18 de agosto de 2008
As portas da percepção
Por Arnaldo Branco
Uma coisa que nunca entendi em heróis como o Homem-Aranha e o Super-Homem é porque se submetem à jornada de trabalho e a remuneração de um jornalista. Os caras tem a capacidade de fazer o trabalho de dez homens (se a contabilidade é mesmo essa a Seleção Brasileira poderia ser Julio Cesar + Super-Homem) e escolhem justamente um que não precisa de um inteiro, pelo menos no que diz respeito ao cérebro. Nelson Rodrigues dizia que ficava chocado com o barulho incessante das máquinas de escrever quando trabalhava em jornal - tinha a impressão que as Remingtons pensavam por seus colegas de redação, já que eles pareciam muito ocupados para se dar ao trabalho. É por aí. Quem já passou pela experiência quase lisérgica de ser entrevistado sabe do que estou falando. Não existe técnica em nenhum estúdio de gravação que consiga o efeito de distorção da fala de que um jornalista é capaz. Só o o despreparo não pode explicar a total mudança de sentido de uma frase depois de processada pelo cérebro de um repórter - os caras devem captar outra frequência, como os cachorros. A diversidade de idéias costuma confundir nossos bravos operários da palavra, que preferem suas próprias versões do fato não importa o quanto você tente oferecer a sua, e apesar do pequeno detalhe de ser você o entrevistado. Mas é recomendável não se queixar, porque se indispor com um deles é desafiar um esprit du corps só comparável ao que eles costumam denunciar no Senado e na Câmara. Vivemos em um país democrático onde um semiletrado pode virar presidente, ou fazer carreira escrevendo sobre ele. A vantagem deste último é que nunca vai trair seu ideais - porque não lhe pertencem, de qualquer modo.
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