3 de fevereiro de 2010
Ascensão, apogeu e queda (?) do Coronel nº 2 ou You bastard!
BLOG, bolo de rolo
Por Dandara Palankof
Como nas últimas eleições eu ainda residia no Planalto Central, acho bem propício admitir publicamente que o bastardo também me enganou. Ora, há muito que eu já não compartilhava das idéias dos coleguinhas que votavam no PSTU e consideravam que se pode passar imaculado pelos joguinhos de poder. Pois bem, o cara teve acesso a uma lista sigilosa ― essas votações, a meu ver, nem deveriam sê-lo, mas isso é outra história; elas o são, foi antiético, mas se você precisasse se fortalecer no cenário político, ia contrariar o ACM? Assim, de graça? Pense bem antes de responder.
Era um delito menor. Ainda assim, um delito, que deveria ser punido. E o foi. Em termos, pelo menos. Pela retirada estratégica, que seja, mas foi, o Collor não fez praticamente a mesma coisa? Pois bem, então estamos em 2006, o velho coronel Joaquim Roriz tinha sido inocentado de mais algumas dezenas de acusações de uso da máquina pública porque haviam apenas “indícios, não provas”, e resolveu apoiar sua vice, Maria de Lurdes Abadia, para substituí-lo no GDF. Não me pergunte que briga de comadres levou o coronel a deixar seu pupilo Arruda seguir sozinho, mas ele foi lá e apresentou umas propostas de urbanização e segurança pública bem decentes; a deputada Arlete Sampaio, candidata do PT, não tinha a menor chance com o eleitorado das classes C e D, que sempre ganharam as eleições pro Roriz (vale-terra, vale-gás, vale-pão-e-leite, vale tudo no assistencialismo barato).
Então o bastardo foi lá, com aquela carinha de cão-sem-dono, fez aquele mea culpa público bem decente e qualquer retardado saberia que obviamente ele só se arrependia de ter sido descuidado a ponto de ser descoberto. Mas não é com base nisso que funcionam todos os sistemas nos quais se fundamentam essa sociedade? Das leis civis às cristãs, nossos erros podem ser perdoados se o admitirmos e pagarmos por eles. Em tese, claro, mas nada é perfeito, não é mesmo? Bom, o cara admitiu e pagou. Ele tem o direito de querer ser testado novamente. O ex-governador já tinha feito de tudo mesmo, desde fazer torneiras de ouro para o Palácio do Buriti até mandar bater em filho de editor de jornal oposicionista (o Ricardo Noblat foi praticamente escorraçado de Brasília). O que poderia ser pior?
(Mas não, não votei nele; não havia opção a não ser lavar as mãos e dar meu voto a ninguém; eu poderia até pagar pra ver as cartas do Arruda, mas ajudar a botar o dono de uma das maiores construtoras do país como vice-governador dessa terra praticamente sem lei, aí já era um pouco demais. Prova disso? Noroeste. Não sabe o que é? Google it: Noroeste + DF + Paulo Octávio.)
E temos que dar o braço a torcer, Arruda fez a lição de casa bem direitinho. Desviou bem a atenção, com um sem número de canteiros de obras, um reforço real na segurança (Deus!, que raro, uma promessa de campanha cumprida), coisa e tal; e claro, continuou desviando cada vez mais recursos de onde ninguém estava prestando atenção (prestação de serviços de informática a uma minúscula secretaria, por exemplo) e usando parte do dinheiro para comprar deputados, juízes, delegados, procuradores, e quem mais estivesse na prateleira.
Mas parece ter esquecido uma das lições que qualquer chefe de máfia decente aprende quando ainda é peixe pequeno: nunca deixe descontente alguém que sabe o que você faz quando fecha a porta atrás de si; ou você afoga o cara em dinheiro ou o joga no Lago Paranoá com sapatos de cimento. Como num rocambolesco filme de gângsters, o chefão acabou traído por um de seus homens de confiança; Durval Barbosa arruinou seu futuro político (ou não, que memória nós temos, afinal?), mas sempre poderá contar com o dinheiro que com certeza escondeu, a imunidade que conseguiu e as boas memórias da vingança que planejou cuidadosamente.
E quem é esse indivíduo que herdou a capital do país, inacreditavelmente gerida como uma grande fazenda do século XVIII? Ninguém. Não é um grande gênio do crime, não tem um pingo do carisma que tinha o nosso primeiro presidente eleito por voto direto, não se faz de pai dos pobres como seu grande mentor. É apenas alguém minimamente inteligente e que teve timing para perceber que poderia disputar com boas chances a cadeira que Roriz deixava vaga. E mesmo que não houvesse certeza de sua eleição naquele tal ano de 2006, por que não tentar? Governador do Distrito Federal é o melhor emprego do mundo se você não tem um pingo de caráter. Um dos maiores orçamentos do país e esquemas de desvio de verbas e superfaturamento praticamente institucionalizados, depois de quatro mandatos de nosso velho coronel; tudo o que se tem de fazer é seguir a partitura. A maioria dos figurões ainda é a mesma (Eurides Brito, por exemplo, é a Hebe da política brasiliense): com eles, é quase como renovar um contrato.
