3 de outubro de 2008
Alô, Walt!, continuamos amigos!
BLOG, Cinema, Festival do Rio 2008
WALT DISNEY & O GRUPO
(”Walt Disney & El Grupo, Theodore Thomas, EUA, 2007)
Por Luiz Bello
Um dos filmes mais politicamente oportunos da mostra, “Walt Disney & O Grupo” homenageia a cultura brasileira, dá uma bofetada na cara dos cariocas e desmente a lenda urbana de que o corpo do criador de Mickey teria sido congelado
Califórnia, 1941. Walt Disney acaba de ganhar uns US$ 2 milhões com “Branca de Neve” e de gastar uns US$ 4 milhões em seu primeiro estúdio. Mas a II Guerra começa, a economia muda e o cara se vê atolado em dívidas. Pela primeira vez, eclode uma greve em sua empresa.
Pintam os caras do governo com uma bela oportunidade: visitar à América Latina, para tentar neutralizar a crescente influência nazista na região. A viagem deveria dar origem a um filme, mesclando as culturas locais com a americana, para reaproximar o Tio Sam de seus irmãozinhos do sul. Tudo pago pela Casa Branca, com garantia de retorno financeiro mesmo se o filme não fosse bem sucedido nas bilheterias. Paralelamente, os caras do governo ajudariam a desenrolar a greve enquanto papai Walt estivesse fora. Caraca! Como recusar?!
Assim começa “Walt Disney & o Grupo”, reconstituindo a viagem que deu origem aos ícones da Política de Boa Vizinhança, como Zé Carioca e Pato Donald sambando no Brasil. Sobram depoimentos de descendentes dos americanos, brasileiros, argentinos e chilenos envolvidos na aventura – além de fotos e filmes (coloridos!) da época, obtidos nos arquivos da Disney. Tarefa fácil para o diretor Theodore Thomas, filho de um antigo empregado do lugar…
Sentindo cheiro de colonialismo cultural? Esqueça. Ou relembre e vaie. Problema seu. Reminiscências dos descendentes do casal Disney e do “Grupo” vão humanizando os mitos e colocando a geopolítica de Washington em segundo plano. Cartas da época e depoimentos de velhos artistas latino-americanos vão mostrando o inevitável: as montanhas do Rio, os assados portenhos e as cordilheiras chilenas piraram o cabeção de animadores, sonoplastas e coloristas a serviço de papai Walt.
É nítido o predomínio do Brasil, seja no filme produzido após a histórica viagem – “Alô, amigos” – seja no próprio documentário de Theodore Thomas. Ele foi carinhoso com nossos vizinhos de continente. Mas candomblés e rodas de samba calaram mais fundo que os encontros culturais havidos na Argentina, Chile e Bolívia. Sem mencionar os papos com Ary Barroso e os shows no Cassino da Urca. Thomas reconhece os maneirismos culturais de “Alô, amigos”, e os contextualiza na atmosfera encontrada por Disney em sua volta para casa. Ao mesmo tempo, o diretor musical James Stemple atualiza a bossa de nosso Ary, colocando-o para tocar com Hermeto e Mart’nália.
Essas feras aí quase são superadas por uma dupla de velhinhas cantando “Xicravus xixó”, merchandising impagável para nossa publicação. Além de Daniel Dantas, Warren Buffett e Bill Gates, também a Walt Disney Pruductions está comendo na nossa mão. Por falar em lendas, a equipe de Thomas alinhou hilários depoimentos de hermanos argentinos para desmentir aquela velha história sobre o corpo do criador do Mickey Mouse: ele não foi congelado. Trata-se de um mito. Você acredita? Pois é…
Lendas urbanas à parte, a história da expedição patrocinada pelo Departamento de Estado dos EUA virou homenagem indireta à nossa cultura. E aí, vem a porrada: as ruínas do Cassino da Urca, em takes constrangedores. Às vésperas das eleições municipais, nada mais oportuno e vergonhoso do que um gringo mostrando nosso patrimônio cultural transformado em lixo e eterno pretexto para negociatas sem fim. Herança dessa gente que pusemos na prefeitura. Boa coisa para se pensar até domingo.
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