27 de julho de 2009
Baixo elitismo
Por Arnaldo Branco
Não lembro que mãe de jogador de futebol em ascensão, ainda não desfrutando as benesses de um filho ganhando em (como diria o Vicente Mateus) Eurodólares, declarou que na casa dela só tinha Skol porque Itaipava era cerveja de pobre.
Lembrei disso porque li esse texto sobre Som & Fúria, minissérie da Globo, mais um dos empreendimentos legais da emissora para se desculpar pelo Caldeirão do Huck. É verdade que é uma versão frame a frame do original inglês, com perdas irreparáveis na tradução (”Hamlet não é Tommy!” virou “Hamlet não é festa de fim de ano”, nenhum sentido) mas mesmo assim, bem bacana.
O que é bem mais do que posso dizer do texto em questão. Alguns destaques: o despropósito de sugerir segmentação de público na TV aberta, a contradição de um usuário do twitter em dizer que a ferramenta é prova da decadência da comunicação humana e a bobagem de usar comentários isolados para apontar um suposto índice de rejeição à série. Talvez esse rapaz Cimino devesse usar sua sugestão a respeito de segmentação em sua própria página no twitter.
Mas o maior flagrante é o tom “não é para o seu bico”, que trai um elitismo de pobre bem típico do nosso classemedismo cultural, em que o fracasso dos nossos artistas é explicado pelo mau gosto do público que “não sabe o que é bom”. E os artistas e a crítica, que teoricamente sabem, podem continuar achando que o ruído na comunicação está no cérebro do interlocutor e não fazendo nada para reduzir seu efeito.
É verdade que temos altos níveis de analfabetismo funcional, mas é do jogo e lidar com o problema é bem melhor que ignorar o assunto e torcer o nariz pro ibope. O cara não percebe o disparate de pedir que as emissoras não subestimem a inteligência do público fazendo a mesma coisa.
Nessas horas dá vontade de fazer como o Woody Allen naquela cena famosa e tirar a Barbara Heliodora detrás de uma pilastra para espetar o indicador no peitoral do articulista: “O que tu manja de Shakespeare, camaradinha?” Se é para bater competição de quem está mais habilitado para aproveitar a obra do cara…
13 comentários para “Baixo elitismo”
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27 de julho de 2009 às 19:44
Repito o que mimimizei lá no twitter:
ou seja, galerinha, mimimi contra orkut (nesse caso, tv) é cuspir no prato em que comeu…
As velhas mídias seriam para os desnutridos de sapiência, e, para eles, as migalhas da cultura.
mania feia, dessas de quem acha realmente que a inteligência deve ser obscura e para poucos.
–
É a mesma estirpe que adere a causas “nobres” sem um real conhecimento de causa.
Aliás, Arnaldo, referência a ti lá: http://indecidable.blogspot.com/2009/07/comunidades.html, ainda a provocação sobre o Iran.
28 de julho de 2009 às 8:12
[...] Minha coluna Mal Necessário para a Zé Pereira: Baixo elitismo. [...]
28 de julho de 2009 às 9:28
Sem saber, eu tinha lido Hamlet pouco antes do Som e Fúria e fiz uma comparação com Chaves: http://simonecampos.blogspot.com/2009/07/chespirito.html
28 de julho de 2009 às 11:48
O que eu acho foda, é a necessidade desse povo de tecer loas a essa alta cultura e ficar massacrando o zorra total e afins. Não tanto por haver algum tipo de mérito no zorra total, mas por que são os mesmos blogueirinhos que acham aquela coisa do “tenso” a piada mais engraçada da história.
Isso sem entrar no mérito das tirinhas que usam como mote piadas que já eram velhas quando eu era criança.
28 de julho de 2009 às 13:22
Traduzindo para outro universo, é que nem um torcedor do Botafogo reclamar que ninguém torce pelo Botafogo…
28 de julho de 2009 às 16:52
Acho bobagem a implicância com o Zorra Total - que outro programa tem caras realmente engraçados como o Francisco Milani e o Paulo Silvino? Só acho ruim a monocultura.
28 de julho de 2009 às 17:08
Francisco Milani?
Algum programa do céu, imagino.
28 de julho de 2009 às 17:16
@cabron
a torcida do fluminense não está tão longe! está entre a nossa e a do américa, mais próxima do américa, claro… e aliás, se tamanho fosse documento, o elefante seria dono do circo!
28 de julho de 2009 às 17:36
Arnaldo, o problema maior de “Som e Fúria” é essa vontade exagerada de demonstrar que se trata de “entretenimento de qualidade”, expressão tão mal empregada quanto, digamos, “humor inteligente”.
Fernando Meirelles não nega o sangue de publicitário, afinal.
Sobre a segmentação na programação televisiva, falta alguém audacioso para explorar melhor a faixa das 23 horas em diante - a única que permite programas para maiores de 18 anos.
Por fim, vale lembrar que até mesmo em programas ditos de “baixo nível” é possível ser original e ter alguma qualidade. Bater no Ratinho é fácil, mas quem é que dava espaço ao Artur Veríssimo na televisão há alguns anos?
O “Toma Lá, Dá Cá” dá de dez em praticamente todos os seriados brasileiros da tevê paga, onde supõe-se haver mais espaço para a criatividade.
E é aí que o classemedismo cultural mostra sua cara: não enxerga o lado bom dos canais abertos e ignora a mediocridade dos canais pagos.
Eis.
28 de julho de 2009 às 18:24
Teve, bicho.
29 de julho de 2009 às 15:35
haha boa, bruno…
Aliás o mesmo vale para o BBB… todo mundo reclama, todo mundo assiste, mas quem queria ganhar dinheiro mesmo era eu, com aqueles milhões em patrocínio……. e, porra, vamos falar de baixo nivel mesmo, são os reality shows da mtv, tem até um do tipo “vamos acompanhar este grupo de jovens no ultimo ano de formatura em sua escola em beverly hills”… qualquer coisa é mias honesta q isso.
6 de agosto de 2009 às 17:41
A questão da qualidade na TV aberta tem a ver, também, com os hábitos do público. Esperar que o público, para quem o (praticamente) único formato de dramaturgia apresentado é o do folhetim e de humor o besteirol do teatro de revista (nada contra esses formatos) vai, de imediato, dar altos índices de audiência a programas em outras formas, é irreal. Mas hábitos são construídos, por isso é importante que os canais privados abertos cometam estas “ousadias” e que existam cada vez mais e melhores opções não comerciais. O problema é que as redes comerciais são escravas do ibope, para vender anúncio, e as públicas não tem nem de perto o dinheiro que as privadas tem para produzir programas de elevado padrão técnico. O custo de um simples musical incidental num Zorra Total (muito bem produzidos) é um dinheirão num canal público…
14 de agosto de 2009 às 11:45
Bom mesma é A Grande Família. Sem piadas prontas, grandes atores, capaz de agradar qualquer um. Quer inteligência? Leia.