E se você está passando por problemas, sempre se pode contar com os jagunços mais bem uniformizados do país: a PMDF. Uma das coisas mais absurdas desta última crise tem sido a ação da polícia militar. Que tem sido televisionada em cadeia nacional. O meio de massa mais influente do país tem mostrado manifestantes sendo deliberadamente pisoteados por cavalos, um coronel destemperado que parte pro homem-a-homem com um estudante, outro que atira ao chão uma jovem que já estava dominada. Ninguém se pronuncia. Ninguém se pergunta porque tamanha violência. Ninguém se toca de que não é mais 1967, ninguém se pergunta a quem eles estão respondendo. Todos se calam. Porque quem desafia o coronel, sofre as consequências.
Tanto os manifestantes contra quanto os pró-Arruda, aliás. Que são sempre, sempre, funcionários de baixo escalão das Administrações Regionais. Entoam palavras de ordem em defesa do governador sob ameaça de perderem seus empregos. Seus eleitores? Se recolhem, não envergonhados, mas simplesmente alheios. E apesar de adesivos e pichações com “Fora Arruda” se multiplicarem pela cidade, todos sabemos que isso não vai acontecer. Não vai ser desta vez, e talvez não o seja ainda por muito tempo, que serão finalmente exterminados os parasitas que sugam essa Brasília, tão jovem no ano de seu cinquentenário, com tanto ainda pra sofrer e aprender.
Dandara Palankof nasceu em Recife, mas foi criada em Brasília, onde a única administração decente que viu foi a de Cristovam Buarque. Voltou recentemente à cidade-natal, onde ainda não conseguiu absorver a política local; de férias na Ilha da Fantasia, vê estarrecida a cidade se deteriorar.
Um comentário para “Ascensão, apogeu e queda (?) do Coronel nº 2 ou You bastard!”
Deixe um comentário
- “É que Recife é um ovo!” ou Lugares queridos – Parte II
- Da avacalhação ou “Não, colega, não tenho celular”
- Rali ou Pra que faixas?
- Ritmo de festa ou Tô me guardando pra quando o carnaval chegar – Parte II
- Ascensão, apogeu e queda (?) do Coronel nº 2 ou You bastard!
- Orbital ou Como ser (sempre) uma estrangeira na própria terra
- Vício e virtude ou Tempos modernos
- Calcanhar de Aquiles ou Do andar de ônibus – Parte III
- Ainda pulsa ou Onde se cruzam as linhas
- Traço (borrado) do arquiteto ou O que diabos esse povo tem, afinal? – II
- Ano II ou O que importa
- Notivagações ou Rumos (in)certos de um Cais
- “Como alguém se perde numa cidade que sempre quis conhecer?” ou Do andar de ônibus – Parte II
- Nerds, assemble! ou A difícil vida de uma nerd em Recife
- Segundona ou Anotações gerais de um cenário futebolístico II
- Alegria e preguiça ou Brasílias
- Como deixar a vida pra trás por três dias ou Praias mais pra lá – Parte I
- Chegada ou Conto de duas cidades
- Quantos exemplares de livros da Meg Cabot podem haver no mundo ou A Bienal de Pernambuco
- Trincheiras ou Lugares queridos – Parte I
- Dos festivais ou O Coquetel Molotov e eu
- Tempo x Deslocamento ou Do andar de ônibus – Parte I
- Olinda – Parte II ou A Mimo é quase um
- Miscelânea ou “Um DVD é dois, três é cinco” à “Bermuda, só 19,90”
- Tipos – Parte I ou “Vamos fazer uma performance!”
- Diferenças lexicais ou Do pernambuquês
- “In The Garage” ou A casa (literalmente) caiu
- Brasília em Recife ou De novo, “Do mesmo ar”
- A cidade-irmã ou Olinda – Parte I
- Yes, nós temos inverno ou Vamos pro FIG?
- Mercados – Parte II ou Em busca da macaxeira perfeita
- Sobre a imundície ou Vivendo em Ankh-Morpork
- Bandeirinhas ou “Acende a fogueira do meu coração”
- Mercados – Parte I ou Cerveja barata, afinal
- Decadência ou Razões para não morar em Boa Viagem
- Minha primeira vez na Ilha do Retiro ou Anotações gerais de um cenário futebolístico
- Tô me guardando pra quando o Carnaval chegar ou O que diabos esse povo tem, afinal?











3 de fevereiro de 2010 às 18:18
o arruda dá sentido estrito ao pejorativo pusilânime.