11 de novembro de 2008
Blogue Sem Lei IV
BLOG, Blogue Sem Lei, Cinema
FLECHAS DE FOGO
(”Broken arrow”, Delmer Daves, EUA, 1950)
Por Luiz Henriques
O DVD de “Flechas de fogo” custa R$ 7,99 em bancas de jornal, mas é só botar ele pra rodar que fica bem visível o motivo pelo qual ele é tão barato. Visivelmente digitalizado a partir de uma fonte de vídeo, sua imagem é impraticável num monitor de 50 polegadas. Pra conseguir assisti-lo com um mínimo de qualidade, tive que usar a tevê de 20 polegadas. Nesse tamanho, a imagem ainda é nítida o suficiente, mas as cores estão completamente esmaecidas.
O que é uma pena, porque “Flechas de fogo”, em busca de autenticidade, foi filmado em locações no Arizona, em resplandescente Technicolor. À época Hollywood ainda não havia desenvolvido suas câmeras widescreen, razão pela qual a fita tem o mesmo formato dos velhos televisores de tubo. Com as cores gastas, a imagem borrada e pequena e sem a majestade do cinemascope, a produção passa um ar inegavelmente televisivo, ainda mais que o único ator cuja fama resistiu à passagem do tempo é James Stewart. Para tanto contribui a iluminação plana – mas em 1950, com os negativos coloridos tendo uma sensibilidade de 5 ASA, realmente era difícil trabalhar com a luz da mesma forma que no mais flexível negativo preto-e-branco.
Delmer Daves também era um diretor competente, mas não especialmente talentoso, e a miríade de seriados de tevê de bangue-bangeu dos anos 50 e 60 imitavam justamente essa estética. Assim, quando James Stewart encontra à beira de um riacho um jovem apache ferido, a imagem esmaecida e o enquadramento dão a impressão de um prólogo de Chaparral. Mas o que se segue é bem diferente.
“Flechas de fogo” é famoso por ser o primeiro bangue-bangue a tomar partido dos índios. Os papéis coadjuvantes, o de Gerônimo inclusive, são interpretados por verdadeiros apaches. O principal, de Cochise, não – foi reservado para Jeff Chandler, ator bastante popular na época, a fim de mais atrair nossa simpatia para o lado pele-vermelha. Também a gatinha nativa americana foi entregue a Debra Paget (gostosa! Gostosa!), parte por motivos similares, parte porque nos EUA até 1967 era proibido o casamente “interracial” em 16 estados e era melhor não forçar a barra. (continua aqui)
E pra época o filme realmente testa os limites da idéia de supremacia branca. Logo depois de cuidar de um menino apache, James Stewart é encontrado por outros integrantes da tribo e só escapa da morte graças ao testemunho do rapazote. Mas um grupo de mineiros é localizado ali perto e os cinco pele-vermelhas amarram e amordaçam o protagonista, enquanto emboscam e matam silenciosamente um a um os anglo-saxões que buscavam a riqueza no solo índio, uma cena forte e violenta digna da era do Vietnã, mostrando o horror da impotência dos homens de bem durante uma guerra. A crueldade é magnificada pelo óbvio conteúdo voyeurístico perverso e talvez Hitchcock tenha se inspirado ao escalar Jimmy Stewart para “Janela indiscreta”.
Gozando de certa imunidade por ter salvo a vida do adolescente ferido, Stewart paga a um batedor índio aculturado para aprender mais do que já sabe da língua e dos hábitos de Cochise e sua tribo e toma a si o papel de promover a paz entre eles e os brancos. Chegou-se a pensar em fazer os atores realmente usarem o idioma nativo, mas se até hoje os americanos não suportam legendas, em 1950 seria suicídio financeiro. De qualquer forma, esses pele-vermelhas não falam “ugh”, “rau” ou “mim ser”, mas em perfeita gramática (em inglês, fingindo ser o dialeto apache) e abusando de linguagem figurada e metáforas poéticas, para simular o modo de falar dos indígenas.
Cochise recebe Stewart, como recebeu o verdadeiro Tom Jefford, e, como na vida real, aceita deixar passar os correios civis por suas terras sem os atacar. Os dois homens acabam se tornando irmãos de sangue e (em invenção dos escritores) Stewart, ao ver a donzela Debra Paget, parente do cacique, começa a querer se unir a família através de outros fluidos também e ninguém, nem mesmo Cochise, pode culpá-lo por isso.
