1 de julho de 2009
Bandeirinhas ou “Acende a fogueira do meu coração”
BLOG, bolo de rolo
Por Dandara Palankof
Ilustração: Raquel Temporal
A tradição dos festejos juninos em Pernambuco é conhecida, e tem maior força no interior. Caruaru, no agreste do estado, por exemplo, vira destaque nacional junto à cidade paraibana de Campina Grande. É conhecida como a capital do forró (apesar de, provavelmente, seus rivais paraibanos discordarem disso) e, portanto, é lá que acontecem os maiores shows da segunda data mais esperada no calendário do pernambucano (o primeiro é, sem dúvida, o carnaval).
E forró em Caruaru, como era de se esperar, é coisa séria. A farra só acaba no próximo dia 10, e na programação estão nomes como Dominguinhos e Gilberto Gil (que depois de velho resolveu atacar de forrozeiro, também); as bandas vão de Falamansa até, no máximo, um Limão com Mel. Nada daquela baixaria que deu pra assolar (mais) este gênero musical, como a detestável Calcinha Preta e afins.
Mas a festa não fica só por lá e, assim como Carnaval não tem só frevo, o forró não é necessariamente a única coisa que se escuta por aqui, nessa época. Há as variações do próprio, como o baião e o xaxado, mas outros ritmos regionais, como o coco e o cavalo marinho, marcam presença nas ruas de Cabrobó, Carpina, Gravatá, Petrolina e, claro, aqui em Recife, mesmo. (continua aqui)
Toda a movimentação não chegou necessariamente a me surpreender. Brasília não é estéril ao ponto de não ter também as suas festas juninas. Acontecem, sim, e pode-se dizer que até em grande quantidade. Ainda assim, não se pode dizer que são tradição, visto que não acontece uma mobilização para que as festas ocorram.
Diferente do que ocorre em Pernambuco, onde o governo prepara os festejos (tostines: para manter viva a cultura de seu povo e ganhar com o turismo ou para ganhar com o turismo e manter viva a cultura de seu povo?), as festas brasilienses, em sua maioria, são organizadas pelas igrejas locais. Conseqüentemente, não são grandes. É um clima tranqüilo, com crianças pequenas em suas fantasias de caipira correndo de um lado para o outro estourando seus estalinhos (que aqui chamam de traque de massa). A graça mesmo é comer todas as guloseimas que não se acham facilmente nos outros meses e tomar quentão, já que as noites de Brasília, nessa época, são bastante frias. Lembram quermesses, na verdade, que em outros lugares, não têm data específica para acontecer.
Você pode ir também às festas oferecidas pelos clubes: estas, mais “descoladas” e voltadas para os jovens (descerebrados), acabam recebendo aquelas bandas cretinas esnobadas pelos cenários que, ao menos nesta época do ano, se voltam ao forró mais tradicional. Há uma festa organizada por algum diretório acadêmico, não lembro agora qual, que acontece em uma fazenda de propriedade da UnB; 30 minutos de carro, mais 15 minutos de caminhada na terra para passar mais frio do que o normal (já que a festa é no meio do mato), ouvir bandas ruins com um som ruim e não conseguir comer nem beber nada por conta das filas quilométricas causadas pela desorganização. Festa de estudante é sempre uma coisa perigosa.
E há ainda as festas japonesas. Por incrível que pareça, estão entre as mais freqüentadas do período: uma no clube nipônico da cidade, outra em um templo budista. Dá pra misturar pamonha com yakissoba ou sushi com canjica. Moderno, vá. Acho que o São João mais tradicional que consigo me lembrar na capital (a federal) acontecia na Casa do Ceará que, como se pode inferir pelo nome, é uma organização voltada justamente para a promoção da cultura deste estado, e do nordeste como um todo.
Por uma série de motivos, ainda não me empolguei para conferir a animação do interior. Mas Recife tem lá seus atrativos (ainda que os mais interessantes fiquem mesmo guardados para Caruaru; afinal, Alceu Valença e Elba Ramalho tocam por aqui, pelo menos três vezes por ano, e de graça). E este ano, como a chuva deu uma trégua, pude andar um pouco mais pela cidade.
Não há como não comparar com o Carnaval: a cidade toda entra no clima. Mas diferente da balbúrdia de fevereiro, de uma forma diferente. Mais amena, por assim dizer. Mesmo com toda a festa que há, o clima é mais familiar. Você consegue transitar pela rua, mesmo que vários pólos de festa estejam concentrados no mesmo lugar. Mas talvez o mais pitoresco seja passar pelas ruas e perceber que, mesmo que nelas não esteja acontecendo nenhuma festa, ela está apinhada de bandeirinhas. Pelas varandas e janelas, o mesmo cenário. Até os ônibus se enfeitam para a festa.
Muito mais saudável do que ver a Torcida Jovem do Sport descendo a rua, fazendo seus tradicionais arrastões, é ver vários destes jovens também uniformizados, mas de matutos, indo ou voltando de uma quadrilha. Mais uma herança européia, mas que só reconhecemos se tiver os elementos que foram por nós inseridos: se não tiver ninguém gritando “olha a chuva!”, e se não tiver casamento, não é a mesma coisa. Os concursos são muitos, bem como as adaptações que os dançarinos fazem para contar a mesma história de forma diferente (fiquei sabendo de uma este ano que fez referência aos Bois de Parintins e casou um marujo, de azul, com uma índia, de vermelho).
O mais perto que cheguei da animação de verdade foi tomar uma cerveja no Pátio de São Pedro. Há muito um templo boêmio, o quarteirão calçado por paralelepípedos, de frente à igreja de mesmo nome e cercada por bons bares, sempre concentra apresentações nas datas comemorativas da cidade. Desta vez, apinhada pelas mesmas bandeirinhas coloridas, mas com a novidade de um tablado coberto. Que foi prontamente ocupado por dançarinos de todas as idades, em diferentes níveis de habilidade, mas iguais em diversão, assim que no palco soaram as primeiras notas dos sanfoneiros com seus oito baixos.
Quase me animei a fazer o mesmo. Fica para quando eu tomar vergonha na cara de explorar os outros lados desta terra e me largar para Caruaru. E também para Arcoverde, onde todo São João, tradicionalmente toca a prata da casa Cordel do Fogo Encantado; apesar do “sotaque”, a banda mais rock n’ roll a sair de PE desde a Nação Zumbi. Viva a diversidade.
E Recife, que geralmente cheira a esgoto e urina, durante esta semana de 20 a 27 de junho, cheira a fumaça. E não aquela dos escapamentos de carros, ônibus e afins. Nem daquela outra, a de cannabis (apesar de que, se você prestar atenção em certos lugares…). Fumaça de lenha fresca. Das fogueiras acesas na frente das casas, isso sim, uma grande novidade pra mim. Viva São João. Viva São Paulo. Viva São Pedro.
Dandara Palankof nasceu em Recife, mas foi em Brasília que usou seus chapeuzinhos de palha com tranças falsas para dançar quadrilha na escola. De volta ao Recife, promete aprender a dançar forró para o arraial do ano que vem.
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