1 de julho de 2009
Aventuras na Sapucaí
BLOG, Cinema, Da redação, Música
Paulo Tiefenthaler é Paulo Oliveira, cozinheiro-guerrilheiro do “Larica Total”, disparado o melhor programa da TV brasileira; mas também é diretor de cinema e versado no samba.
Cria da Mocidade Independente de Padre Miguel, Mestre Jorjão é o mais polêmico e criativo diretor de bateria em atividade. Este ano, ele está de volta à Viradouro, escola na qual surpreendeu a Sapucaí em 1997 com sua batida funk, e promete mais inovações para o Carnaval de 2010.
“Jorjão”, que a Cinemateca Zé Pereira orgulhosamente apresenta, é o primero filme de Paulo, sobre o ritmista. Leia aqui uma entrevista com o diretor, na qual ele fala um pouco mais sobre Mestre Jorjão, da aventura que foi filmar o curta-metragem e de seus novos projetos.
Por que quis fazer um filme sobre o mestre Jorjão?
Porque sou fã de bateria e Jorjão é uma figura, um personagem bom! Nunca fui fã de samba-enredo e de desfile de escola de samba, desde pequeno. Alguns sambas-enredo eu gostava, como os da Portela e do Império Serrano. O que sempre me empolgava era a bateria. Meu pai chegou a filmar em Super-8, em 1978 na Avenida, passistas da Beija-Flor…. Enfim, passou o tempo… Nos anos 1997, 98, 99 eu trabalhei como repórter freelancer no núcleo da Globo que prepara a transmissão do desfile.
Em 97 o Jorjão colocou o funk na bateria da Viradouro, foi ameaçado de morte por pessoas que não sei dizer de onde (muito provavelmente da própria escola, mas isso não posso afirmar). Porque colocar um funk era uma coisa impensável antes. O que aconteceu? Ele tinha a bateria na mão e no dia resolveu fazer e fez em homenagem aos bailes funk da cidade, numa época que só rolava baixaria e porrada e crimes e o cacete. O único jurado que não aceitou foi o Wilson das Neves, que deu nota 8, e mesmo assim a escola foi campeã! Foi uma loucura. O Jorjão não pode ver o Wilson das Neves que encrenca. O Wilson me disse que samba é samba e funk é funk, é Michael Jackson. Isso em 1999, quando o entrevistei para um longa sobre as baterias que nunca saiu, saiu foi o “Jorjão”, só porque era a figura mais carismática e polêmica.
Mas nessa época, 97, eu não conhecia ele e nem rolava nada de filme. Em 98 na Avenida, de repórter, reparei naquela figura alta, magra, negra e séria puxando sua bateria para dentro da avenida. O único que não ria entre todos os mestres. O Russo da Mangueira também não era de rir. O Russo é cara duro, mas gente boa. Em 98 resolvo que vou fazer alguma coisa com Jorge, um curta experimental só com as mãos dele dando sinais e sons de bateria respondendo às mãos do mestre. Nada disso rolou.
Não tem cartela de Petrobras no filme. Como você conseguiu fazer?
Em 99 pego uma VX-1000 emprestada da minha irmã, que tinha comprado do Nachbin, seu ex-professor e colega de Globonews, e entrei com ela na mochila na Sapucaí, já que estava com crachá trânsito livre nos peitos!!! Um colega me ajudou na hora, ficou no meu “posto” na TV e eu fui ao encontro do Jorjão para gravar ele chegando e desfilando. Cenas finais do filme e durante. Fiz aquilo tudo sem técnico de som. Técnico de som só nos depoimentros na casa dele, que eu pagava do meu próprio bolso. Eu, o técnico e às vezes mais um amigo no meu carro. Pagava o rango, a diária do som e só! Na Avenida eu regulei o som da câmera naquele microfone de merda pela bateria da Uniâo da Ilha que tinha passado antes e fui na sorte. Não estourou! Achei que tinha feito um ensaio para o ano seguinte, pois pretendia voltar com câmeras 35mm em 2000! Santa ingenuidade. A Liesa não quer nem ouvir falar em documentaristas. Então eu tinha feito parte do filme naquela noite e não sabia.
Foram quatro dias de gravação: na véspera do desfile, no Bar Teria do Jorjão, na Vila Vintém, ao lado da Mocidade, o desfile e mais dois dias na casa dele um ano depois…
Um ano depois consegui uma ilha de edição de graça, um editor baratinho e bem jovem que não tinha muita experiência, pois eu na época não editava, e juntos montamos o filme. o filme foi montado exatamente como eu imaginava. Ele estreou em Beta e ficou assim por alguns festivais durante um ano. Tudo pago com a grana que eu tinha ganho na Globo como repórter. Lembrando que depois que filmei na Avenida, não fui mais chamado para trabalhar lá. Mas ganhei meu filme e viajei o Brasil todo com ele, fora os festivais no exterior, como Havana, Montevidéu, Santa Maria da Feira, Miami, Houston e várias cidades da Alemanha e Suiça com o Brasil Plural.