E o filme continua desvelando sua coerência: Cochise aceita deixar passar os correios, mas continua sua guerra e embosca um destacamento do exército. Delmer Daves enquadra vendo a cena como se por cima do ombro de Cochise, observando os cara-pálidas pequenos lá embaixo das escarpas, ao contrário da tradição, cujo ponto-de-vista normalmente é mostrar os índios de baixo, pondo a câmera e nossas simpatias no meio dos brancos viajando, com os pele-vermelhas ameaçadores e alienígenas. Os cavalarianos são massacrados e a posição liberal da fita é clara ao não fazer o cacique pagar por esse ataque mais tarde, o que é de uma tremenda coragem, levando-se em conta que um filme pretensamente progressista da muito menos conservadora década de 60 como “No calor da noite” põe a culpa do delicado assassinato de um negro em outro negro, para evitar maiores polêmicas – covardia que se tornou padrão em tramas interraciais politicamente corretas. Num enredo semelhante ao de “Flechas de fogo”, o usual seria o chefe indígena se entregar sabendo ser o preço para selar a paz. É verdade que ele terá que punir com as próprias mãos um companheiro que tenta torpedear as conversações com o exército, mas algo parecido acontecerá entre os anglo-saxões.
As cenas de ação parecem já sofrer influência do violento Anthony Mann, que praticamente ressuscitou o gênero com o espetacular e brutal (para a época) “Winchester 73” e são surpreendentemente intensas, embora muito mais ilustrativas do que orgânicas ao arco dramático. Jeff Chandler se desincumbe bem de seu cacique e fica bem claro o quanto os índios eram humilhados no cinema cada vez que estranhamos a gramática perfeita de sua prosódia. James Stewart podia carregar um bangue-bangue nas costas mesmo dormindo e aqui não é o caso. Começando a envelhecer, ele passa bem o ar cansado de quem já viu muita destruição de seu Tom Jefford. Só Debra Paget parece por demais uma normalista no meio daqueles apaches todos. E a única cena constrangedora de correção política é quando o general da Bíblia salva Jefford de uma tentativa de linchamento e declara suas honestas intenções de fazer a paz com os pele-vermelhas.
O visual do DVD é pouco impressionante e seu hoje em dia aparente ar televisivo rouba-lhe a dimensão épica, mas a fita é um pacote tenso, eficiente e divertido. E para se ter idéia do quanto era revolucionária sua posição política na época, basta dizer que mais de dez anos depois, num episódio de “Além da imaginação”, considerado um marco de escrita progressista, a tripulação de um blindado, durante um estranho treinamento, toma uma decisão suicida de viajar no tempo apenas para lutar ao lado de Custer – o que eram, afinal suas vidas, frente à oportunidade de dar uma chance ao caçador de índios com ambições presidenciais? Fechando a historinha, seu superior, que consegue inferir o destino de seus homens ao encontrar o Sherman abandonado, comenta em tom de homenagem, “pena que eles não conseguiram levar o tanque”. Uma década antes, “Flechas de fogo” já sabia que a história contada pelos vencedores nem sempre é a correta.
Apenas para esclarecer – Cochise era mais velho do que no filme, tinha 55 anos quando dos acontecimentos, e Jefford apenas 32, embora Stewart pareça mais velho. O general também é verídico e realmente não tinha o braço direito. Cochise só aceitou o tratado de paz depois que Jefford foi nomeado o agente índio da região. No entanto, os mineiros pressionaram por sua demissão, tachando-o de “amigo dos apaches” e logo depois de sua saída, o tratado foi desrespeitado e os nativos deslocados para outra região. Pelo menos Cochise não viu isso, tendo morrido um ano antes. Jefford viveu até os 82 anos, falecendo em 1914, tendo depois dessa história trabalhado como delegado em Tombstone, a terra do duelo de OK Corrall. Um dos aspectos mais interessantes do velho oeste americano é que alguém como Jefford, nascido nos anos 1830 e vivendo pelo menos uns 60 anos, provavelmente conheceu todo mundo das lendas.
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