3 de outubro de 2009
Proezas da Belair
BLOG, Cinema, Festival do Rio 2009
Por Eduardo Souza Lima
Entre fevereiro e maio de 1970, a Belair realizou sete filmes de longa metragem. A produtora de Julio Bressane e Rogério Sganzerla é um caso único na história do cinema brasileiro. Sua façanha é relembrada no documentário “Belair”, de Bruno Safadi (que a gente já entrevistou aqui sobre seu filme anterior, “Meu nome é Dindi”) e Noa Bressane, que passa logo mais, às 17h, no Odeon. Bruno, que foi assistente de direção de Bressane, nos concedeu a entrevista abaixo.
O que seu documentário conta sobre a Belair que ninguém sabia?
O filme revela que o Luís Severiano Ribeiro Jr. foi uma das pessoas-chave para que a Belair tenha existido. Ele foi um dos produtores da Belair e acreditava que os filmes podiam ter distribuição. Quando assistiu ao primeiro filme produzido pela Belair (”A família do barulho”), ele disse: “Isso é uma nova chanchada!”. E o Severiano era o maior exibidor do Brasil.
Película custa caro e mesmo hoje, com as facilidades da tecnologia digital, é difícil repetir o feito da Belair. Como Bressane e Sganzerla conseguiram? De onde veio a grana, por exemplo? Quanto custaria um filme da Belair hoje?
Bom, a questão é complexa. Creio que houve uma série de fatores. Sem dúvida, a época foi definitiva para aquelas realizações. O momento. Em segundo lugar, Julio e Rogério eram realizadores que já vinham fazendo filmes, já tinham experiência. Não foi uma experiência de garotos. Eles eram muito jovens, mas estavam muito preparados. O Julio tinha vindo de uma experiência forte poucos meses antes, em 1969, quando fez de uma só vez “O anjo nasceu” e o “Matou a família e foi ao cinema”. Seis meses depois, ele estava radicalizando ainda mais essa experiência, fazendo a Belair. Havia na Belair uma consciência industrial. Dois diretores, os mesmos atores, a mesma equipe técnica, poucas locações… Enquanto um filmava o outro montava, e assim ia.
A grana veio em boa parte deles mesmos, principalmente do Julio. Havia também essa ajuda do Severiano Ribeiro, que deu negativos, créditos nos laboratórios de imagem e som etc.
Já quanto custaria hoje, não sei bem dizer. Acho sinceramente que essas coisas não tem muitas traduções. A Belair foi um produto do tempo dela, feito por pessoas daquele e naquele tempo. Posso dizer do “Dindi”, que foi uma produção independente hoje, finalizado em 35mm, que custou uns R$ 250 mil. Mas fazer e finalizar um filme em vídeo hoje pode custar R$ 20 mil ou menos.
Quando e como você começou a se interessar pela história da Belair?
Lembro-me de me interessar pelo cinema da Belair em 1999, 2000. Tinha 19 anos, trabalhava na produtora Plus Ultra, com os irmãos Leonardo e Gustavo Duarte. Eles eram aficcionados pelos filmes do Rogério e do Julio. O Leo tinha sido assistente do Julio no “São Jerônimo”. Aos poucos, o Leo foi me mostrando os filmes deles. Na empolgação, nós resolvemos organizar uma mostra da Belair. Era 2000 e a Belair estava fazendo 30 anos. Os filmes estavam completamante esquecidos e nós fomos atrás, sem um centavo, nem apoio. Paralelamente, o Leo me levou pra fazer o “Dias de Nietzsche em Turim”. Foi quando conheci o Júlio. Aí me aproximei dele, da obra dele e de todo esse universo fascinante e pouco conhecido. Um verdadeiro tesouro para um jovem que na época tinha 19, 20 anos e que até hoje está aprendendo com esse filmes.
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