25 de março de 2010
Blade Runner
BLOG, Recanto nerd, Star Trek, TV
Por Luiz Henriques
Quando comecei a ver “A nova geração” e fui apresentado ao Comandante Data, foi a primeira vez que realmente me toquei que no universo Trek não havia até então espaço para inteligência artificial - nada de robôs sapientes ou computadores sencientes. Revendo agora de sopetão todos os episódios da série original de “Jornada nas estrelas” é que me toquei do motivo. O capitão Kirk acabou com todos, e só na base da conversa!
Se você acha que Hannibal Lecter é o tal porque convence Miggs a se suicidar só com papo depois que ele ofende Clarice Starling, o que dizer de Kirk? Pelo jeito, o sujeito induz à autodestruição três laptops, um netbook e dois iPhones todo dia antes do café da manhã. E aí, depois de bem alimentando, é a hora da inteligência artificial.
Portanto, se você pensa, logo existe, e foi criado artificialmente, é bom ficar bem longe do maior capitão estelar de todos os tempos, ou vai descobrir que aquilo que você chamou de depressão depois de levar um pé na bunda da mulher da sua vida na verdade é uma recordação feliz que dá vontade de cantar. Depois do computador de “A hora rubra”, o M5 de “O computador supremo”, a sonda onipotente de “Nômade”, desta vez é toda uma raça de androides que fica gritando “não tem registro, não tem registro!” enquanto solta fumacinha. E não vamos nem falar do Vaal de “Fruto proibido”, que o Kirk mandou para o ostracismo à base de phaser mesmo.
Mas talvez o problema não seja exatamente o Kirk, mas sim a inteligência artificial do século XXIII. Os cientistas malucos bem intencionados criam máquinas sencientes, com consciência de si mesmas enquanto pessoas artificiais, e em vez de fazer como o Data e ir curtir sua looooooooonga vida, a plenitude da existência, essas coisas, elas parecem todas obcecadas em servir o homem. E sem o trocadilho de “Além da imaginação”. Tirando a Nômade, elas não podem ver um humano sem sair servindo um cafezinho, varrendo a casa, pondo a mesa, curando todas as suas doenças, erradicando o crime, a pobreza e a injustiça, transformando todos eles em seres idiotizados, sem vontade ou iniciativa.
Para o humanista autodidata Gene Roddenberry, o fervor semirreligioso do comunismo e estados totalitários afins, bem como o êxtase místico deviam ser profundamente desprezíveis. Sem a iniciativa própria - privada - a tendência da humanidade é a estagnação e a apatia, como ele já deixou bem claro no já citado “A hora rubra” e também “O outro lado do Paraíso”, “O lamento por Adônis” e “O fruto proibido”. Exatamente como a iniciativa privada funcionaria numa Federação em que qualquer desejo material pode ser realizado instantaneamente por replicadores movidos a energia barata e em que não existe dinheiro - ideia apenas sugerida na série original, às vezes até ignorada, mas que a partir da “Nova geração” seria implementada pelo próprio Gene em pessoa - é algo que Roddenberry nunca explicou a contento. Na verdade, essa visão materialista (não no sentido do consumismo) conflita claramente com a metafísica do zenpacifista Gene L. Coon e é justamente essa dicotomia no coração da ideologia da série que a torna muito mais interessante e complexa do que as fantasias de Guerra Fria contemporâneas, visíveis nos risíveis “Viagem ao fundo do mar” e “Perdidos no espaço”.
Mas tudo isso é papo demais prum episódio bem caidinho, claramente concebido pra ser mais um dos alívios cômicos do seriado, na trilha de “O amanhã é ontem”, “Um pedaço da ação” ou o “Problema com os pingos”. Mas enquanto o primeiro é moderadamente bem-humorado, o segundo é muito divertido e o terceiro é sensacional, este é simplesmente chato. Pra aumentar o coeficiente de comédia, foi, pela única vez na série original, recuperado um personagem de um programa anterior, o que os produtores da época evitavam fazer, já que se acreditava que constantes referências a shows que o público talvez não tivesse assistido afastaria a audiência (1). O personagem é o vigarista e trambiqueiro Mudd, que tantas dores de cabeça já tinha causado à Enterprise em “As mulheres de Mudd”. Mas o grande e sério problema aqui é que seu intérprete, Roger C. Carmel, simplesmente não é engraçado.
