunidade e provoca um banho de sangue. O líder da gangue tem um bigode similar ao de William Holden na fita anterior e veste um poncho, remetendo aos personagens que povoavam a terra do violentíssimo spaghetti western.
Aliás, a violência em “Jake grandão” incomodou muito aos fãs de Wayne na época, principalmente na abertura e no final, justamente as cenas que mostram a quadrilha de seres desprezíveis em ação. Não perceberam a referência à Wild Bunch de “Meu ódio será sua herança” e que Wayne estava a contragosto adaptando seus métodos para enfrentar aqueles sujeitos que vinham justamente contestar os verdadeiros valores americanos. Para as idéias conservadoras da fita, o século XX, com a importação do sadismo inerente à intelectualidade sofisticada, racional e atéia, era uma ameaça a tudo que levou os fundadores da nação a criarem aquele grande país. (continua aqui)
“Jake grandão” se tornou um clássico dos fins de semana da Globo no começo dos anos 80, quando estreou na telinha. Ao contrário de vários congêneres seus, ele não se beneficia da redescoberta do formato original e um monitor avantajado. George Sherman já era um diretor antiquado nos anos 30 e 40 e atualizou-se o suficiente apenas para continuar parecendo antiquado nos anos 70, perdendo a chance de criar algo como o maravilhoso anacronismo de “Os Dez Mandamentos”. Os paupérrimos negativos coloridos Eastmancolor daquela década, a iluminação chapada e a fotografia indiferente que dá à paisagem um ar de rancho no fundo do estúdio de tevê fazem com que o longa, ainda mais com seu ar conservador e familiar e de que os atores estão se divertindo, funcione melhor na televisão do que no cinema.
Esteticamente televisiva, a produção também se adequa ao meio com seu exacerbado conservadorismo. Na verdade, o longa é a concretização dos sonhos de um velho reaça. Aos 60 anos, ele é forte o suficiente pra carregar com uma mão uma mala que todos dizem pesar uma tonelada, bater no filho malcriado e partir em sua missão com seu cavalo e sua mula enquanto a patrulha montada em automóveis é massacrada. A passagem do tempo e sua vista fraquejante não são obstáculos para Wayne-Jake. Não é à toa que a gangue selvagem liderada por Richard Boone caricaturando William Holden não terá nenhuma chance.
Patrick Wayne estreou no cinema declamando muito mal suas linhas em “Rastros de ódio” e não melhorou muito de lá pra cá. O filho de Robert Mitchum, Chris Mitchum, tem a voz tonitruante do pai, mas não a presença imponente. Mas tudo bem, tanto eles quanto o guia índio de Bruce Cabot só estão lá para dar apoio ao centro da película, John Wayne.
E a essa altura da carreira, o Duque só precisava repetir mais uma vez seu velho número para ganhar ou o Oscar ou alguns milhões a mais na bilheteria. Enquanto os bangue-bangues americanos da época todos faziam elegia a uma época que já passara, Wayne usava “Jake grandão” pra dizer que ela nunca terminara. E só a morte dele a terminaria, pois durante muito tempo, e por todos os anos 80 em que esta fita rondaria a Globo, ele seria imensamente popular e um imã para o público, com sua familar e por conseguinte reconfortante fórmula de brigas cômicas (neste filme ficano meio e ele não a vence, é só um ritual entre homens de verdade, não importa o vencedor), tiroteios, rabugice, boca torta e conservadorismo. Hoje em dia Clint Eastwood já o ultrapassou como ícone do caubói, mas para quem gosta, a mistura é quase irresistível, mesmo com todos seus defeitos e reacionarismo.
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