Um ano depois, ele ganha o edital da Riofilme para vídeos já realizados e serem transferidos para 35mm. Aí ele ganha a qualidade de som, ganha entrada nos principais festivais do Brasil e vai embora. O DVD é do 35mm, não é do video, no DVD você vê o 24fps do telecine. o som foi tratado depois e conseguimos um pequeno milagre na bateria no final do filme.
Dizem que o Jorjão é um cara difícil. Como conseguiu convence-lo a fazer o filme?
O Carlos Lemos, que era o redator-chefe da equipe de transmissão na época, me indicou para uma consultoria com saudoso (e depois muito amigo) José Carlos Rego, um jornalista negro comunista da ABI. Almoçava sempre lá, fui lá conversar com ele, que era a referência para esse assunto e autor do único livro sobre a dança do samba já escrito na face da Terra. Ele me apresenta ao Jorjão num dos ensaios da Mocidade. Naquele ano era a volta do Jorge para sua “casa”, já que seu pai tinha sido segundo presidente da escola. Ele era uma estrela, marrento, alto, viril e gostava disso tudo! Me tratou “normal”. Via aquela câmera pequena com desdém. Mas nesse primeiro dia eu não tinha levado câmera nenhuma. O primeiro dia tinha sido no Bar Teria. Quando cheguei na quadra, que fica ao lado, ele não estava e os ritmistas me disseram que eu podia gravar o que quisesse e ficar à vontade. Fiquei à vontade e puto com ele, que não estava lá como combinamos. Ok, fiquei ali e liguei pra ele. Ele atendeu e disse que estava longe, enrolado… mentira, ele estava no bar do outro lado da quadra, pelo lado de fora. Mas eu não sabia. Cansei de gravar na quadra e saí pelo lado da frente na rua do bar e fiquei ali filmando com quem não quer nada, até que vejo pelo rabo de olho ele entrando no bar com um amigo e baixando a porta pra ninguém entrar. Fui atrás e gritei por ele. Nada, até que apareceu uma mão me chamando para entrar (é o momento do filme que ele diz que “tá foda!”). O que eu fiz? Eu simplesmente não perguntei nada, deixei ele falar o que queria, atender telefone, e fui ganhando o cara, já que ele viu que eu não era um jornalista tradicional cheio de perguntas. Abrimos uma cerveja….. enfim. Quando acabou a bateria da câmera e a fita, ele mesmo já colocou uma mesa do lado de fora e aí, sim, eu fiz algumas perguntas sobre bateria e o escambau! Ele até cantou “salve a bateria da Mocidade” que está no filme em off. Depois, ele arrancou com o carro, pois estava cheio de problemas pra resolver e nos vimos no dia seguinte.
Passou um ano, ele estava na merda, desempregado, e tinha transformado a garagem da casa dele em Bangu numa vendinha para segurar o tranco. Aquele astro que tinha na época um Omega na porta, vendendo panos, escova de cabelo na porta de casa. Nessa época, eu consegui chegar de outra maneira e aí consegui chegar na pessoa simples que ele realmente é na intimidade, ele e a mulher Regilaine, que é uma figura e personagem bom tabém. Eles sempre me viam como o cara da Globo. Eu me sentia antes um minotauro, só que em vez de touro, a minha cabeça era uma câmera, eles não viam o meu rosto. Um ano depois, quando eu fui procurá-lo para continuar o filme, fui sem câmera, sozinho. Ele estava na varanda, fizemos um macarrão e falamos sobre a vida. Voltei depois com meu amigo Daniel Zarvos no som e Marcio de Andrade na câmera, pois queria falar olhando na cara dele. Ficamos esse dia lá e no Natal voltei e nâo perguntei nada, apenas filmei. Ganhamos um ao outro aos poucos.
Tens mais algum filme engatilhado?
Saindo do forno (já está editado, mixando) vem o curta “Fiquem com Deus”, sobre um garoto que é discriminado na roleta do ônibus e não gosta! E começando a gravar finalmente “A dança do samba”, inspirado no livro do Jose Carlos Rego. Acho que pela primeira vamos contar a história do samba exclusivamente pelo olhar da dança e seus criadores, os passistas e também todas as danças regionais, tanto européias quanto afro-brasileiras, que vão todas juntas ajudar na formação da coreografia total e geral do samba. Axé! Evoé! Estamos em fase de captação, e o espírito de guerrilha cinematográfica para dar um empurrão. Sem esse espírito não teria saído o “Jorjão”.
4 comentários para “Aventuras na Sapucaí”
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- “Hoje não!” é maravilhoso e todo mundo devia comprar e ouvir
- Samba no pé e em DVD
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9 de julho de 2009 às 17:35
[...] ele e o veja em ação na Avenida neste vibrante curta-metragem de Paulo Tiefenthaler - e leia aqui uma entrevista com o [...]
17 de agosto de 2009 às 17:15
Quero ver “Fiquem com Deus” no Mate Com Angu!
18 de agosto de 2009 às 15:45
Sou fã do Paulo, mandou benzaço com “Jorjão”. Parabéns, Paulo! Grande filme, grande filme.
20 de agosto de 2009 às 11:28
lindo