Carmel é barulhento, incômodo e desagradável, ao contrário dos verdadeiros vigaristas, de fala mansa e mão no seu ombro. É difícil imaginar alguém realmente acreditando nele. Tudo bem que 200.000 androides o tenham feito, mas ele era o único ser orgânico nas redondezas e eles tinham que servir a alguém. E a maneira pela qual seu mordomo-robô domina a Enterprise é extremamente tranquila. Roger Filósofo, o outro resenhista desta coluna, que já tem grandes reservas quanto à equipe de segurança da maior nave estelar de todos os tempos, ficaria irado ao ver com que facilidade um sintozoide agindo sozinho e sem usar qualquer tipo de ferramenta ou arma, toma o controle do orgulho da Frota Estelar.
Mas isso não é tudo. Depois de forçar o cruzador estelar a encaminhar-se para o cu do Universo, o robô simplesmente se desliga para esperar os quatro dias de viagem. Cadê o rádio? Não tem como pedir socorro à Federação? Kirk ficaria tranquilamente sentado esperando pra ver a Enterprise sequestrada por um desconhecido, com 430 almas a bordo, dirigir-se a sabe-se lá onde pra sabe-se lá o quê, sem tentar milhares de ideias malucas e inesperadas? Tudo bem, é um episódio cômico, e nessas horas a galera que escreve adora sacanear o Kirk, mas aqui suas ações vão contra tudo que se sabe do personagem, o qual, estabelece-se logo no começo do seriado, e depois se reforça diversas vezes, faria tudo pela sua nave.
A estadia no planeta dos androides também inclui uma à época já anacrônica piada sobre a instituição do casamento indissolúvel, a qual ainda por cima é repetida várias vezes. Um par de gêmeas e algumas atrizes parecidas tentam dobrar como milhares de sintozoides, usando, como sempre, roupinhas bem reveladoras pra época. Infelizmente o robô macho usa uma malha de helanca colante que revela mais de sua anatomia do que gostaríamos de saber, com a clareza e nitidez do DVD deixando à mostra em certos momentos o conciso tapa-sexo vestido pelo ator.
O robô macho, inclusive, o Norman, o sujeito que toma a Enterprise, é o ponto focal da inteligência coletiva dos androides (não, eles não eram borgs), e é ele que a galera da Frota Estelar leva a sair falando “não tem registro, não tem registro”, enquanto solta fumacinha, graças a um monte de palhaçadas sem sentido e o uso do paradoxo do mentiroso (“Eu nunca falo a verdade” (2)). É claro que o episódio não se dá ao trabalho de explicar como a inteligência coletiva funcionou com o sujeito a anos-luz de distância, desligado, na ponte da Enterprise, mas ninguém deveria pensar nisso numa hora de cinquenta minutos engraçadinha. Que ainda por cima termina de forma extremamente previsível desde o momento em que começa a palhaçada sobre a esposa de Mudd.
Com a produção economizando em tudo que é canto neste episódio, um convidado especial que deveria ser um engraçadíssimo picareta, mas é um desagradável chato incômodo, e um roteiro sem pé nem sentido e ainda por cima sem graça, este é um dos shows que faz a série original parecer envelhecida e torna difícil vendê-la pra quem não é fã desde a infância. Um equívoco completo quase do começo ao fim e que prova de uma vez por todas que Kirk é sem dúvida a maior persona non grata no mundo da inteligência artificial.
Digno de nota:
- Contagem de corpos: zero.
- Avistamentos de tenente Leslie: na ponte, de camisa vermelha.
- Mudd ainda protagonizaria um episódio da excelente série animada com os roteiristas e atores originais dos anos 70.
(1) E tinham razão, essa mania de hoje em dia me fez nunca me aproximar de “Lost”, por exemplo. Mas hoje em dia o povo ainda tem a opção de alugar caixas de DVD da temporada, assistir aos episódios em ordem nas reapresentações, ou mesmo consultar na Internet a história toda da coisa.
(2) Caso você tenha preguiça de pensar, o paradoxo é o seguinte: se ele nunca fala a verdade, então a frase é falsa e ele sempre diz a verdade, mas se ele está dizendo que nunca fala a verdade, então ele está mentindo. E vice-versa.
Um comentário para “Blade Runner”
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25 de março de 2010 às 13:44
Zé, o Roger acha que você não vai publicar a resenha dele pro planeta nazista porque ele fala mal do Lula.